O que o movimento punk tem a nos ensinar

Quando pensamos em movimento cultural que abalou a sociedade, pensamos que estamos falando intrinsecamente de música. Mas, um movimento cultural não necessariamente inicia por um estilo musical. O movimento Beatnik, por exemplo, iniciou-se devido à publicação de um livro, o “Sem destino” (Easy rider), de Jack Kerouac. Depois é que ganhou a música de Bob Dylan e a imagem de James Dean como referências.
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O Hippie há controvérsia. Alguns atribuem a inspiração, espontânea, aos movimentos feministas, antirraciais e pacifistas, todos clamantes da Liberdade, que surgiram no final dos anos 1950.

Já outros preferem acreditar que o Movimento Hippie, assim como vários desses que citei, é um produto de engenharia social pensado em institutos de pesquisas sociais, como o Instituto Tavistock de Londres, e implantado, a partir de Nova York, com a ajuda da CIA, com uso de métodos desenvolvidos no projeto de controle mental MK Ultra.

Drogas como o LSD teriam saído do poder militar e do político e sido administradas ao público com a finalidade de criar uma rebeldia na juventude que a afastasse de ideias politizadas, deixando estas para os velhos e labões políticos de carteirinha e donos de negócios de então, que estavam interessados em manter o capitalismo ativo e em conter a ameaça comunista que assediava muito a juventude politizada. Dentro dessa teoria há uma vertente que acredita que rebelar a população no Ocidente estaria mais para uma operação de marxismo cultural, visando desestruturar as populações ocidentais e com isso dominá-las. Mas, isso tudo é coisa pra gente ver discutido no livro “Os meninos da Rua Albatroz”, em um dos capítulos da minha preferência.

Já o Movimento Punk, este sim, começou a partir de um estilo musical. Jovens inconformados com o sistema e de ter que cumprir ordens que eles não concordavam em ter que cumprir, pegavam em guitarra, baixo e bateria e construíam músicas bem barulhentas, com apenas três acordes, e colocavam nelas mensagens de contestação contra o consumismo e de bastante niilismo (pessimismo debochado) com relação ao futuro das sociedades ocidentais, a considerar o modo de vida que as pessoas nelas levavam.

O conteúdo das letras das canções estimulava as pessoas a boicotar o progresso, a recusar a cultura ocidental imposta na ocasião e, acima de tudo, a desejar se tornarem independentes.

O lema era “Do It Yourself” (faça você mesmo). Ou seja, nada de reverenciar ninguém, nada de babar por ninguém. Faça a sua própria música, a sua própria arte, faça a sua própria roupa, o seu próprio sapato e o seu próprio cabelo. Se alguém te curtir, ok, retribua se ele tiver algo a te oferecer.

O lema era forte e virou o pilar do movimento. As mensagens sendo passadas em associação a visuais deslumbrantes e a uma música simples e rebelde, nada comercial, assediavam incontinentemente o público. Os conservadores da sociedade se sentiram ameaçados.

Logo, logo eles estariam vendo seus produtos empacados nas prateleiras das lojas e dos supermercados por falta de consumidores e devido à anarquia promovida por garotos mal cheirosos de cabelos pintados e endurecidos com laquê e que usavam calças jeans rasgadas, coturnos, argolas no nariz, pulseiras e outros babilaques nos braços e nos ombros que os faziam parecer estar indo para uma guerra. E as fábricas estariam repletas de grevistas e de operários reivindicando direitos. Foi a partir daí que os laboratórios da indústria cultural interviram para frear a cultura que avassalaria o capitalismo.

A primeira providência foi arregimentar os ícones da cultura. Bandas que foram criadas para passar a impressão de traidores do movimento ganhavam gravadoras e apareciam em espaços comerciais. Além de ter a imagem utilizada para vender Coca-Cola, o maior símbolo do consumismo, recebiam boas críticas nos jornais e revistas, prêmios e seus integrantes tinham o dia-a-dia retratado pela mídia da forma mais frívola possível. Do tipo “longe da vida artística ele faz um jet set comum”. Que em nada lembravam aqueles que cuspiam na disco music e no mundo da moda e no do show business.

Talvez, a acusação de racista associada a um indivíduo punk, fosse parte do plano para inibir a abordagem do grupo junto à classe negra. Dividir para conquistar. Isso porque o forte apelo ao boicote que fazia parte da ideologia do movimento fosse, quem sabe, inspirado nas atitudes propagadas por Martin Luther King. Entretanto, o reggae ganhou visibilidade em solo britânico graças ao Movimento Punk. Com o mesmo objetivo de macular a cultura e torná-la desinteressante, a associação ao neonazismo foi feita. Umas das melhores táticas de guerra psicológica ensinada pelos nazistas estava sendo usada pelos que combatiam o movimento Punk: “fira a imagem para ferir os argumentos”.

Com isso, a resistência capitalista venceu. Como movimento de contestação o punk fracassou. Mas, continuou existindo como moda e como estilo musical. E até certo ponto como comportamento jovem.

Para fechar meu texto de homenagem a essa cultura que foi uma espécie de filosofia de vida para mim na adolescência, vou contar um grande momento de alguém anônimo que eu presenciei.

Eu trabalhava em um setor em uma escola, o qual organizava o material didático que os professores iriam lecionar na sala de aula. Eu e um gordo éramos diagramadores. E havia o nosso chefe.

O chefe recebia a certa hora do dia uma pilha de jornais para ele selecionar matérias. As matérias virariam conteúdo didático. Ele costumava colocar em um lado da sua mesa aquilo que ele ia aproveitar e no outro lado o que ele descartaria.

Certa vez ele recebeu o caderno de cultura de um dos jornais que lhe eram enviados e viu nele uma matéria especial sobre a vinda ao Brasil do músico nova-iorquino Lou Reed — líder do Velvets Underground, para alguns o percursor da punk music, antes mesmo dos conterrâneos Ramones e de Johnny Rottten e de Sid Vicious, londrinos das bandas Sex Pistols e Siouxsie and The Banshees, respectivamente.

O chefe fez uma cara de desprezo, pegou o jornal, fitou a grande foto do artista e disse: “esse excremento da sociedade não vai para direita nem para esquerda, vai direto pro lixo”. E em seguida, embolou o papel, jogou-o na cesta de lixo e ainda cuspiu por cima.

O gordo, que entre nós era o que menos parecia admirador da cultura punk, o que tem tudo a ver com a cultura, dirigiu-se ao chefe e disse: “é por causa de um excremento desses que se tem esse tipo de comportamento hoje em dia”.

Só me restou ir para o banheiro, parabenizar o Gordo e rir bastante da cara do chefe. E agradeço até hoje ao Gordo por essa lição de reconhecimento. Às vezes, creditamos a coisas que nos são inerentes quem nada tem a ver com elas e debochamos daqueles que são os verdadeiros responsáveis por sermos como somos. E pode apostar que algum ícone da cultura punk contribuiu consciente ou inconscientemente para a formação do seu modo de agir e de pensar. Queira você ou não admitir. Afinal, do it yourself.

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