Idiota-útil todos somos, procuro não ser só idiota para não estar sozinho

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Sair pode significar ficar; e ficar: trabalhar.

As abominações que se vê em comentários dados em postagens publicadas no Facebook em apoio ao ex-presidente Lula. O comentarista quis chacotear a audiência, até seu comentário: unânime, simpática ao texto de uma publicação que junto veiculava um vídeo contendo a resposta do Lula a um jornalista do New York Times que lhe perguntou sobre o que o ex-presidente achava das acusações que sofrera por parte de seus inimigos e da atuação supostamente financiada do juiz Sérgio Moro. Se referiam ao episódio da escuta telefônica com posterior entrega do material a um órgão de comunicação do PIG. Aquele grampo que para a Globo, diferentemente do atual envolvendo Michel Temer, era democracia propagar e não crime como o de agora.

Naquela de se vir como um infiltrado no ambiente anti-tucano e querendo executar o trabalho para o qual o cara foi encarregado de fazer, achando que só tinha coelho na toca, o mesmo molhou veneno em uma cenoura e a balançou para a plateia ir buscar. Disse ele que era uma oportunidade para que os insanos adversários de opinião provassem o gosto da sabedoria e deixassem a condição de idiotas-úteis.

Deixara um link e um convite para o acesso. Quem se dispusesse a visitá-lo ia saber, através de dados “inquestionáveis”, como o PT quebrou o Brasil. Pairava no ar a esperança de o link ser acessado pelos dali e de que em se submetendo ao material didático provavelmente sofismático o curioso sofresse uma espécie de epifania, que fosse, paulatinamente, legar uma reprogramação mental em pessoas intelectualizadas e espertas, pró PT, cujas reuniões em antros no Facebook acontecem fortemente e  ameaçam categoricamente os planos de uma elite conservadora, perita em uso de táticas de engenharia social para corromper o pensamento coletivo, para a qual o viralista estaria a serviço. Deve ele ter espalhado seu veneno em vários redutos esquerdistas naquela rede social da internet e noutros locais mais.

Eu não acessei. Mas imagino que o conteúdo pseudo informativo seja composto de uma série de dados estatísticos de produtividade e de gastos públicos, levantados livremente, sem compromisso com a verdade e difíceis para qualquer cidadão comprovar a veracidade, por gente que quer ver a imagem do PT tão repugnante quanto a do Capeta sugere ser. Envolvidos em um texto metricamente redigido para enganar. Capaz de criar até ao mais atento dos consumidores de informação deixada à deriva com ar de estarem a tentar afundá-la, o convencimento de que as acusações propagadas pelo hoax são terminantemente indubitáveis.

Mais atento, então, estaria quem desconfiasse da infame prática de marketing de guerrilha. Simplesmente porque o sujeito citou Gramsci ao prometer esvair-se da condição de idiota-útil quem se dignasse a perder seu tempo assistindo o viral na página lincada, que de quebra ganharia visitação massiva. Talvez o plano fosse esse. Foi Gramsci que cunhou o termo ao instituir sua filosofia de combate ao sistema. Referia-se ele com o termo àqueles cuja parte no sistema é contribuir empurrando a roda para que ele gire. A parte formada por quem está nele em busca de proteção contra a falta de dignidade e não de liberdade para agir sem ter que se dignar a dar um braço para usufruir de uma vida realmente digna.

Gramsci pregava que se pode apoderar de um sistema desestabilizando culturalmente a população ou destruindo sua economia. O sujeito convidava a assistir um vídeo que argumentaria contundentemente que o PT teria feito isso com o Brasil, economicamente falando. O golpe orquestrado pela ala política conservadora do Congresso Nacional brasileiro para afastar o Partido dos Trabalhadores do posto de governante legítimo da nação teria o objetivo de salvar o que ainda restava dessa economia arrasada. A resistência que parte dos que não caíram no golpe e ainda apoiam o partido esquerdista – como os que se reúnem em antros físicos e virtuais para celebrar sua vertente ideológica e arquitetar planos para a recuperação do posto perdido anti-democraticamente – precisa ser derrubada e a opinião destes conquistada. Utilizar métodos gramcianos como estratégia para se atingir a meta pouco importa. São só ossos do ofício… digo: da hipocrisia.

Entretanto, ninguém que é ideologista corre para pegar cenoura balançada e volta com ela devorada sem ter antes a cheirado bastante. Procedendo assim, no mínimo se veria o que um pescador quer de um cardume. Cada simpatizante de um partido ou de um regime político verifica o que lhe compreende antes de aderir a luta do próprio. Ele quer saber o que ganhará com a sua lealdade. É isso que é ser um idiota-útil. Se você enche suas mãos de calo ajudando a empurrar a roda das engrenagens do sistema para ganhar só o que comer e nada mais você é um tremendo idiota. E poderá estar sozinho.

O que vem depois de uma economia destruída? Desinteresse de colonizadores por achar que não têm o que explorar e que há muita miséria para sanar. Reconstrução, muita reconstrução. E o melhor de tudo: liberdade e direitos iguais para os que sobraram para reconstruir o país arrasado. Sem a presença dos glutões direitistas, que fogem para as metrópoles a que se acostumaram a reverenciar e prestar serviços em busca de vida melhor como um idiota-útil local.

Se a verdade existe no título do tal material para o qual o prestante buscava uma audiência, quebrar economicamente o Brasil teria sido uma estratégia petista para a redenção do povo, expulsão dos inimigos do sistema e reconstrução da nação, a tornando uma nação independente e respeitada, como aconteceu com o Japão. Vamos expulsar os vendilhões direitistas e fazer pra gente um país de respeito. É melhor do que ficar procurando justificar as razões de um caos quando o caos exige gasto de tempo com solução para ele. A minha escolha é ir atrás de solução, por isso não me dignei a ver o viral.

“Aonde fica a saída?”, perguntou Alice ao gato que ria.
“Depende”, respondeu o gato.
“De quê?”, replicou Alice;
“Depende de para onde você quer ir…”
(Alice no país das maravilhas. Lewis Carroll)

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