O experimento social infantil

porquinho

U.Q. vinha fazendo um experimento social com seus cinco sobrinhos-netos. Quatro meninas e um menino. O menino era o segundo mais velho de todos. Filhos de três de seus sobrinhos as crianças. Duas de suas sobrinhas e um sobrinho. A idade das crianças ia dos seis aos dez anos.

O experimento começou no último Natal. U.Q., cinquentão e solteirão, desinteressante para as mulheres devido à imagem de fracassado materialmente que era comum elas fazerem dele, jogara a toalha da busca pelo equilíbrio consciencial baseado na cartilha do homem bem sucedido. Desistiu de buscar constituir patrimônio, estabilidade financeira, emprego seguro, relacionamento amoroso e família. E resolveu que gastaria com as pirações que pintasse na sua cabeça o pouco dinheiro que conseguia ganhar. No referido Natal deu a louca nele de comprar bons presentes para os sobrinhos-netos. Ele nunca havia feito isso, nem para os sobrinhos, então, achara que devesse experimentar.

No giro que deu para verificar os preços dos brinquedos, durante as semanas que antecediam a festa religiosa, U.Q. desanimou de ir a fundo com o pleito e acabara por se frustrar mais ainda com a sua insípida existência. Entretanto, eis que veio-lhe a grande luz. Ele perguntou imaginariamente após passar por um imenso cofre de porquinho ao atravessar o longo salão de uma livraria: “Por que não compro um cofre desses e junto com os meninos formemos o capital para comprar bons brinquedos no Natal do ano que vem”.

Decidiu ele pelo cofre imediatamente. Mas ainda comprou alguns brinquedinhos baratos para não ficar só no cofre. Ele só fez questão que seriam brinquedos que fosse necessário no mínimo duas crianças para brincar com eles. Estimularia os pupilos a serem companheiros, a sociabilizar e a compartilhar.

E instigou as crianças, que ficaram ansiosas para ver o porquinho, batizá-lo e engordá-lo com as moedas que conseguissem dos pais ou dos outros tios. E assim que o cofre foi adquirido e levado à presença dos rebentos, U.Q. ditou as regras da “ação entre primos”.

O cofre ficaria com o tio-avô dos meninos. Seria aberto assim que enchesse e o dinheiro computado iria parar em uma caderneta de poupança de propriedade de U.Q. e outro cofre de porquinho iria ser comprado para recomeçar a poupança. Uma semana antes do Natal perseguido, a caderneta bancária seria esvaziada e o dinheiro poupado se uniria ao conteúdo da barriga do último porquinho. O montante seria dividido por cinco. Cada criança previamente teria dito à mãe o que iria comprar com a sua parte. A possibilidade de arcar com a reivindicação informaria se o projeto foi bem sucedido.

Tentariam depositar pelo menos uma moeda todos os dias. Os meninos é quem as passariam pelo buraco do cofre. Antes de fazê-lo eles deveriam fazer mentalmente seus pedidos e agradecer o quanto já haviam ganho até ali.

E U.Q. viu a adesão das crianças. Que deram nome ao primeiro porquinho e iam, entusiasmadas, todos os dias, quando ele chegava do trabalho, levar as monetas que conseguiam adquirir e pegar com o tio as que ele trouxesse para por tudo dentro do animalzinho de plástico com um buraco no lombo. E o tio, por incrível que pareça, diariamente tinha moedas para dar aos meninos. E eles também diariamente tinham as deles. O primeiro cofre encheu em tempo recorde.

Duas das crianças moravam em outra casa. Era distante. Elas não podiam estar a participar da ação com a mesma frequência e intensidade que podiam as que moravam na mesma casa que U.Q. Algum dentre as crianças de casa reclamou disso e chegou involuntariamente a sugerir que a parte delas deveria ser diferenciada. Mas, U.Q. a repreendeu e explicou que eles não estavam só aprendendo a juntar dinheiro, estavam também aprendendo a ser determinado, disciplinado, confiante, destemido quando ao futuro, desejoso, visionário e, no caso reclamado, solidários um com o outro.

E assim está indo, cada vez mais sadio, o experimento social infantil que U.Q. iniciou e comanda. E faz dele sua razão de viver. U.Q. sabia que ganhava também com o esforço dos sobrinhos-netos. Era por causa da crença deles de que conseguiriam colocar todos os dias uma moeda dentro do porquinho que ele se via a crescer financeiramente. Não só ele, mas todos os outros pais e tios das crianças que participavam pelas beiradas da alimentação do porquinho dando as moedas que sobravam nos bolsos, que deixavam de ser gastas com besteiras e passavam a ser aproveitadas como subsídio de sonho de criança.

De alguma forma pais e tios conseguiam trabalho, emprego, renda ou qualquer outro meio de ganhar dinheiro e com isso podiam destinar pratinhas aos rebentos. Era a força da fé das crianças, cada vez que elas fechavam os olhos, colocavam as mãos postas e faziam seus pedidos, que não podiam ser comentados, que levava até eles as oportunidades que abriam-se. U.Q. já sabia que tudo isso aconteceria. Mas não foi essa a razão principal de ele ter insistido em por em prática o seu experimento e sim sua decisão de não mais aguardar pela hora de fazer o que quisesse. Hoje, o tempo voa, amor!

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