Bem-vindo ao Governo Temer: O trabalhador pede socorro

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A gente só percebe que acusam árabes de serem “fanáticos religiosos” e “protagonistas de barbaridades em nome de Deus” para camuflar a verdadeira causa deles, definhar a imagem de quase invencíveis deles e menosprezar seus motivos para cometer atrocidades, sugerindo não serem válidos, quando nos vemos passando pelo mesmo que eles passam até se tornarem bárbaros e atrozes.

Quando chegamos ao máximo da tolerância ao desprezo que sofremos e à arrogância dos que nos desprezam. Quando, não vendo outra alternativa para não suicidar de graça, lançamos à mão metralhadoras M16 e, para nos extravasar e sobreviver à pressão psicológica que nos atormenta, nos pomos a metralhar, embora com alvo certo, o que e quem encontramos pela frente. Nesse momento nos sentimos, e pelos mesmos motivos, iguaiszinhos ao árabe taxado no Ocidente de terrorista.

Só assim enxergamos que o verdadeiro motivo de luta do palestino, do muçulmano, do islâmico, do xiita é a opressão causada pela elite escravista formada por estrangeiros invasores, que têm o intuito de pilhar, roubar, tomar seu território, direitos e dignidade, além de aniquilar moralmente pessoas que só querem trabalhar sem se sentir escravo, se contentando com o cotidiano de vida simples de alguém na multidão.

O revolucionário Carlos Lamarca já nos avisava sobre isso em 1962, quando integrou o Batalhão Suez das Forças de Paz da ONU, que fazia escolta na região de Gaza, Palestina, de onde retornou com as primeiras ideias socialistas. Lamarca testemunhou em loco muita pobreza e ficou impressionado com a realidade vivida por um povo que ele fora doutrinado a considerar cruel. Mas, conseguiu se desfazer da doutrinação e afirmou numa carta que escrevera a amigos que se fosse preciso entrar em combate, entraria ao lado dos árabes. A doutrinação, que já era a mesma que sofremos hoje, dizia que o certo é lutar por Israel. Hoje sabemos – a menos que não queiramos admitir – quem é o verdadeiro demônio.

Me referi à opressão sofrida pelos árabes e ao célebre Capitão Carlos Lamarca apenas para ilustrar algo comparativo em termos de opressão, vivido hoje pelo trabalhador brasileiro. O protagonista do caso que vou utilizar era um operador de telemarketing em um call center. Ele era obrigado a cumprir certo resultado diário e esse resultado só favorecia à gestão do call center e a ninguém mais.

E, idealista tal qual Lamarca, esse protagonista não aceitava usurpação. E fazia apenas o que estava determinado em seu contrato de trabalho e dentro das leis para cumprir suas obrigações. O que não era suficiente para os gestores, que precisavam de uma ajudinha dele com esforços maiores do que os que eram devidos ou merecidos pelo salário que ganhava e escapadinhas das leis que defendem o consumidor.

O trabalhador naquele call center era influenciado a cometer estelionatos se ele não tomasse cuidado ou não tivesse o mínimo conhecimento sobre atos ilícitos de toda sorte. A atuação honesta dos operadores garantiam o andamento da empresa e a quitação da folha de pagamento, mas, os gestores, por conta própria, independente da direção majoritária da empresa, que ficava na Itália só desfrutando das remessas de lucro, queria por nos bolsos o que só conseguiriam com um pouco mais de suor dos funcionários de produção e um pouco de engalobamento para cima dos clientes para chegar mais ligações para serem atendidas.

Cansados da inflexibilidade do protagonista dessa história, os gestores passaram a perseguí-lo, tentando forçar-lhe uma demissão por justa causa ou um pedido de demissão por parte dele. E ele, sensitivo, sentia isso. E cada ligação que ele atendia era uma caminhada em um campo minado. Do outro lado sempre havia alguém encarregado de lhe pregar uma peça durante um atendimento ilegítimo. Se o atendente não fosse cauteloso ele cairia em uma armadilha e se tornava refém da empresa.

Havia um manual de conduta que ministrava as regras para os atendimentos. Nele havia apenas o que era para se fazer. Nada mais e nada menos. Se se fizesse o que não estava ali e isso colasse,  tudo bem, passava batido. Se não, se culminasse em reclamação à Anatel ou processo no Procon, multas e responsabilizações para as teles envolvidas, o desvio poderia ser chamado à advertência e seguir-se uma escala pedagógica até a Justa Causa.

A tomadora dos serviços tinha uma empresa dentro do call center, só para avaliar os atendimentos. E essa empresa dava notas para os que ela monitorava. Um 100, nota máxima, num atendimento, não levava a nada de valor o atendente monitorado. Já um zero, o call center insistia que podia prejudicar a carreira profissional do operador ou lhe penalizar com uma demissão sem direitos. É, claro, aos olhos da CLT: tudo indevido!

Havia o sindicato dos trabalhadores, que mais parecia sindicato patronal. Acobertava as ilegalidades e os abusos morais que o call center cometia contra os trabalhadores. Os trabalhadores não podiam a ele recorrer. Contra os consumidores, o parceiro do call center parecia ser a Anatel. Então, estava o call center livre para operar na safadeza.

Um dia, ligou alguém encarregado de causar uma situação comprometedora para um atendente. A ligação foi direcionada propositalmente para o nosso protagonista. Incluiram sua identificação na fila dos clientes falsos. Os que ligam para gerar ligação para o call center e este passar a perna na tomadora do serviço – que paga pelos atendimentos, independente da legitimidade, e acaba repassando esse pagamento para o tolo do usuário de celular, com a ajuda do STF, como vimos recentemente – e que ligam também para macular, sob ordens prévias, a índole de algum atendente. Isso quando o contato não se limita só a insultá-lo.

E o cara que ligou solicitou algo que a gestão do call center ordena de um jeito  (do jeito que lhe favorece) – verbalmente para não se comprometer ou colhendo assinaturas em papel contendo as ordens, sem entregar cópia do mesmo para o operador se inocentar em caso de uma necessidade – e a tomadora dos serviços, em seu manual de conduta, instrui de outro. E o operador em questão conduziu o atendimento conforme o manual oficial.

No dia seguinte veio-lhe a nota zero da empresa de auditoria. Ele já esperava por ela. E fez questão de se defender utilizando os termos do manual oficial. Porém, ao acessar o endereço eletrônico que contém o manual, que é de domínio total da tomadora dos serviços, a norma estava escrita diferente. Era outro mecanismo que os operadores não ganham impressos para se assegurar do que é instruido. Ele percebeu que a própria cliente do call center fazia parte daquela corrupção contra o trabalhador. No caso: Ela, o call center, o cliente falso que fez a ligação, o sindicato dos trabalhadores da categoria, a Anatel. Nosso protagonista não podia fazer nada contra eles, pois, qual a prova que ele teria para fazer valer sua integridade?

Ele se viu acuado e ligou para a Polícia com todos lhe observando. A Polícia disse que não era caso para ela resolver e que era só ele não assinar a advertência, ele não era obrigado a fazê-lo. Disso ele sabia. Ele queria que a Polícia fosse até o local para ele fazer queixa de conspiração contra o trabalhador e formação de quadrilha. Para estourar cativeiro de trabalho escravo e de abusos ao operário, que é quem, com os encargos que gera com o seu suor e o seu consumo nos mercados gerais, paga o salário desse bando todo.

Um ou dois agentes policiais comparecendo ao local anotariam tudo o que encontrassem e em um processo jurídico contra a empresa nosso protagonista poderia usar o testemunho dos guardas para explicar o golpe que sofria e outras situações mais. A empresa se exporia e a alforria seria assinada de uma vez por todas para todo o quadro de funcionários da empresa, até os supervisores, que estavam um nível a mais na linha hierárquica em relação aos operadores, sairiam ganhando. Mas, não teve jeito e a Polícia lhe omitiu socorro.

O operador protagonista da história tinha um trunfo que sem provas ele poderia conseguir no mínimo uma rescisão indireta junto à Justiça do Trabalho. Bastava o juíz entender que a empresa não estava lhe arcando com certos compromissos previstos em lei que ele atingiria facilmente esse objetivo. Na segunda-feira seguinte ao episódio mencionado, o atendente oprimido foi recorrer ao órgão público de apoio ao operador. Não foi ao Ministério do Trabalho porque o próprio estava ainda de greve. Uma greve providencial para ajudar as empresas contra reclamações trabalhistas. O espírito de cooperação ao empregador que era próprio do Governo FHC e está de volta no Governo Temer.

E na JT ele quis saber o que aconteceria se o juiz indeferisse seu pleito. Ele já sabia que o pedido de rescisão indireta seria convertido em pedido de demissão. Isso não lhe preocupava. Preocupava, sim, se ele iria ter algum ônus. E o ouvidor de justiça lhe disse que ele pagaria apenas os custos da audiência que se referia a ele próprio. “Não mexe com isso não” é o que ele estava lhe dizendo.

Esse conto, parcialmente real, acaba aqui. Nosso trabalhador vitimado pela estrutura pró empregador que se forma com o novo governo decidiu que não valia a pena lutar pelos seus direitos. Estava acuado e sozinho. Era melhor ele ir para o trabalho, pedir conta e deixar para lá o dinheiro que ficasse embargado por ter partido dele a rescisão.

Na certa, os juizes do Trabalho também estavam corrompidos pelo sistema e comprometidos em dar cobertura para o empregador. Principalmente sendo este uma multinacional e que recebe donativo do próprio governo para operar. Que é o que vimos recentemente: esbanjamento de falta de compromisso com o povo, quando as equipes de Michel Temer decidiram usar o dinheiro do mesmo para destinar às empresas de telecomunicações e estas conseguirem se safar de suas crises. Que, aos olhos do nosso protagonista e aos meus, a única crise que passa esse setor é a crise moral lhe peculiar. O dinheiro da rescisão ou indenização se ele ganhasse sairia do bolso dele mesmo.

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