Não deixe a mídia fazer o seu assunto, faça você o assunto dela

“MONSTRO ESTUPRA E ARRANCA CORAÇÃO DE MENINA”
(Jornal Super. Belo Horizonte. 4/6/2016)

Esta foi a manchete de hoje, 4 de junho de 2016, do jornal Super, que circula em Belo Horizonte. Provavelmente, aproveitava o jornal da repercussão do assunto do estupro coletivo, acontecido no Rio de Janeiro, para assediar seu público ingênuo, que se diverte às pampas com notícias típicas do mundo cão. E com isso lucrar vendendo para o povão exemplares do jornal inútil.

O interessante é que os editores deste pasquim sequer preocupam com o português. Agora estão estuprando até coração, não só órgãos genitais?

A manchete me remeteu a uma discussão que tive no Facebook, nos comentários do link para postagem “33 estupradores e uma vítima de estupro: o que pode estar por trás disso”, que publiquei na quarta-feira passada. Nela eu chamava atenção para o perigo de se dar crédito ao material que se divulga na mídia. Tanto a comum, quanto a que se faz via redes sociais.

Eu acredito que nesses meios, um primeiro caso oriunda os próximos, tão somente por ele repercurtir. E muitas vezes esse primeiro caso não passa de uma encenação a fim de causar repercursão e com isso se atingir propósitos. Como, por exemplo, tapar a atenção das pessoas de acontecimentos que dizem respeito a elas.

Para ilustrar isso, eu difundi que só dou crédito àquilo que presencio, pois, está mais do que provado que hoje em dia se falsifica vídeos e se conta com a ajuda da mídia para fazê-los parecerem reais.

Eu dei o exemplo do que eu faria caso eu visse uma pessoa ser violentada por uma ou mais outras. Eu tentaria ajudar a molestada, caso estivesse ao meu alcance, ou chamaria a polícia, caso não. O que eu não faria, certamente, seria me valer do celular para filmar o crime, com o propósito de enviar para mídia fazer show e utilizar para tapar alguma demanda, ganhando ou não, eu, algum trocado por isso. Outra coisa que eu não faria com a filmagem, se eu viesse a realizá-la para apresentar as autoridades e ajudar a identificar os criminosos, seria postar em rede social atrás de compartilhamentos e outras reações que estimulariam meu ego com a atenção ganhada por algo que postei. Eu não me dignaria a nenhuma dessas mesquinharias. Nota-se que estou consciente do que representa, pelo menos neste país, a informação massificada. Compartilhar esses lixos de publicação quando aparecem em meu mural no Facebook está completamente fora de questão. Nem dou trela!

Entretanto, as pessoas estão tão zumbizadas, escravas desse comportamento de ajudar a repercutir o material do mundo-cão que a mídia ejeta, os quais as divertem e viram um brinquedinho, uma distração, para elas, que o tipo de opinião que teço, irreverente a este sistema, as agride, as faz moverem-se contra mim. Como se eu é que fosse o estuprador.

E no meu texto, deixo claro que critico a repercussão do vídeo e não o próprio. Minha preocupação é, no texto, com algo que se refere diretamente a mim: pararem a Operação Lavajato. Afinal, eu não conheço a menina que foi estuprada (se é que foi mesmo) e nem os caras que teriam a violentado. Ou seja: isso não me diz respeito, não tenho que me ocupar com isso. Tenho meus problemas e ninguém vai resolvê-los para mim.

Eu dar atenção para esse caso estarei motivando outros a aparecerem na mídia. Pessoas vão se interessar em produzir coisas parecidas para postar em redes sociais e ganhar 15 minutos de fama. Eu estaria as patrocinando com a minha debilidade e prédisposição pra consumir lixo de informação. Numa dessas pode até sair um caso real, bem facínora, e eu, sendo sensato, não vou poder dizer que não contribui pra isso, se eu ficar nessa de me satisfazer com esses lixos. Que é o que acontece com a manchete com que abri esta postagem.

Já que é pra ajudar problemas sociais a ganhar destaque na mídia, vamos aproveitar, então, e promover os que passamos. Uma pessoa me contou certa vez que seus pais foram agredidos num ônibus pelo motorista. Faltaram com respeito para com os velhos. Isso é acontecimento corriqueiro e não menos grave do que estupro. Só que a mídia não se interessa por este problema. A não ser que sua apresentação possa estardalhar atenções. A não ser que criem materiais que dê boa repercussão. Quem sabe, 33 passageiros batendo nos velhos? Sendo autêntica ou não a filmagem… Afinal, estupros também acontecem todo dia, mas não com esse potencial de repercussão: 33 versus 1. É só por isso que este apareceu.

Isso faz-me lembrar de uma mensagem que passa despercebida em uma música da Legião Urbana que todo mundo gosta por causa da história, da melodia e do tamanho da música: “Faroeste Caboclo”. A mensagem é “Santo Cristo virou santo porque sabia morrer”. O cristianismo, por exemplo, como conto no livro “Os meninos da Rua Albatroz”, é uma invenção romana, um plano político traçado por Constantino Magno para chegar ao poder e formar seu império. O cristianismo não iria muito longe se a morte da personagem central, Cristo, fosse pacata, quem sabe por adoecimento na cadeia, embora existisse o passado de ter sido o Cristo largamente injustiçado, traído pelo próprio povo que ele tanto ajudou a livrar-se do sistema. Se não houvesse a história do Calvário, da Crucificação e da Ressurreição narrada na mídia chamada Bíblia, quem iria se interessar pelo mártir, ainda que conhecendo suas sábias palavras? As pessoas cultuam mais a paixão de Cristo do que propriamente os ensinamentos que ele nos deixou.

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