Na prática, o transporte não é público só no nome

Há certas coisas que possuem a designação de público e na prática não o são. O transporte público é um deles. Se temos que pagar passagem e atravessar catracas para validar a entrada na lotação, então, não é público. E isso causa um grande desastre social, pois, muita gente fica indignada com a situação de ver uns pagarem a tarifa e outros não. Além de ter que lidar com a questão de a designação de transporte público ser mantida apenas para favorecer a especulação do setor por empresas privadas, pois, se a designação fosse privada a evasão não poderia acontecer com o oba-oba que acontece, uma vez que estaria-se dando razão para os pagantes entrarem na folia, já que os que ganham com o negócio aparentariam se contentar em ganhar só sobre quem não rebela.

Um sujeito contou em público que estava indo para o trabalho e entrou em um ônibus que o deixaria em uma estação dentro de um shopping em Belo Horizonte. Um circular que vai de um bairro de Vespasiano para a Capital. Do tipo que transita sem cobrador. O motorista faz a vez desse profissional desempregado por motivos capciosos dos administradores do transporte coletivo de Minas Gerais.

Teve o sujeito que driblar os que ficam amontoados no espaço que antecede a roleta para chegar até a própria e passar o seu cartão corporativo para pagar a tarifa. Ao fazê-lo, viu na tela da maquininha registradora a mensagem de que ele estava com saldo insuficiente para concluir a operação. Ele não entendeu a razão de estar com saldo insuficiente, a empresa para a qual ele trabalha sempre faz em dia as recargas, e insistiu algumas vezes mais, até que foi convencido de que teria que consultar a carteira e pegar algum dinheiro para passar para o motorista. No que fez isso ele se viu em apuros: os dois reais que restavam-lhe do movimento de abre e fecha de porta-notas durante a semana não o ajudariam a se livrar da inadimplência.

Eram cerca de nove da manhã e provavelmente a casa lotérica do bairro já estava aberta e nela ele poderia sacar algum dinheiro de sua conta corrente e reabastecer sua carteira, além de dispor-se do que precisasse para efetuar ao motorista da próxima lotação o valor da passagem. Com receio de o condutor-cobrador da lotação pensasse que se tratava de apenas mais um a dar o golpe do cartão sem saldo para permanecer antes da roleta e descer pela porta da frente sem pagar a passagem, truque comum entre os vigaristas que cabulam as tarifas nos ônibus, o sujeito  avisou ao condutor o ocorrido, lhe pedindo autorização para descer pela porta da frente perto da casa lotérica a que foi obrigado a se dirigir.

O motorista lhe concedeu o pedido, mas ficou cabreiro. Quis saber por que ele não seguia a viagem até o destino e deixasse de pagar a passagem, como muitos fazem, tanto intimidando os condutores, quanto de maneira amistosa. O sujeito fez-lhe então uma explicação bastante motivacional.

– Qual a imagem que se faz de quem cabula passagem? É a de um vagabundo, um malandro, um marginal, respondo eu. Inevitavelmente eu vou ser visto assim. E eu não sou nenhuma dessas coisas e nem gostaria que me vissem assim. Se eu ajo da forma que age um vagabundo, mesmo que por motivo de força maior, corro o risco de atrair situações que me levam a agir novamente dessa forma e de acostumar-me com isso. Contudo, irei me tornar um fracassado, do tipo que nunca poderá realmente pagar uma passagem de ônibus. Não irei crescer, pois, só as pessoas que não se importam com os atos que cometem os marginais é que não os veem com essa imagem ruim, aniquiladora. Essas pessoas também são marginais, fazem as mesmas coisas que fazem os marginais. Tenho pretensões maiores para a minha vida. Quero um dia não mais ter que utilizar ônibus. E não é estando rodeado de marginais, por serem iguais e me tolerarem, que vou conseguir subir na vida. As pessoas que poderão me ajudar a subir podem estar dentro de um ônibus em que eu estiver e ao me vir fazendo essas picaretagens vão me avaliar mal e desistir de prestar a ajuda. Imagem é tudo!

Terminado seu discurso, que deixou muitos ao seu redor invocados e ao mesmo tempo reflexivos, o salto do ônibus dado pelo sujeito se sucedeu. Pegou na casa lotérica o dinheiro que precisava e foi em busca de ponto de ônibus para pegar outra lotação.

Já dentro do ônibus o sujeito observava a corrupção que é praticada até mesmo por pessoas que até pouco tempo batiam panelas para exigir moralidade dos políticos. Além das que ficam na parte anterior à roleta à espera de descer pela porta da frente e das que andam com cartões magnéticos vazios ou com defeito para forçar um álibi para não pagar a passagem, marmanjos e moçoilas pulavam a catraca ou arranjavam meio de atravessar a região através da cadeira que antes era ocupada pelo cobrador. Crianças com mais de seis anos passavam debaixo da roleta. Tinha os que o motorista abria as portas traseiras para eles entrarem ou os que entravam por esta porta nos momentos de desembarque. E entre os poucos que pagavam a taxa havia os que passavam de dois na catraca, um empurrando o outro até o giro dela se completar.

O ápice do absurdo apareceu quando um senhor de idade ficara de pé perto do sujeito pagante. Este ocupava uma cadeira de cor cinza, que não é reservada aos prioritários. Muitos  passageiros olhavam para ele esperando que ele fosse educado e compreensivo e cedesse o lugar para o idoso. Mas, nisto o sujeito era igual a todo mundo: Não aceita desaforos. Tanta gente que pulou a roleta e estava sentada, e em cadeiras de cor amarela ainda por cima, por que ele, pagante, iria ceder o lugar? Ficou para alguém que também pagara a passagem fazer o que nem ele e nem os marginais fizeram.

Eu acredito que as prefeituras devessem imaginar um jeito de tornar o transporte realmente público. Evitaria essas situações que são desconfortáveis para quem é honesto e colabora com o sistema. Deviam priorizar a preservação de pessoas assim. E até estimular. Na prática, já que a evasão atinge grande patamar e pode-se dizer que só aqueles que possuem cartões empresariais é que seguem a rotina normal de pagamento da condução, a tarifa é aberta. Passe livre. Na marra, mas livre. Fica tudo nas costas dos empresários e os que exploram o setor de transporte urbano são postos a ver navios.

Sei que não é bem assim, mas critico o modelo, que permite o questionamento da idoneidade dos administradores públicos, pois, se já se ficasse conhecido que há a necessidade de pagamento da condução só para o trabalhador, porque ele ganha do empregador o vale-transporte, a indignação de uns e até mesmo a insegurança existente nos ônibus, que parte dessa corrupção, acabariam. As viagens seguiriam tranquilas e ninguém teria dificuldades sequer de atravessar a roleta porque há obstáculos de não pagantes entre ela e a entrada do ônibus.

Sei lá, de repente, se as prefeituras que passam por esse problema na administração do transporte coletivo descontassem do usuário o valor do transporte em algum insumo municipal que ele não tenha como cabular, seria uma solução.

Tenho em mente o IPTU. Se de repente no IPTU fosse implantado um valor que subsidiasse o transporte público de cada bairro, os moradores de cada casa, independente da quantidade de moradores, receberiam cartões de transporte que os permitiram utilizar por um ano, livremente, as linhas de ônibus que servem o bairro onde o imóvel se situa e também as que os levassem a outros bairros.

Cada morador da residência, incluindo as crianças, teriam o seu cartão. IPTU atrasado: sem cartões até regularizar; residências que não quisessem o provento implantado em seu imposto predial e territorial urbano, idem. Esses últimos, nessa situação teriam que comprar cartões para utilizar os coletivos.

Somente as linhas mananciais que levam o usuário de um terminal de ônibus até o centro da Capital, como o MOVE no caso de BH, é que seguiria o modelo tradicional de se comprar cartões em bilheterias. Cabulação de passagem em estações de BRT também acontecem, mas, assim como nas estações de metrô, com muito menos facilidade. A evasão pode ser controlada.

As entradas e saídas dos ônibus poderiam ser na frente dos mesmos. Os engenheiros do setor conseguem resolver isso. Ao entrar, o passageiro passaria o cartão na leitora. A mesma se prostaria antes da cabina do motorista. Ao descer, novamente se passaria o cartão para liberar a porta de saída. Dessa forma, quem quisesse entrar ou sair teria que portar um cartão válido. Que ele receberia ao aderir o sistema de cobrança integrada ao IPTU ou comprando um cartão de transporte, qual compra poderia ser estendida aos lojistas que trabalham com venda de cartões telefônicos ou recebimento de contas. Seria até uma forma de alavancar negócios para pequenos comerciantes.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: