Se a verdade não pode ser dita, é preciso saber mentir

Há momentos que precisamos ocultar uma verdade. Podemos ser comprometidos com a publicação dela e a punição pode ser maior do que a dada por mentir. É meio assim o que ocorre no sistema de delação premiada que vemos desfilar na mídia. A mídia e os políticos, então, são grandes mentirosos? Não tenho dúvida disso, mas não pelo que foi tocado.

Se você não pode contar a verdade, então, use a sua imaginação e conte o que você está imaginando. Se te perguntam onde esteve no sábado passado à noite e você não pode revelar, passe a tecer no palco da sua mente uma situação passada em algum lugar da sua escolha, que você possa comprovar que esteve nele em algum momento da sua vida ou, de preferência, que você possa estar nele quando bem entender, e que não seja o local verdadeiro onde esteve, e relate o que se passa na sua imaginação, datando o acontecimento com a data e hora a ser explicado.

Não é porque está na mente ou foi vivido em um sonho que não é real. A realidade concreta também é uma ilusão. Só o momento presente, como enquanto você lê isto, é que é real. Os momentos antes viram passado – portanto: lembranças – e os que não vieram ainda: imaginação, precognição. Lembranças e imaginação são vividos no plano imaterial da mente. Mas são reais. E o melhor de tudo: atemporais e não locais, portanto, eterno.

Imaginar não é mentir. Quase tudo que acreditamos no dia a dia é fruto da imaginação de alguém ou da nossa própria imaginação. Vão nos contando e vamos sendo influenciados a dar razão em nossas mentes para o que contam. E às vezes nós mesmos nos auto influenciamos. Prática que é até boa: Você se engana mentindo pra si que é rico e acaba se tornando. Costumo dizer, em contradição ao Renato Russo, que mentir pra si mesmo é sempre a “melhor” mentira .

E ainda há a quase indiscutível alegação de que manter o hábito de imaginar patrocina a realização do que é imaginado. A verdade passa pela mente, acontece primeiro na mente. É por isso que a mídia nos faz tanto imaginar as “verdadeiras mentiras” que a imprensa noticia. Uma vez posto-nos para imaginar o que quer que seja, o que quer que seja tem grandes possibilidades de virar real. Absolvendo-se assim o noticiador. Se expor à imprensa (escrita, falada ou audiovisualizada) é participar de experimentos sociais.

Só que quando o que nos põem para imaginar compromete a liberdade de outras pessoas, a célebre prática de imaginar passa a ser perversa. Ajudamos com a nossa adesão a incriminar alguém, a sofrerem injustiças. Por saberem disso, é exatamente para contornar essa situação que há os defensores de acusações como os advogados. E a forma de eles evitarem as incriminações ou as injustiças é fazendo uso de leitura fria e de perguntas-chaves, que conseguem desmontar a articulação de quem usa a imaginação para mentir sem ser responsabilizado.

São usados estudos neurolinguísticos como a leitura dos sinais. “Olhar para o alto e para a direita simultaneamente” representa acesso à área do cérebro que recorre à criação de imagens e significa criatividade, portanto, imaginação; Olhar para o outro lado mantendo a direção significa que o sujeito busca a parte da memória cerebral que guarda os registros vividos, logo, lembrança do passado, busca da verdade. Junto dos sinais: perguntinhas que dão curto-circuito na mente quando respondidas sob pressão. Tudo isso ajuda a evidenciar a verdade. Nem que seja pelo infalível método de fazer negar uma afirmativa. Por isso, antes de mentir é bom estudar sobre a arte de mentir e não ser desmentido.

– Você mentiu para mim, não é verdade?
– Sim!
– O seu “sim” em resposta à minha pergunta “não é verdade” confessa que você mentiu.
– Mas, com a pergunta você procurava certificar o que perguntou antes: se eu menti pra você. Eu não menti, por isso eu respondi “sim”. “Sim, é verdade”.
– Eu não te perguntei isso, eu afirmei. Eu perguntei se a afirmação que fiz não é verdade. Você respondeu que sim.
– Se eu respondesse “não” daria no mesmo. Você me diria que por obter um “não” para uma negação, “não não”, teríamos um “sim”. Eu estaria negando a negação “não é verdade” e ficaria um “sim” para “você mentiu para mim”.
– Por isso nunca é bom mentir, meu jovem. A verdade tem mais chances de prevalecer em um interrogatório!
– E de ser produzida idem!

(Diálogo montado a partir da consígnia de um clássico teste de lógica aplicado em recrutamentos e seleção otimizados)

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