Como fazer o exótico passar a ser o corriqueiro

“Revolução é quando o exótico passa a ser o corriqueiro”
(Ernesto Che Guevara)
*Frase usada e demonstrada no livro “Os meninos da Rua Albatroz”.

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Protesto não é revolução. Protesto é só um caminho que pode levar a ela. Uma multidão reunida demonstra insatisfação a respeito de alguma coisa, então, as autoridades e as classes opressoras recebem o recado por meio dessa manifestação. O que pode vir a lhes intimidar. Se isso acontecer, o protesto, então, terá sido um grande passo para se chegar à revolução. Se não, as coisas ficam como estão ou pioram, portanto, deve haver meios mais eficazes de se chegar à revolução.

E depois, imagine a seguinte situação:

Contratada por interessados, a grande mídia estoura um boato de que determinado Presidente da República deve ser deposto, pois o mesmo dá cobertura para a corrupção. Toda a grande mídia teria, no caso, recebido dinheiro do grupo de políticos e empresários opositores do tal Presidente e interessados em espalhar o boato para alcançar seus objetivos, os quais têm livre acesso à ela. Os donos dos veículos de comunicação que a compõem, bem como alguns jornalistas e personalidades, acostumaram-se a ganhar o dinheiro sujo desse pool político-empresarial, além de também congregar na mesma fraternidade que eles congregam.

Ilustremos também o motivo de os irmãos quererem denegrir a imagem do tal presidente: Ele anda aprovando leis que beneficiam o pobre e o trabalhador e que dificultam a corrupção e restringem as facilidades que os grupos dominantes têm para crescer economicamente explorando o povo e para chegar ao poder político, principalmente financiando campanhas eleitorais de políticos e partidos, que os favorecerão em algum projeto.

Atos de combate que não são bons individualmente para os membros da fraternidade, que se acostumaram com poder e regalias, e nem para a própria fraternidade. E se não é bom para ela também não é bom para os veículos de comunicação que compreendem a grande mídia, por eles fazerem parte dela e tirarem dela suas receitas. Por isso, estes, além de ganhar o dinheiro pelo trabalho de manipulação, se interessam em cooperar com o golpe por motivos próprios. Eles pouco se lixam se o país pode estar sendo vendido e perdendo soberania, se a democracia é abalada ou se o povo, que é a própria audiência desses veículos, está sendo enganado e podendo sofrer grandes prejuízos. O capital e a sobrevivência no capitalismo falam mais alto. A ética inexiste para o capitalista.

Ao espalhar o boato contratado, a mídia faz parecer junto à opinião pública que se trata de um furo de imprensa, uma notícia inviolável. E assim a massa de espectadores e de leitores cria crença e propaga o golpe.

Só que é óbvio que nem todo mundo dá trela para essa grande mídia — nem todo mundo tem o cérebro lesado por ela. E também, o presidente tem lá seus correligionários, simpatizantes e eleitores. Essa legião não verá o grupo ofensor do presidente articular, sem fazer qualquer coisa. Por não ter a grande mídia a seu lado para que possam expor a um grande público a opinião contrária, e com isso combater fogo com fogo, eles enfrentam problemas de descrença até mesmo dentro do próprio público. Pessoas que recebem ou que já receberam benefícios vindo dos projetos do tal presidente, que são frágeis por se exporem aos veículos de comunicação conspiradores, questionarão, motivadas pela massiva mentira propagada pela Conspiração, a integridade do grupo ofendido, o diminuindo o contingente. Essa história de direitos iguais, quando envolve os interesses dessa elite burguesa e sua maçonaria, é conversa para boi dormir.

Para compensar a falta de visibilidade que tem a sua opinião, o grupo revoltado com a injustiça que sofre e com o boato de acusação, logo prepara uma manifestação nas ruas. Pois, mesmo que a grande mídia não reporte o fato, só não verá ou não saberá do protesto e dos motivos que o fundamentam quem não quiser saber.

A mídia — no caso a informativa — exibe, sim, algo sobre a rebelião. Ela não pode fingir que não está acontecendo um protesto, pois seu público pode desconfiar da integridade dela. Porém, ela o faz minimizando e tornando insignificante a “reuniãozinha” o mais que puder. Se valendo de closes fechados em fotos e filmagens e contando com a ajuda de uma instituição que possui credibilidade junto ao público, a Polícia Militar, que por algum motivo coopera — é sabido que membros de alta patente da instituição pública faz parte da fraternidade conspiradora em questão —, para informar haver, por exemplo, cinco mil pessoas manifestando e que os organizadores informam haver cem mil. Mesmo podendo ser visto no material que a contramídia propaga como pode, geralmente em redes sociais na internet, espaços comunitários e jornais de esquerda de tiragem razoável, uma vez que rádio e televisão são mídias restritas aos grupos opressores, ou, a olho nu, na própria rua onde acontece o evento, que a informação verdadeira está mais para o que informa os organizadores. A estratégia midiática é suficiente para causar depreciação ao esforço do comitê organizador da manifestação. O público que se expõe à grande mídia é treinado diariamente a ser bastante suscetível a essas articulações.

Bem, para que a mídia hegemônica use essa estratégia, o fato depreciado tem que ter sido bastante preocupante. Para se conseguir a total adesão da opinião pública, aqueles que contratam a grande mídia para aplicar o golpe da propagação de informação manipulada típico de guerra psicológica precisam fazer mais do que isso. Eles, então, decidem preparar uma manifestação em resposta. E desejam que a multidão a ser formada seja em número muito maior. Assim, parecerá que a maioria apóia o pleito deles. Só que eles não são bestas de contar apenas com closes de câmeras e contagem amiga feita pela Polícia Militar. Eles precisam articular para colocar um grande número de pessoas nas praças e nas ruas a bradar pelo que eles pedem.

É sabido que em cada cidade de grande porte possui uma elite favorecida. E que essas elites certamente comunicam uma com a outra, através de uma fraternidade em comum. De modo que os interesses da fraternidade são interesses das elites.

Suponhamos que em cada cidade de 50 mil pessoas, cinco mil delas participam da elite local. Chegando ao dobro esse número se contarmos os indivíduos que são arregimentados pela suscetibilidade à mídia e os que têm a vida social impactuada caso não se submeta às solicitações lhes feitas por essas elites, como por exemplo uma babá que cuida da criança de um burguês desses. Teríamos, então, o restante da amostra de 50.000 indivíduos, formada por abstêmios da opinião usada no recrutamento do contingente ou defensores da opinião contrária. Ou seja: a grande maioria não apóia a opinião golpista.

Se a grande mídia propagar informações favorecedoras ao golpe focando em cada cidade dessa será impossível ela não ter que engessar a informação. A solução, por sua vez, é levar cada contingente de 10.000 simpatizantes da opinião para protestar em uma cidade central, que seria a capital de cada estado.

Assim, ficaria fácil de vermos um milhão de pessoas na Avenida Paulista a pedir a deposição do tal presidente. Q que a mídia fatalmente informaria como uma multidão de locais e deixaria para fazer closes nas cidades de origem, com as mesmas pessoas que foram deslocadas, um dia depois.

Com essa ilustração se convence de que protestos não são a forma mais impactante para se viabilizar uma revolução.

Já boicote: sim. O boicote é uma atitude individual que se soma. E o efeito gerado pela insatisfação não é facilmente manipulável.

Vou ilustrar uma situação em que se boicota o voto.

Pelas leis brasileiras 51% de votos nulos ocorridos em uma eleição a anula e força uma nova eleição com candidatos diferentes dos que concorreram na inicial, ficando estes fora de concorrer a cargo político durante quatro anos. Se os oprimidos de um sistema decidirem não apoiar candidato algum com o seu voto ele estará forçando uma moralização no setor eleitoral. Até que o exótico — candidatos sérios e úteis — passe a ser o trivial.

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