Que benefícios a música do Kid Abelha trouxe para sua vida?

Se sentindo o bam bam bam da rua, trajado com sua calça jeans da Ellus e seu tênis All Star de cano longo de cor branca, tradicionalíssimo, o Zeca ia todo sorridente encontrar Ritinha, a namorada que ele conhecera havia dois anos ou mais. Subia ele a Dias Bicalho. Ela estaria no encontro da Abraão Caram com a rua que dava no Mineirinho, perto do Xodó da Vovó.

Enquanto ele seguia para mais um encontro com a namorada, na contramão descia um rapaz de aparência bem estranha. O doido parou o Zeca para lhe fazer uma pergunta.

“Que benefícios a música do Kid Abelha trouxe para a sua vida”. Deixou a pergunta e, se mantendo indiferente, continuou descendo e evaporou-se. Já a rotina do Zeca mudou-se. Ele ficou perplexo com a ocasião, perguntando para si o porquê de aquele estranho rapaz lhe ter deixado essa pergunta.

“Vai ver o cara estava invocado com a banda”. “Ele não deve gostar da Paula Toller”. “Será que ele quis chamar atenção para algo profundo demais”. Zeca se martirizava com essas indagações. Ele, então, começou a cantar refrãos de músicas do Kid para ver se ele encontrava em uma das músicas da banda aquela frase inspiradora ou aquela mensagem que faz alguém concluir algo de interessante.

“Alice não me escreva aquela carta de amor”, “deixa eu ser seu espião, alguém tem que controlar o seu coração”, “diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério, tira essa bermuda, eu quero você sério”. Na cabeça do Zeca o estranho ganhava razão.

Mas ele não condenou o Kid assim de primeira. Se uma banda não traz benefícios pra ninguém com o que canta, muitas outras também não. Começou a passar na mente do Zeca ícones da música nacional e internacional.

Beatles, Rolling Stones, The Doors, Pink Floyd. A Cor do Som, Biafra, Djavan, Jorge Ben Jor. Ninguém parecia lhe dizer alguma coisa ou trazer-lhe um benefício real, que ele pudesse pegar e esfregar na cara do estranho, cuja fala, naquele pedacinho de tempo estava corrompendo sua cabeça com relação à música.

Mas, ao virar uma rua, de onde se ouvia o barulho do som que vinha de dentro de uma casa, Renato Russo dava esperanças ao trabalhador dizendo que um dia o dia dele iria chegar. Eram versos da canção “Fábrica”.

Aí, Zeca viu exceção. E outras exceções mais lhe vieram. A ponto de Zeca decidir que o que ele achou que o homem lhe tivesse a dizer não era nada do que lhe estava incomodando. Ele, então, deixou o caso para lá e recompôs-se.

Sete e meia da noite quase. Ritinha abriu um sorriso largo quando viu Zeca aparecer na esquina. Eles se beijaram, pegaram na mão um do outro e sairam andando em direção ao Mineiríssimo. Carros subiam e desciam. O vendedor de cachorro-quente da esquina ofereceu ao casal seu produto.

A fria noite de junho obrigou a ambos colocar de vez o capote que levavam a tiracolo. Zeca não hesitou em ajudar a sua princesinha a colocar o dela.Afinal ela era a mulher que mudou para sempre a sua pacata e desesperançada vida. Quando ela apareceu ele estava prestes a se dar um fim. E lá estava ele: vivaço e feliz.

Faltavam só mais alguns metros para que ambos enxergassem o Mineiríssimo. Era uma casa de show. Flávio Venturini ia tocar nela naquela noite. Suas músicas românticas iam combinar bem com o que o casal estava sentindo pela relação. E logo ali, bem em frente ao ginásio do Mineirinho, onde os dois se conheceram, havia dois anos ou mais, durante um show do Kid Abelha.

Nem sempre a função de um artista, de uma dupla ou de uma banda, ou da música que eles fazem é falar-nos alguma coisa. Às vezes é simplesmente fazer algo acontecer por algum motivo por causa deles.

Leia o livro “Contos de Verão: A casa da fantasia”, deste autor.

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