O que havia de bom naquilo que eu fazia

Semana passada inaugurei aqui neste site uma série de postagens para as terças-feiras com o tema “por que agimos como agimos”, que tem a finalidade de explicar o porquê de tomarmos certas atitudes ou de desejarmos certas coisas ou de irmos nas instituições que vamos. Hoje inauguro uma nova série, que intercalará a outra, que tem a finalidade de fazer refletir sobre o que nós herdamos de bom ou de ruim de certos hobbies, certos comportamentos, certas supertições ou até mesmo de certas bobeiras que eram praticadas outrora. E hoje vamos começar com uma delas, discutindo sobre em que foi bom aquela brincadeira de remendar os outros para aquela geração que brincou muito disso.

Era uma danação, um mano ficava de picuinha com o outro, aí queria remendá-lo para provocá-lo. Fulano, então, colocava a mão na cabeça, tava lá Cicrano com a mão dele também na própria cabeça. Fulano falava alguma coisa, Cicrano repetia. Chegava a um ponto que dava nos nervos. E Fulano gritava pela mãe: “Mãe, Cicrano tá me remendando. Vou dar nele.”. E o pau quebrava ou o tamanco da mãe subia ou então a brincadeira sossegava só com o pronunciar da frase “se eu for aí vocês não vão gostar”, dita pela mãe.

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Mas, o que de bom a brincadeira de remendar pode ter trazido para aquela gente, agora que todo o mundo cresceu?

Basicamente, remendar é imitar o que o outro faz. Isso em PNL — programação neurolinguística — é o mesmo que rapport ou espelhamento. Estabelecer rapport ou espelhar os outros é se mostrar idêntico a alguém. E com isso conquistá-lo por ele se sentir similar a quem pratica a imitação. Técnica muito empregada em vendas científicas e por mentalistas.

Certa vez eu li um livro sobre psicologia para seduzir pessoas, livro que prepara o leitor para se tornar um bom vendedor e para angariar conquistas amorosas, que o emprego do espelhamento é bastante útil para seduzir alguém. É uma sedução hipnótica o que acontece. A pessoa imitada se sente identificada com o imitador. Ela não sabe que ele está a imitando. Ela acha que ele age naturalmente e que apenas existe sincronismo entre eles.

O livro define o espelhamento como uma tática de imitar os gestos de um indivíduo alvejado. Uma pessoa coloca a mão na cabeça alisando os cabelos, um instante depois — não imediatamente — quem deseja abordá-la após usar a tática deve fazer o mesmo — sem exagerar, é lógico, não é tudo que a pessoa fizer que se vá fazer.

Na cabeça da pessoa influenciada se passa o seguinte: “Se essa pessoa tem os mesmos impulsos e faz os mesmos gestos que eu, logo, temos coisas em comum, vale a pena aproximar dela para discutirmos isso”. Ela pode também achar que influencia seu imitador. Então, inevitavelmente ela abaixa a guarda. Se o imitador quiser falar com ela é só ele se aproximar. Encurta-se ou elimina-se cerimônias, além de aumentar a chance de conquista ou de venda.

A recíproca também é verdadeira: Se um imitador faz um gesto qualquer, ele pode observar no local onde está se alguém o repete. Se sim, este o fara, geralmente, inconscientemente. Dessa forma ele descobre quem no local ele consegue influenciar. O exemplo mais clássico disso é o ato de bocejar em público: mal se acaba de fechar a boca e já se vê várias pessoas dando tapinhas nas suas.

Por sempre terminar em irritação, o remendo parece ter efeito contrário ao do rapport ou do espelhamento. Engana-se quem pensa assim, o efeito é o mesmo: influenciar alguém a ter o comportamento que se tem em mente que ele tenha. No remendo, quem remenda espera é que o outro se irrite mesmo. O influencia a irritar-se.

Um ótimo caso para se ilustrar a influência por meio da detecção de semelhanças vem dos rappers e da cultura do hip hop. Os membros desse círculo se aproximam uns dos outros, mesmo sem se conhecerem, sem muita cerimônia. Basta para eles identificar a forma como o outro se veste, como este se movimenta, os gestos que faz, as gírias que pronuncia e o linguajar em geral, considerando tom e timbre de voz, os assuntos que os interessam discutir, a música que ouvem e uma série de outros codificadores pertinentes do grupo.

Acontece também identificação de semelhante entre aqueles que repugnam a cultura hip hop. O fato de uma pessoa não tolerar um ou outro detalhe típico da cultura pode servir de gancho para que duas pessoas que possuem o mesmo tipo de opinião se aproximem. Nisso elas conversam entre si e acabam por descobrir pontos em comum e fazendo a sua rede. O que é fatal de acontecer.

Há muito o que se extrair disso e aprender para utilizar e melhorar o dia a dia das pessoas. É a forma sadia de promover separação em grupos, de selecionar sem choque, respeitando-se limites para que haja a coexistência.

Pode se esperar haver comunidades de iguais ou amantes compatíveis, com bastante redução de incertezas, só em se aplicar essa observação que viabiliza a filtragem. Vendedores e outros negociantes podem dar cartadas mais seguras; artistas podem encontrar o seu público com mais certeza de ter boa recepção; seria o fim da timidez e da solidão. Tudo por causa do aumento da confiança e da segurança dada pela leitura feita, com o emprego da técnica, de um ambiente e dos presentes nele.

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