Bem-vindo ao Governo Temer: A ditadura do empregador

TEXTO GRANDE, MAS IMPERDÍVEL!

Eu sei que é próprio de governos que visam dar apoio total às empresas, mas, todo o sistema está arregimentado contra o trabalhador?

srengenho

IMAGEM: Pintura de Debret que retrata a vida dos escravos no engenho.
FONTE: Criaarq

No Brasil, Fulano trabalha em uma empresa italiana prestadora de serviço de call center para uma operadora de telefonia móvel também italiana. Esse call center lhe obriga a dar certo resultado, que não é possível ser dado sem que o atendente de telefone sofra abusos físico, psicológico e moral. Até praticar crimes, enganando a pessoa que liga pro call center procurando resolver um problema,  o que é lhe de direito e é a missão da empresa atender, em nome dela ele é pressionado a cometer. E sem ganhar nada, só ajudando a ganhar dinheiro, montando em suas costas e pondo “o do atendente” na reta, uma máfia de gringos que acha que manda no Brasil e um punhado de brazukas que aceitam passar adiante as ordens que recebem, em troca de uma pequena mixaria a mais do que o que ganham seus subordinados. .

Ao passar do período de experiência e tendo visto muita irregularidade, passado por muito sofrimento e percebido que prestando serviço ali jamais haveria-lhe crescimento sem que ele aceitasse abusos e mutilação de seu caráter, e também sem que houvesse debilitação da sua saúde que acaba com suas qualidades profissionais e o deixa sem condições de prestar serviços para outro empregador ou por conta própria, fulano se rebelou.

Decidiu ele que faria seu trabalho conforme as normas da Anatel e da operadora de telefonia móvel contratante dos serviços do call center, amparando, respectivamente, em sua regulamentação para o mercado e em seus manuais de instruções sobre o trato com os seus produtos. Decidiu também que exporia, sem se comprometer, o mais possível, para o público e os demais interessados, as falcatruas que a empresa que lhe empregava praticava para gerar mais atendimentos e com isso faturar mais, sobrecarregando o operador e sem prestar os próprios para o cliente.

Isso para o call center, andar na linha, comprometia o andamento dos negócios, pois o próprio simulava ligações, mandando pessoas ligarem, às vezes de dentro do próprio estabelecimento, só para aumentar o montante de ligações recebidas. Ou seja: fraudava contra a respectiva pagadora dos atendimentos, sua cliente. Providenciando atendimento para as ligações legítimas o cliente não liga novamente nos dias a seguir. Isso era outro empecilho que precisavam conter em Fulano.

Como já era previsto, a empresa iria sentir o contragolpe do operador, que influenciava outros e aí sim se tornava preocupante. Entrou ela em uma rotina de persegui-lo para lhe forçar o pedido de demissão ou produzir provas para lhe aplicar uma Demissão por Justa Causa, já que por algum motivo forte a empregadora não fazia demissões com direitos pagos ao empregado, salvo em casos extremos ou impostos pela Justiça do Trabalho.

Tendo constatado que tanto a Anatel quanto a operadora de telefonia móvel tomadora dos serviços não iriam lhe socorrer, pois, sabiam dos ocorridos e faziam vistas grossas, Fulano, saturado da indiferença da empresa ante a si e das estratégias da mesma para tentar conter seus ataques ou torná-lo refém dela, procurou o sindicato da categoria. Ele já havia percebido que o citado estava corrompido, fazendo cara de representante do trabalhador e protegendo a patronagem de seus representados, causando-lhes danos em não forçar a barra contra o patrão e desinformando-lhes quanto a sindicalismo, os fazendo cair em má fé praticada pelo sindicato e pela empregadora. Mas, para seguir o protocolo, Fulano foi atrás da entidade. E só obteve a confirmação de suas suspeitas ao sofrer profundo abandono e desprezo disfarçado de providência, em todos os contatos que fez.

Partiu, então, Fulano em busca de uma experiência incontestável de assédio moral. Naquela empresa, devido ao amadorismo da gestão de pessoas e trabalho, era algo viável. Não foi difícil conseguir vários casos amplamente testemunhados para ele escolher um e levar no pau.

Mas, assim como as situações abusivas sofridas coletivamente, que bastava que cinco ou mais operadores desse ao mesmo tempo seu testemunho na Justiça alegando a mesma coisa que responsabilizaria a empresa pelo critério do “muitos dizendo o mesmo” e pararia com elas, não era fácil arrumar quem se comprometesse a dar fé à queixa de outro sem temer qualquer tipo de retaliação por parte do empregador. Ficava o direito de reclamar e o poder de ganhar a causa sufocados por falta de provas irrefutáveis, que a empresa cuidava para que não pudessem ser criadas e por causa do medo de retaliação, que omitia o testemunho direto.

Fulano experimentou contar com a Polícia Civil. O assombro de ter que ir a uma delegacia física o fez acessar a virtual. No respectivo site ele descobriu que o caminho para iniciar um processo de abuso moral contra a empresa passava por um órgão do SUS chamado CEREST. Centro de Referência de Saúde do Trabalhador. Ia lá consultar com um psicólogo.

Mais um malogro. O médico, que era a cara do Aécio Neves, o desencorajou. Ouviu dele que em seu caso ele deveria era ter ligado imediatamente para o 190. E foi exatamente a instituição por trás do 190 que lhe indicara virtualmente o médico.

Entrara em cena na busca por socorro do jovem proletário o Ministério do Trabalho. Procurou e achou, bateu e foi lhe aberto. Mas, ao que pediu obteve um “estamos de greve” como atendimento. Havia seis meses que os ouvidores e os fiscais do trabalho estavam nessa situação. Na certa as empresas pagavam para eles dias de férias permanentes, sem que eles perdessem o que já mamam nas tetas do orçamento público, que não sei se esse pessoal vai tê-lo congelado por 20 anos, para evitar que eles socorressem trabalhadores e com isso inibir gastos com processos trabalhistas. Recorrer à advogados que não os públicos sempre esteve fora de questão para o trabalhador médio. E Fulano é um desses. Problema resolvido para o patrão. Mais um órgão de Defesa do trabalhador arregimentado.

Restava-lhe, também, a Justiça do Trabalho. Nela não foi muito diferente. O que mudou é que a greve não existia para o órgão, pois, é negócio para a entidade que casos de reclamações trabalhistas entrem constantemente para justificar o trabalho dos juristas e, com o movimento de causas perdidas por empresas, aumentar o faturamento dos funcionários de maiores patentes da instituição. A Justiça do Trabalho permite o trabalhador se defender sem usar um advogado, mas, vai ele achar que faz boa coisa não contando com um. Fica sem saber quem no púlpito é o advogado da ré: se o juiz ou se o de beca que ela levar para o fórum.

Entretanto, além de madrugar para pegar senha e entrar na fila de atendimentos e passar o dia inteiro no local, só para começar um imbróglio, os próprios atendentes iniciais alertavam que a causa só seria ganha se o juiz considerasse procedente o pleito. Do contrário, um pedido de rescisão indireta, por exemplo, seria transformado em pedido de demissão. E podia acontecer represália da empresa nos casos em que o reclamante ganhasse a causa e permanecesse no emprego. E o Ministério do Trabalho não poderia impedir. “Caso houvesse interesse em continuar no emprego…”. E a reticência demonstrava o descaso que estaria por vir caso se quisesse enfrentar a empresa sem o uso de um advogado. Voltava-se à estaca zero.

Ficou, então, para Fulano, apenas o desejo de se vingar da empresa. Teria que acontecer na surdina. Envio de e-mail ou preenchimento de formulário nos sites das instituições fiscalizadoras do trabalho e da legislação. Denúncias anônimas de tudo o que acontecia nos galpões do call center foram digitadas por Fulano. Pensava ele em acionar a Polícia Federal para estourar cativeiro de trabalho escravo; abordar centro de prática de estelionato contra o consumidor; investigar crime de formação de quadrilha (Anatel, operadoras de telefonia móvel, call center, CEREST, órgãos de defesa do trabalhador, sindicato da categoria e até os clientes que ligavam falsamente para provocar provas constantes na gravação da ligação, que servissem para tornar refém da empresa o trabalhador ou facultasse a dispensa por justa causa do mesmo). Tudo isso passou pela cabeça de Fulano.

Todo o sistema, para Fulano, estava em conluio para que o dinheiro entre em bolsos distintos, cada um com o seu tanto ou com o seu tantinho, sob o apelido de empregabilidade em massa e fruto do Trabalho. E agora ele aguarda ver na prática o resultado de suas denuncias. A resposta do e-mail ele já desistiu de esperar. Se isso já funcionava assim, tá certo que por debaixo dos panos, quando o trabalhador estava no poder, o que ele espera agora que está instaurado um governo que protege o patrão e está nem um pouco preocupado com o trabalhador e com o consumidor populares? Quer é aumentar a jornada de trabalho dele e cortar-lhe alguns benefícios.

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