A fé que remove montanhas

Um ônibus passava por uma rodovia, seguindo seu itinerário, quando entrou em um congestionamento. Um trecho da pista no sentido contrário estava isolado devido ao risco de queda de um caminhão Mercedes, que tombara no alto de uma ribanceira e estava sendo sustentado pela cabina e por toda a lateral esquerda do veículo.

As rodas ficaram para o ar, viradas para a rua onde o caminhão estava antes de se envolver no acidente e para a gente curiosa e aflita que observava o desespero suprimido do motorista, que dentro da cabina se esforçava para não se mexer, imaginando que qualquer movimento o poria cinco metros a baixo. Seu semblante, que podia ser visto de certo ângulo privilegiado, sugeria estar ele a pedir aos céus pela sobrevivência.

O corpo de bombeiros já estava no local a preparar a estratégia de socorro. Os carros que vinham no sentido concomitante ao trecho isolado estavam sendo orientados por um guarda rodoviário a virar à direita, atravessar a pista da contramão na rodovia e entrar em uma via coletora para evitar a área de risco, além de amenizar o congestionamento, pois, àquela hora da manhã o tráfego nas duas vias da rodovia era intenso. Essa manobra do guarda orientador é que fez com que o ônibus parasse.

Dentro do ônibus, as pessoas deixaram de lado o assunto obtido através do Jornal Nacional da TV Globo, de uma emissora de rádio qualquer ou de um jornaleco desses que custam 25 centavos, e voltaram suas preocupações para o imprevisto. Os malogros da política que os noticiários usam como carro-chefe para o seu faturamento, foram forçados a serem deixados de lado.

Pela janela observavam a situação enervante, sentados um do lado do outro, uma mulher jovem e um homem de meia-idade. Não se conheciam, mas, a circunstância caótica fê-los puxar assunto entre si.

— Ele vai se safar dessa! Disse o homem. — Como sabe? Foi ela quem disse.

— Para esse caminhão ter parado nessa ribanceira desse jeito, no último milímetro dela, só pode ter sido a fé dele que o fez parar. O estado de desespero altera nossa consciência, faz-nos perder a razão e entrar em contato com o nosso eu verdadeiro e fazê-lo operar. Criamos uma força desconhecida, que é capaz de agir sobre a matéria.

— Você parece saber muito sobre fé? A moça indagou.

— Todos nós sabemos. Você só me perguntou isso porque no fundo bateu-lhe uma compreensão bastante nitida, como se fizesse parte de você.

A moça silenciou-se um instante e pôs-se a observar o acidente. O homem ao seu lado fez para ela uma pergunta.

— Você conhece a sensação da Fé? Ela retornou a pergunta tentando confirmá-la. — Sensação da Fé?

— Sim. A fé também é material. Ela pode ser sentida. Você é convicta de alguma coisa? Se é, aquilo em que você tem convicção lhe faz sentir de um certo jeito quando você pensa nisso. Uma sensação de segurança, de certeza. Internamente parecemos a enrijecer, a ficarmos duros como uma pedra, de tanta convicção. E a convicção faz-nos realizar coisas.

“Alguém que está convicto de que os gatos falam, se não obtiver provas disso, se convencerá também de que eles são teimosos”. Fraseou o homem e continuou a dar exemplos.

— Há uma forma muito fácil de você saber quando sente confiança. Na vida, em tudo há dualidade. Para a fé, há a dúvida. Se você não está sentindo fé, está sentindo dúvida. A neutralidade é outra possibilidade. Refaço a minha observação então, transformando a realidade em trina. E saber quando temos dúvida é muito mais fácil, pois dúvida é o mesmo que medo. Se sentimos medo estamos com dúvida. Se o que sentimos não é dúvida, então é fé ou a neutralidade. Porém, a neutralidade, aquela sensação de indiferença quanto à circunstância, de tanto faz, também é fácil de se perceber.

Reparou essas pessoas quando elas falavam sobre a política? Elas tinham opiniões uniformes. E todas elas demonstravam indignação. A indignação também é medo, é uma incerteza quanto ao futuro, portanto é dúvida.

As pessoas passam o tempo todo se expondo à mídia e se enchendo de dúvidas. E, consequentemente, de medo, de insegurança, de incertezas, de rancor. É só o que a mídia tem para nós. A mídia é paga para nos criar esses medos. Sobre o que ela notícia nós não temos dúvida. Temos plena confiança na notícia que ela nos dá. Nem consultamos os órgãos oficiais para nos certificarmos da integridade ou da coerência do que é dito. Deixamos tudo por conta dela, apenas reagimos como ela quer que reajamos.

Com respeito à dúvida que a mídia nos enche, não temos qualquer dúvida. Temos plena convicção de que os fatos aqui fora são exatamente o que a mídia nos reporta. Com isso, acabamos por criar na nossa realidade o que é nos imposto a criar. Nada que nos satisfaz, mas, ainda assim, criamos. Esse é o grande perigo de gastarmos tanto tempo nos expondo à mídia.

O homem, então, observou à moça que os homens do corpo de bombeiros chegavam um cabo de aço ao para-choque e a outras partes do caminhão. Certamente haveriam eles de puxar o veículo, para consertá-lo, em direção à rua da qual o mesmo saíra. Assim, o homem estaria a salvo em pouco tempo. Lembrou ele, que se tudo desse errado, se as leis da gravidade não pudessem mais esperar pelo esforço dos bombeiros e o caminhão sofresse queda, dependendo do tamanho da fé do motorista, algo do que fosse possível acontecer aconteceria dentro da cabina e o faria sair da situação sem nenhum arranhão. O milagre seria de acordo com o que fosse pedido. Por isso, ao solicitar milagres, não poupe.

Ao deixar o assento, ele que saiu primeiro, agradeceu à moça a oportunidade de expor seu pensamento, deixando para ela o desejo de um trino fraternal abraço.

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