A corrupção do hábito de ler

O livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, preconizava em 1932 que no futuro o homem iria perder o gosto pela leitura. Isso não por se tratar de um fenômeno natural indiscutível, devido ao surgimento de mídias mais atraentes, mas por que sofreria o hábito de ler o combate severo de uma elite interessada em manter o homem com o saber obscurecido e centrado ou, se possível, na completa falta de saber. Isso porque a leitura por meio de livros, principalmente os impressos em papel e sem gravuras, é completamente favorável à interpretação individual, com a respectiva análise do conteúdo interpretado. Em outras palavras, o livro é poderoso como orientador e é também libertador para aquele que o lê.

Tanto a obediência quanto a anarquia foram levados pela primeira vez ao homem através de livros.

Essa preocupação em matar no homem o gosto pela leitura é antiga. Restringir ou queimar livros era constante em tempos remotos. Considerar a leitura um hábito perigoso idem. Para se consumar o fato, faltava apenas a oportunidade de surgir novas mídias para transportar informação e providenciar entretenimento.

A natureza lacônica e corruptível com que se descreve a informação veiculada nos periódicos faz com que os jornais sejam vistos como herdeiros traiçoeiros dos livros. As revistas idem. Ambos, carregando fotos se tornam ainda mais propensos à corrupção da leitura.

O crescimento da pintura ou das artes em gravura chegou a ser uma promessa. Ainda hoje, muitos acreditam que uma imagem vale por mil palavras. Quando a fotografia apareceu, isso se tornou mais verossímil. A fotografia não apareceu de cara com os truques que enfraquecem sua autenticidade, como é hoje com os softwares de manipulação de imagens, que fazem qualquer cena intrigante, mesmo que verdadeira, se tornar duvidosa. Os conspiradores contra o ato de ler, então, viram na fotografia um aliado.

Depois vieram os quadrinhos. E a leitura associada a imagem feita dentro de balões era bom mecanismo para se desviar a interpretação. A Conspiração, logo, investiu nas histórias em quadrinhos. E elas cresceram e caminharam livremente. Até que deram conta de que elas também eram fortes como expressão de leitura. Graças a rebeldia de alguns roteiristas de histórias originais e quadrinistas que quadrinizavam enredos contados em livros.

O rádio marcou época. Veiculando musicas e notícias mantinha afastada dos livros pelo menos a classe popular. Exatamente a classe que a elite conspiradora queria manter longe das páginas escritas. A ideia é que essa classe jamais ascendesse culturalmente. Indivíduo culto é indivíduo poderoso.

Mas o rádio também se revoltou quando iniciou um ciclo de levar à sua audiência conteúdos literários que viravam peças de dramaturgia. O que foi denominado radionovelas.

Nisso, leitores que a essa altura já estavam preguiçosos ficavam livres de praticar o ato de ler, mas recebiam a informação extraídas de textos literários da mesma forma. E os cegos foram incluídos no contingente a receber a informação. Com apenas uma desvantagem: a dramaturgia faz com que a interpretação de uma história se torne centrada, de acordo com a ótica de quem a interpreta.

O cinema se sagrou como um dos principais corruptores do hábito de ler. Mesmo com o público fora da origem de um filme não se dando conta de que ler toda a legenda equivale a ler todo o roteiro escrito. Que também é um livro.

Quando o cinema adapta uma obra literária, o resultado não é seguramente positivo do ponto de vista de levar conhecimento
para a plateia e dar a ela uma opinião forte e independente. O poder que o cinema tem para influenciar opiniões é compatível com o que os livros têm para ajudar a formá-las de maneira independente. Mas, quase nunca é usado para o bem do espectador. Quase sempre corrompe a sua visão a respeito de algo que é proposto na tela.

Enfim, a televisão. A pior das mídias corruptoras de opinião. A TV reúne todo tipo de linguagem que o homem pode se valer para se comunicar. Nela reside a imagem estática e em movimento, o áudio e também os textos.

E essas mídias reunidas trabalham em função daquilo que o filósofo da Inteligência Coletiva, Pierre Lévy, chamou de instrução programada. A TV não só instrui como também programa a mente das pessoas. E sempre a favorecer os grupos que compram as produções e as opiniões a serem dadas por ela. Estes, os mesmos que há tanto querem sabotar a leitura.

O homem que não lê bons livros não tem vantagem nenhuma sobre o homem que não sabe ler.
(Mark Twain)

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