Ateus, graças a Deus

E entao, a bancada evangélica no Congresso queria tirar do Brasil a condição de estado laico. Usaria todo o poder que lhe foi supostamente concedido pelo novo governo para oficializar o pleito. Acreditava a bancada que os males que assolavam Brasil se devia a falta de crença em Deus e de Jesus no coração por parte da maioria da população.

As pessoas que não tivessem uma crença religiosa ou as que não aceitassem a Cristã, seriam covardemente oprimidas. Aquele que não se satisfizesse com a condição imposta, teria a opção de banir-se para outro lugar ou recorrer ao suicídio. Era o senso de justiça a ser empregado pelo novo jurídico brasileiro.

Obviamente, o congresso não é formado por apenas um grupo de idealistas. A pluralidade de ideias é que faz uma nação estabilizada. Se todos fossemos voltados para o pragmatismo religioso, o Brasil seria uma presa ainda mais frágil para os capitalistas estrangeiros. Veio, então, a contraproposta partindo de um satanista. Ele disse:

— Nós satanistas não concordamos com isso. Se somos nós os causadores de todo o caos que assola o país, vamos usar toda a nossa força para não sermos varridos daqui. E vocês nada poderão fazer, pois, se pudessem, já que vocês têm toda essa moral, teriam feito antes, não teriam deixado as coisas chegar aonde chegaram.

Em mente, um ateu parabenizou a sinuca de bico muito bem dada pelo satanista no líder da bancada evangélica e pôs-se a analisar as duas crenças.

Ambos acreditavam no sobrenatural. Um, em uma figura demoníaca, perversa, capaz de se valer das forças da natureza para promover o mal e alcançar seus objetivos.

O outro acreditava em um ser celestial, moralizador, criador de todas as coisas. Bondoso, ultra caridoso e, por que não dizer, escravizador, uma vez que não aceita que um grupo tenha uma conduta contrária ou bem diferente da que ele implanta. Ou, pelo menos, da que implantam em nome dele.

Um desafio interessante, imaginou o ateu, seria ambos digladiarem utilizando o poder concedido pelas entidades que cada grupo cultua. Um flash de imagem onde um dos sujeitos descruzava os braços e gritava “Shazam”, voltando, frustrado, a cruzá-los novamente por nada ter acontecido, passou por sua cabeça. E, depois, foi a vez do outro. Esse, com a palma de uma mão no cotovelo da outra, tentando disparar raios a la Ultraman. Se chateando por não ter saído uma faísca sequer e ele não ter conseguido atingir mais do que o senso de ridículo do seu oponente.

Ou seja, ninguém ali tinha poder maior do que tinha ele próprio, o ateu. Havia neles apenas crenças, mais nada. Como poderiam perder tanto tempo com aquela preocupação. A mudança pretendida pela bancada religiosa em nada mudaria o quadro social do país. E arrogantemente desejava decidir por toda uma nação. Que mesmo havendo apenas religiosos nela, ainda teria-se que computar outros que sequer se envolvem religiosamente com o cristianismo. Eles próprios — o cristão e o satanista — eram exemplos de que o maior problema dos males que assolam o país é a ignorância do povo.

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