O manual do revolucionário

Continuando a série que mostra os livros citados no livro “Os meninos da Rua Albatroz”, segue texto sobre o “Mini-manual do guerrilheiro urbano”, de Carlos Marighella, escrito em 1969, mimeografado e distribuído, em diversas versões, em junho do mesmo ano.

A célebre obra serviu de orientação aos movimentos revolucionários de esquerda que inflaram o cenário político brasileiro dos anos de chumbo. O livro inspirou a jornalista alemã Ulrike Meinhoff a escrever o seu “Conceito da Guerrilha Urbana”, publicado em 1971, e ajudou na orientação da luta das Brigadas Vermelhas, grupo italiano de combate ao sistema na Itália.

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Em 1980, a CIA — Central Inteligence —, dos Estados Unidos, editou e publicou versões em inglês e espanhol da publicação e usou como material didático na Escola das Américas, que preparava no Panamá militares para combater em guerrilhas.

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O livro instrui a combater o Estado por meio de luta armada e guerra psicológica. A preocupação principal é preparar pessoas comuns para serem guerrilheiros, a fim de destruir ditaduras implantadas e mantidas pelos Estados Unidos pela América Latina a fora.
Além da preparação militar dada pelo manual, há também a preparação ideológica.

No meio militar, o livro tem sua razão de ser perigosa a sua leitura. Mas, no civil ele incomoda muito conservador de hoje em dia. A maioria dos sites que disponibilizam material ou escrevem sobre esse trabalho o degrada e procura torná-lo desinteressante a seus visitantes. Isso tem explicação: o poder didático e de influência que tem o material.

Isso porque quem picha esse trabalho provavelmente faz parte de algum dos grupos que preferem que as pessoas continuem pensando e agindo como pensam e como agem — ou seja, que elas continuem sendo meros e pacíficos contribuintes do sistema e não ofereçam ameaça de mudança de status quo para as classes dominantes da sociedade, que gozam de regalias, precisam do trabalhador para mantê-las e não gostam de ir para o front de batalha defender seu posto. Preferem usar o povo, na figura do policial, para fazê-lo em seu lugar, a troco de um parco salário.

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E tirar qualquer cidadão dessa condição de contribuinte passivo da sociedade é um dos objetivos do manual. Para tanto é preciso que ele se torne consciente da sua situação miserável, saiba quem o torna assim e o explora e esteja capacitado e disposto a lutar por um ideal nobre: a liberdade.

Além da preparação militar, instrução quanto ao uso de armas, de comunicadores e de veículos, o livro ensina sobre sabotagens de obras e programas do governo, terrorismo psicológico, táticas para desviar pistas e para ocupar a polícia, organização de motins, greves e interrupções no trabalho, sequestros e expropriações diversos, como organizar tribunais de justiçamento, a confeccionar armas caseiras, disfarces, comunicação em código e outros itens do “vale tudo” da Guerra.

Literatura indispensável para os dias de hoje. Outrora se fazia aulas de lutas marciais para estar preparado para o caso de necessidade de defesa pessoal, atualmente se passou a precisar também saber se defender do Sistema para garantir dignidade e evitar perda de direitos conquistados. Coisas que estamos ameaçados de ver cair a baixo devido à troca de governo. O substituto é menos confiável do que o anterior.

Se o Sistema não o ajuda, não o quer respeitar, sabote-o. A forma civilizada e altamente funcional de se fazer isso é por meio de boicotes. Boicote de trabalho (greve), boicote de consumo (incluindo uso de serviços), boicote de atenção (negar audiência para a televisão e o rádio, compra de exemplares de jornais e revistas, acessos a sites, blogs e redes sociais), boicote de voto (votar nulo, em branco ou em candidatos menos favorecidos). Não havendo a possibilidade pacífica, o “Minimanual do guerrilheiro urbano” dá o recado.

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