Enquanto amando estamos curados

O clima do verão fazia suas vítimas, contaminando-as com a felicidade típica dos finais de tarde dessa estação. A turma estava na praia, tocando em frente um luau. Doze a quinze pessoas em sistema de revezamento de idas ao mar e buscas nas barracas da praia de mais comes e bebes. Havia os permanentes incondicionais, que não arredavam os pés do QG. Estes não abriam mão de cantar e dançar, se possível, qualquer coisa que os musicistas improvisados iniciavam os acordes que iam paulatinamente sendo reconhecidos e ganhava força o vocal.

Entre corpos sarados de homens e mulheres, uma mulher branca, beirando a meia idade, muito acabada e careca, se esforçava o máximo para manter-se no clima alegre e revigorante, que se não fossem as preocupações lhe programada pelos médicos, a faria imaginar que estava sendo desenganada sem motivos. O tumor em seu cérebro talvez fosse mentira. Mentira da mente do neurocirurgião, mentira do tomógrafo. Nenhum glioma residia em seu cérebro.

Foi uma descontração perniciosa que lhe tirou do transe em que se colocara. O rapaz que administrava muito bem o pessoal com uso de seu instrumento, um violão, fizera com que as pessoas tocassem no assunto que ela preferia esquecer. E ela mesma achava que era nada demais o refrão “e se for de amor, quero morrer agora“. Soou como mau gosto sem ele ter a menor das intenções de fazê-lo. Uma canção que ela própria muito gostava de ouvir.

A emoção da gente é um sentido. E ele se assemelha ao tato quando nos empurra incontinentemente as lágrimas para fora. Ao comando de seu pensamento viajante, que visita lugares mórbidos sem que ela queira, isso aconteceu com a moribunda. A cena da jovem senhora tentando disfarçar o pranto e tentando deixar o local sob desculpa sem nexo, fez com que houvesse uma brusca interrupção no evento. As mulheres da trupe confortaram a doente. O violeiro se pôs a redimir-se. E buscou em sua mente algo para compensar. Alguma cancão que carregasse uma mensagem de esperança.

Existirá / E toda raça então experimentará / Para todo mal a cura“. Ao fim da última estrofe da linda música do Lulu Santos, a até esse momento triste e inconformada senhora foi abraçada em grupo. O violeiro pediu um abraço em separado. As coisas voltaram ao normal. Ficaram até melhores. Alguém registrava em vídeo tudo o que acontecia, com uso de seu smartphone.

O evento aconteceu durante uma viagem de férias da protagonista deste conto. Fora para ele pensando que poderia ser a última vez que faria o que mais gostava: viajar. Voltou para casa fazendo planos para conhecer em breve outras praias. O convite partiu da turma com quem conviveu naqueles quinze últimos dias de janeiro.

Ela se relaxou um pouco com as recomendações médicas em seu cometimento de férias. E trouxe o vício com ela na sua volta para casa. Por mais de uma semana deixou para lá os remédios. Comia o que desse vontade. Agindo assim e vez ou outra relembrando os momentos vividos no litoral nordeste do Brasil, Ela conseguia acreditar que estava curada. Ela se comportava assim. Tomava cuidado para que ninguém da sua relação lhe dissesse o contrário e novamente programasse sua mente com a sugestão da doença. A maldita sugestão que alimentava somaticamente o seu câncer.

Se os filhos e o restante da família se ocupassem de lhe dar mimos, compreensão e um pouco de ilusão, as dicas de alimentação lhe dadas por um homeopata que ela conhecera em uma de suas idas ao hospital seriam suficientes para que aos poucos, com a ajuda do otimismo a que se configurara com ele estando no Norte, as células de seu corpo detivessem a degeneração.

Ela fugiu de tudo o quanto pode. A família não contribuiu para a cura alternativa nem com ela fazendo o pedido. E, usando de artifícios irrefutáveis, convenceram-na de ir ao consultório de seu médico fazer o exame de rotina. Nem que fosse pela última vez. Ela, por sua vez, quis provar para seus entes familiares que voltaria de lá com uma notícia que os surpreenderia e ela não mais retornaria àquele gélido estabelecimento.

Um médico não gosta de perder pacientes. Realmente não. Mas, fica-se sempre a dúvida quanto ao ponto de vista que se deve validar essa perda. O ceticismo digno da profissão, herdado dos centros de formação, fez com que o neurologista dissesse com ar descrente à pobre mulher que a doença parecia ter sofrido melhora, mas que não era bom se precipitar e parar com o tratamento. Um acompanhamento dele a deixaria mais tranquila para se chegar à certezas. E, como profissional convicto do ramo e da escola que teve, pediu encarecidamente à mulher que se livrasse dos homeopáticos, não seriam eles os responsáveis por qualquer mudança no curso da doença.

A jornada combinada com a turma da praia aconteceria em julho. Mês oposto ao de janeiro. Com frio e busca pelo campo em vez do litoral. Durante o tempo que teve ainda de vida ela trocou correspondência com todos eles. Inventaram até um cronômetro que marcava uma contagem regressiva e uma agenda para ticar os eventos precedentes ao novo passeio.

Ela venceu o câncer. O que a levou não foi esse mal. A falta de amor, de compreensão, de amizade e a autossabotagem, que faz com que deixemos de fazer o que queremos para fazer o que querem os outros, deteriora-nos internamente muito mais. Os outros animais nunca sabem quando estão doentes e simplesmente vivem. Era assim que ela pretendia viver o resto de sua vida, que ela sabia, não era o médico que lhe determinaria.

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