Adiamento do Enem 2016: O que está por trás disso?

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IMAGEM: Circuíto MT

O motivo da ocupação de 300 locais de provas do Enem – Exame Nacional do Ensino Médio – feita por alunos secundaristas, se for o propagado: rejeição à PEC 241 – Proposta de Emenda à Constituição 241, que estipula o limite de gastos públicos para 20 anos, o que afeta o setor educacional público, é valido. Difícil é acreditar que estudantes secundaristas tenham estipulado sozinhos essa nobre causa. É óbvio que tem dedo de político e de empresário do setor educacional nisso. Mas, por quê?

Vamos explicar o Enem, essa ideia genial que saiu do governo petista. O Enem tem como objetivo obscurecido acabar com a indústria do Vestibular, como bem explica em uma palestra a filósofa Marilena Chaui. Eu, que trabalhei em escola preparatória para os vestibulares mais badalados, sei bem como esse rito de passagem para a universidade movimenta um dinheiro astronômico e que muitos empresários do setor investem em tornar uma solenidade o evento, além de fazê-lo parecer a quem ingressa nas grandes universidades públicas, nos cursos mais cultuados ou não, um feito digno de se tornar uma celebridade em seu meio social, quiçá de toda cidade. Me dá azia só de lembrar disso!

Sim, acabar com a indústria do Vestibular porque na planta o Enem visa substituir o mesmo como processo seletivo para o ingresso no Ensino Superior do setor público. As escolas públicas primárias seriam fortalecidas – receberiam o investimento que não recebem por causa do controle feito pela máfia das escolas privadas, que possui um bando de políticos corruptos representando seus interesses no Congresso Nacional – e, como não tem vaga para todo mundo, o desempenho de cada aluno seria classificado em uma prova geral, que é o Enem, para concorrer ao qual os alunos de escola privada também teriam direito, como deve ser.

A figura do cursinho preparatório seria inibida, com isso a máfia das escolas privadas perderia o brinquedinho de ganhar dinheiro com aulas ministradas por professores-artistas, aplicação de simulados, venda de apostilas e outros breguetes. Algumas instituições públicas e privadas perderiam a receita lhes reservada pelas abusivas taxas de inscrição para fazer vestibular. E minimizaria também a corrupção que existe nesse nicho, onde muitas vezes o preto pobre que estudou em escola pública sai da sala de exame crente que não só passou no próprio, como também acha que ficou entre os “primeirões”, e na hora de conferir a lista de aprovados encontra seu nome na quinquagésima sexta posição da suplência, isso porque ele não estudou no conceituado Colégio A ou no B, C, D, que fazem propaganda na televisão e cobram do estudante o olho da cara para transformá-lo num nerd que pensa que é o Einstein e é preconceituoso contra pobre. O “papai pagou pro cê ir pro fim da fila” rola solto nesses concursos, mas, como provar, né?

Considerando os ataques que faço neste texto, o adiamento do Enem, na minha opinião, como sempre, é só mais uma mancha na imagem do concurso. Já não bastam alguns já passados, como aquele envolvendo a gráfica Plural, do grupo Folha (inimigo clássico do PT), que teria feito vazar as provas e maculado o concurso de 2009. Mais desses e uma hora os próprios idealizadores do programa gritam “cansei” e volta a ser tudo como era: com as pessoas deixando de entrar para a faculdade pública porque não podem estudar nas alegres e conceituadas escolas do setor privado e por isso não têm condições de comparar com os burgueses – que podem pagar faculdade particular, mas querem mamar nas tetas do governo – e passar no difícil (será que é difícil mesmo? Até eu passei, sem dar dinheiro pra cursinho) vestibular das federais. Restando a estes, porque sofrem lavagem cerebral e acham que precisam se formar em um curso superior para vencer na vida, ir parar nas faculdades privadas e recorrer aos programas de incentivo à educação, como o FIES e o Prouni, para dar conta de pagar.

Detalhe: FIES e Prouni, dois outros projetos petistas, fdp (calma gente: Funcionário de Departamento Pessoal) nenhum critica ou quer acabar, sabe o porquê? Marilena Chaui responde também em sua palestra: O dinheiro desses programas é que sustenta esse monte de faculdade e universidade particular que foi aberto. Boa parte é de propriedade de político. O filho do rico vai estudar de graça na universidade pública, que é mantida com dinheiro público; o pobre (não o filho dele) vai pra particular por conta de programas de incentivo à educação bancados pelos cofres públicos. No fundo, todas as instituições de ensino são essencialmente mantidas pelo dinheiro do povo. Mas há uma diferença gritante e injusta à beça: o rico não tem que devolver o dinheiro que pegou para estudar, já o pobre sim. O FIES, por exemplo, só custeia, sob duras regras para o estudante, a graduação. Logo após a formatura vem a conta.

Eu não sei se o Governo Temer tem em mente dar uma sacudida nesse esquema com a limitação de gastos no setor educacional pretendida pela PEC 241, mas, caso tenha, embora pareça mais com uma represália a programas estabelecidos pelo PT, pode significar moralização do setor. Mas, eu não me iludo: O que tem de membro ou que se expôs como simpatizante desse governo e que é dono de escola de graduação mamando no FIES e no Prouni não deve estar no gibi! Todos eles devem estar mordendo o rabo de raiva do governo, mas não podem firmar em público uma parceria com seus oponentes esquerdistas para protestar. Apoio é apoio, tem que se mostrar fiel! É até por isso que não acredito que os ocupantes das cerca de 300 escolas onde haveria prova do Enem neste fim de semana tenham pensado por conta própria em protestar contra essa PEC.

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