O país que incentiva o estelionato

Vi em um ônibus, pregada em um quadro de aviso, a carteira de identidade que alguém que provavelmente utiliza correntemente a linha perdera em uma de suas viagens. Estaria a empresa de transporte, com isso, imaginando prestar um excelente serviço de utilidade pública a seus usuários, que, teoricamente, poderiam ficar tranquilos caso perdessem algum documento dentro de uma das lotações da linha de ônibus, pois, haveria a preocupação de possibilitarem que eles ou alguém que os conheçam recuperasse o pertence perdido.

Tá certo que hoje em dia só com a carteira de identidade não se faz muita coisa em nome de outro, mas, desde que a mesma não possua também a informação do PIS e do CPF do proprietário. Caso seja este o caso, aí, sim, um grande estrago na vida do perdedor do documento pode ser feito. Vou utilizar o setor de telefonia móvel para ilustrar uma possível ocorrência de dano dentro do escopo mencionado.

Alguém que retirou a RG do local onde ela estava pregada no ônibus, justificando para os curiosos atentos que conhece o dono do documento e que irá levá-lo para ele, já mal intencionado vai até um posto de venda e compra um chip de celular. Como é o procedimento, depois disso, ele ligará para o número que aciona um call center que atende a operadora de telefonia móvel, a fim de cadastrar o chip. Ele só não irá conseguir fazer isso se a eminente vítima de um golpe já possuir três linhas de telefone celular em seu CPF na então operadora. E desde que o atendente do call center tenha a hombridade de procurar saber isso ou os sistemas informáticos que ele usa para trabalhar tiverem amarração e funcionarem devidamente para providenciar a informação e impedir o atendente de fazer besteira caso ele não saiba cumprir seu dever ou queira agir de má fé.

Concluído o cadastro, o próximo passo é ligar novamente para a CRC da operadora para contratar um plano de telefonia móvel. Por telefone só é possível fazer planos do tipo Controle, ou seja, aqueles em que o contratador paga um valor mensal fixo para ter certa franquia durante um mês. Esses planos giram em torno de, no máximo, setenta reais. E não pode passar do valor do plano o valor da conta. Menos pior, pois, se fosse um pós pago, opção que permite continuar a utilizar os serviços cobertos pelo plano mesmo após o consumo da franquia, indo parar na conta o excedente, isso chegaria a um absurdo em reais se o uso da linha não fosse moderado. Os pós pago necessitam assinatura ou leitura de contrato seguido de aceite eletrônico para serem efetivados, por isso não podem ser contratados por telefone. Na verdade, nem mesmo os planos controle deveriam estar isentos de aceitação mediante leitura de acordo e por isso não deveriam ter a opção de contratação feita por telefone, mas, é a forma de contratar vantajosa para a operadora de telefonia móvel e seu call center, pois, é mais barata em vários aspectos. Nenhum deles favorecem o consumidor. Eu recomendo não contratar nada que vá gerar fatura mensal por meio que não seja pessoal, pois, o compromisso de quem está do outro lado da linha realizando a venda não é o mesmo de quem está diante de quem quer fazer a compra e a responsabilidade pós-venda da companhia que ele representa pode ser mascarada ou negligenciada por não haver contrato assinado. É o que mais acontece.

Voltando ao assunto, ao cadastrar por telefone, usando o CPF de outro, o número de telefone em um plano de telefonia móvel, um endereço será necessário informar para que o sistema que o operador de telemarketing utiliza aceite finalizar o cadastro. Detalhe: o endereço para ser validado nesses sistemas só é preciso que o CEP seja válido. É para o endereço dado que a fatura do plano será enviada. O estelionatário, por sua vez, informa um CEP qualquer, de uma rua onde ele passou por acaso, e um número de casa qualquer, existente ou não. E, do jeito que ele falar para quem lhe atender, vai ser registrado no sistema de banco de dados da operadora o que for falado. Por vezes, até com os erros de português que ele cometer ao informar ou com os de digitação que o operador cometer ao digitar. E assim ficará, sem que qualquer setor de revisão de cadastros da operadora, se existir nela, se importe em consertar para garantir a integridade das informações e a facilidade de busca no futuro.

Então já temos um novo usuário de um chip de certa operadora relapsa, com um plano controle cadastrado nele, com a fatura indo para a casa de um terceiro ou para lugar nenhum. Vamos brindar: “Timtim”! Detalhe: Se a fatura for para lugar nenhum, o Correios não vai ter a hombridade de devolver para quem postou (ou melhor: o expedidor não vai querer devolução porque acrescenta taxas ao serviço de postagem), o que permitiria a operadora desconfiar de ter sido cadastrado um endereço falso ou de ter em sua carteira algum cliente que vai ter problema na recepção de sua fatura, pois, seu endereço foi cadastrado errado. Dar qualidade a um atendimento ou cumprir com as normas de uma certificação de gestão de qualidade é isso. Porém, estamos falando do setor de telefonia móvel, esse pessoal quer saber de qualidade? Só na propaganda, né! Entrar dinheiro é o que interessa pra eles. Falsidade ideológica, dá pra enquadrar pra quem fala que possui ISO e não sustenta com atos a certificação?

Continuando… Para amenizar a possibilidade de golpe, suponhamos que a operadora exija que a primeira fatura seja remetida para um endereço físico. Até mesmo para confirmar se o endereço existe. Pode ser que o órgão legislador do ramo exija isso e somente para cumprir a obrigação a operadora faz como tem que fazer. Parecer é melhor do que ser, não é mesmo? Com isso, o estelionatário fica impedido de usar a forma de pagamento que as operadoras de telefonia móvel mais gostam de forçar seus clientes a utilizar, pois, lhe sai mais barato: o envio de código de barras por SMS ou o login no site da companhia para obtenção da fatura e consequente impressão. Detalhe: Os call center que atendem essas companhias faturam por ligação que eles atendem dos clientes delas que ligam para solicitar alguma coisa ou fazer alguma reclamação, se todos optassem por utilizar em suas demandas o site da companhia ou os meios de auto atendimento pelo próprio celular, os call center implorariam por ligações (iam até tratar o cliente direito). Quando o site da companhia está fora do ar ou os asterisco seguido de três números não funcionam, o cliente acaba tendo que ligar para um call center. Por que será que os sites e os números especiais para atendimento dessas operadoras estão sempre inoperantes, hein? O capitalismo é uma fantasia, se as relações entre consumidores e empresas fossem cem por cento honestas ele fracassaria. Tem que haver golpe para haver demanda. Vamos brindar: “Timtim”!

Por causa dessa amarra de ter que receber em casa a primeira fatura, o estelionatário ficaria impedido de solicitar a forma de pagamento eletrônica e, teoricamente, precisaria estar no endereço que ele cadastrou para receber a primeira fatura, caso ele tenha a intenção de pagá-la para continuar se beneficiando do plano que em seu próprio CPF jamais poderia ser feito, até o dia que ele resolver deixar os pagamentos para lá, pois é outro que vai se…

Mas, ele não está derrotado. O sistema tem saída para ele. O sistema quer que ele também dê golpes nos cidadãos, assim como as empresas de certos nichos dão. Ele vai ligar para um call center da operadora em cima da hora, cinco dias antes do vencimento da fatura, vai alegar pra alma viva que o atender que a mesma não chegou ainda e solicitar o envio via SMS do código de barras da conta direto para o seu número. E aproveitará, já que a próxima conta não será mais a primeira, para pedir para o atendente cadastrar seu número para sempre receber o código de barras das faturas dias antes do vencimento das contas. O próprio atendente vai sugerir isso pra ele, pois, ele sofre pressão da gestão do call center para oferecer essa forma de pagamento que só causa transtorno, desemprega carteiros, não ajuda a ecologia como gostam de dizer e só beneficia a operadora, pois, esta fica livre de ter que gastar com envio de boletos bancários pelo Correio. Isso quando envia, pois, é um tal de não aparecer a fatura em casa devido a “erros” na expedição, que impediram o envio. E outro tal de acusar o Correio de não fazer a tempo a distribuição. Tudo lorota, eles é que não enviam para forçar o cliente a ligar para call center e escolher forma eletrônica de pagamento.

Nessa fase está tudo perfeito: o cara usa um chip cadastrado no nome de outra pessoa, que tem um plano controle cadastrado no nome desta mesma pessoa, que tem cadastrado um endereço que não é o dele (portanto, ele não pode ser encontrado) e vai pagar pelo plano até quando quiser pagar, pois, receberá em seu SMS o código de barras da conta. Bate essa, Estado Islâmico! Detalhe: Se ele decidir usar anos e anos o chip e o plano, o verdadeiro dono da RG que ele usufruiu só vai saber que no CPF dele consta esse cadastro se um dia, por algum capricho do destino, o número do CHIP acionar um alarme na operadora, que obrigará o contato dela com o proprietário do chip, enviando SMS para outros de seus números se ele tiver algum no cadastro dela ou carta para outros de seus endereços que a companhia tiver cadastrado. Isso porque o estelionatário não vai nem dar trela para os SMS de cobrança que chegar em seu chip e porque o endereço cadastrado para o chip dele não está correto, ele não pode ser encontrado. Essa situação poderia ser diversa, mas, parece que o ponto de alerta dos sistemas informáticos dessas empresas que ativam mensalidades por telefone só é atingido em caso de atrasos de pagamentos. Dói no bolso, então, a cobrança é implacável! E aí, meu, encontrar um sujeito que consegue escapar de ter que pagar o que foi cadastrado indevidamente em seu nome, com a empresa contando com o faturamento, é uma boa lição para mostrar para essas empresas que não fazem boa coisa facilitando descriteriosamente a entrada de clientes. De receita, melhor dizendo!

Nessa questão do endereço, uma forma de a operadora de telefonia móvel obter pistas de que um plano foi cadastrado indevidamente seria, caso o endereço cadastrado seja válido, o morador da casa acionar a operadora para saber a razão de ele receber em sua caixa postal uma correspondência com o nome de uma pessoa que ele não conhece.Poucos se dignariam a ligar para um call center, ficar de molho ouvindo musiquinha de propaganda oferecendo planos suspeitos, que se repete à exaustão, para proteger a integridade de seu endereço. Mas, suponhamos que alguém o faça:

Ao ser, enfim, atendido, ele corre o risco de ouvir de um propositalmente mal treinado atendente, pressionado pela gestão do call center, que quer atender mais ligações do que suporta, a fim de faturar bastante subindo nas costas do operador de telemarketing, a desculpa “Meu sistema está inoperante, ligue em duas horas para continuar o atendimento”. E a Anatel sabe disso tudo, chove de reclamações por lá, mas ela faz vistas grossas porque é assim que esse ramo consegue ganhar dinheiro e do grosso desse dinheiro é que ela é mantida. O mesmo vale para o sindicato dos trabalhadores da categoria, que sabe do desgaste psicológico que sofre o operador de telemarketing com essa pressão e indução à práticas amorais e ilícitas e se omite. Vai lá pegar o valor da contribuição sindical – um dia de salário de cada trabalhador da categoria, que em cada estado brasileiro significa no mínimo dez mil pessoas – e vaza. De vez em quando passa entregando panfletos pra parecer que está militando pró trabalhador, mas é só fachada. O sindicato parece mais é ser patronal: protege o patrão de ter prejuízo com o trabalhador para conservar este no posto, pois, ele significa grana da boa para os sindicalistas.

Agora, suponhamos que o morador do endereço maculado que resolver tirar satisfação com a operadora de telefonia móvel seja atendido. Suponhamos que seja aquela hora do dia que o call center deixa o operador trabalhar. O mal treinado, amador e corrompido do atendente, que só trabalha com o que trabalha porque ainda não apareceu outra coisa ou porque é o seu primeiro ou provisório emprego, portanto, não tem compromisso com profissionalismo, e nem a empresa para quem ele presta serviços lhe dá condições de ser profissional, preparado por ela própria para dar as respostas que ele dá ou fazer as operações muitas vezes incoerentes que faz ou ser condescendente com golpes, identificará o erro, mas falará para o cliente desconsiderar o ensejo, pois, o mesmo deve ter sido um erro do sistema de cadastro ou de envio de correspondências. Ele nem tem culpa de agir assim, pois, não encontrará nos sistemas que ele opera processos preparados para corrigir o problema ou métodos de apoio a tomada de decisões imprevistas em treinamentos ou coisa do tipo. Ele não vai ter acesso a partes do sistema que poderiam ajudar a resolver o problema e nem meio de transferir internamente para um setor servido de profissionais que sabem lidar com o problema e resolvê-lo em todas as camadas. Até acionar a Justiça. É tudo muito preparado para favorecer a incidência de golpes e a não resolução dos problemas. Eles ficando insolúveis fazem com que quem as procuram tenham que ligar novamente. Ligou novamente, dinheiro entrou para o call center. E você achava que corrupto é só o político, não é mesmo? Nesse pedaço de sociedade, todos os citados corrompem voluntária e involuntariamente. E acompanhe-nos, pois as denúncias nesse campo continuará também por aqui e por ser dependente dos anúncios das operadoras de telefonia móvel, A corrupta Grande Midia não divulga esses absurdos.

Tudo o que é discutido neste blog, no tópico “A corrupção nossa de cada dia”, é discutido e bem abordado, dando clareza inacreditável de ideias, no livro “Os meninos da Rua Albatroz“. Quem gosta de ler só tem a ganhar e está melhor preparado para enfrentar o dia a dia desse nosso capitalismo selvagem.

Todo o mundo usa celular e está sujeito a perder documentos, compartilhe isto!

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