15M2017: O dia em que o povo não falou só pra ele

Libertas Quae Sera Tamen“. (Liberte que serás também – inscrição na bandeira de Minas Gerais)

inconfidencia-mineira

IMAGEM: Blog do professor Rodrigo Mateus

7:55 da manhã. Mais do que o prazo que tenho para sair para ir trabalhar. Passei a mão em uma camisa vermelha e vesti. Ouvi minha irmã comentar que a Globo se omitia ante ao que acontecia nas estações de ônibus de Belo Horizonte. Não era de se esperar que a emissora de TV fosse noticiar o que contraria seus interesses e os dos seus. Uma paralisação social geral para conter a aprovação de uma lei abusiva, pretendida pelo Governo ilegítimo de Michel Temer e das elites por trás do mesmo.

Por sorte minha irmã conseguiu se esquivar da lavagem cerebral que sofre, que faz com que as pessoas busquem informações na rede de televisão maldita em vez dos poucos veículos de comunicação sérios que existem, e zapeou pelos canais. Encontrou a TV Record informando a situação caótica na estação Vilarinho, que por aquela hora estava fechada. A Record é uma emissora do PIG também, capacho do Governo também. Preparava ela para sua audiência do horário números circenses como selecionar pessoas e gratificá-las para falar que estavam furiosas com a greve dos ônibus e dos agentes de saúde, pois, tinham cirurgias para fazer. Daria um ar de que a greve geral não passava de um movimento idealizado e mantido por vagabundos revoltados, sem causa, contra o sistema.

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IMAGEM: Twitter @opinoaberto

Pelo menos deu para eu saber que o destino que eu tinha intenção de seguir não seria mudado. Me mandei para a Praça da Estação. Eu encontraria por lá o pessoal do partido político que sou filiado, o PCdoB, e participaria dos eventos programados para o dia. Enquanto eu os procurava, deparei-me e adentrei em um clima carnavalesco. Com alas de baterias, como a do Levante Popular, e jovens e idosos trajados alegoricamente. Fantasias de protesto.

Não se tratava da quadra da Salgueiro, mas o vermelho e branco predominava. O azul da UNE – União Nacional dos Estudantes – e de outros grupos estudantis, de universitários e de secundaristas, o amarelo, mais reforçado na pele dos carteiros, que apareceram em peso vestidos à caráter, e o laranja dos trabalhadores da SLU – Serviço de Limpeza Pública – disputavam as posições posteriores. Balançavam bandeiras, subiam cartazes e faixas, gritavam gritos de guerra e riminhas sarcásticas envolvendo quase sempre o sobrenome de Michel Temer.

Gente do PT, do PSTU, do PSol e do PCdoB se unia às entidades sociais para tratar a mobilização. Cinco caminhões, munidos de aparelhagem de som e palanque com microfones estavam de prontidão para primeiramente darem seu recado os palestrantes – líderes de movimentos estudantis e de outros nichos representantes de classes, sindicalistas, políticos de esquerda. A visibilidade maior era da CUT. A mestre de cerimônia em cima do caminhão da entidade – Central Única dos Trabalhadores – era uma das organizadoras do ato público em Minas Gerais. O levante em Belo Horizonte recebeu gente não só da Capital.

A jovem senhora da CUT, preparando o pessoal para a marcha até a Praça da Assembléia, teve a brilhante ideia de fazer uma dinâmica. Orquestrou o público para que toda gente envolvida na ação de protesto se concentrasse em frente ao palanque do caminhão da CUT. Um mar de cabeças humanas se teceu. Em seguida ela chamou a imprensa presente, tanto a vermelha, quanto a marrom, e pediu aos fotógrafos e jornalistas para que eles olhassem e registrassem com suas câmeras possantes a quantidade de gente que estava presente. Mais tarde a TV Globo, por exemplo, diria para a agora parca audiência do MGTV, que não havia mais do que seiscentas pessoas no ato. “Manda a Polícia Militar subir e contar também“. Gritei. Ela ouviu meu grito e solicitou a presença da PM no alto do carro. Dificilmente conseguiriam convencer à população que havia menos de 100 mil participantes no manifesto contra o Governo em BH. A praça totalmente lotada, em dias de shows que interessam à Globo noticiar volumosamente o público, pois ela própria os promove, com menos do que aquilo ela anuncia cem mil. Parece que é a capacidade do local. A dinâmica foi bem sacada, pois, fez com que a grande mídia tivesse sabotada sua contrainformação usando sua própria moeda. Era um contragolpe.

Emfim, saímos da Praça da Estação e fomos em direção à Assembléia Legislativa. Haveria por lá uma audiência pública. Políticos e manifestantes protagonizariam uma acariação. Discutiriam a punição dada – boicote do voto aos traidores do país que votassem à favor da falsa reforma – àqueles que não respeitassem o desejo do povo de quedar a PEC 237, que acabará com o atual sistema previdenciário brasileiro, deixando as pessoas sem aposentar, e os demais termos da reforma trabalhista. Me mantive longe da multidão, às margens apenas, devido aos ataques de labiritinte que tenho quando sinto claustrofobia. Herdei do trabalho e querem que eu trabalhe mais do que me falta para aposentar para que eu me trate quando isso acontecer.

Balas no bolso, garrafa com água dentro da mochila que eu levava nas costas, panfletos recolhidos aos poucos em uma das mãos. Segui viagem solitariamente. Bem diferente das militâncias dos velhos tempos de juventude. Mas: “tá limpo”! Adaptações politizadas para marchinhas de carnaval eram cantadas no alto do caminhão que eu seguia, enquanto os palestrantes conscientizavam os populares que transitavam. Revelavam para eles à força tudo o que eles não ouviam da Grande Mídia ou por não dar atenção à imprensa de esquerda. Os que não aderiam ao movimento por se submeterem às falácias da imprensa corporativa tremiam nas bases ao tocarem no assunto “vão ficar sem aposentadoria“, “vão ficar sem férias e sem 13º salário“. Até os informais ambulantes pararam para pensar se não deveriam engrossar o levante. Afinal, muitos deles vendem coisas para aposentados e gente curtindo férias.

Não durou muito tempo, em pleno Pirulito da Praça Sete, alguém pôs em minhas mãos a ponta de uma faixa. Subi a Avenida Amazonas até o destino conduzindo um dos lados da faixa que ficou estendida horizontalmente. Olhei primeiro do que se tratava a inscrição. Achei interessante se tratar de uma cobrança ao Governador de Minas, Fernando Pimentel, o piso salarial dos trabalhadores em educação prometido. Uma tremenda alusão de que a luta não era partidária e era honesta, não deixando de chamar à responsabilidade políticos das próprias coligações ou predileções. Coisa que direitista tem que aprender para fazer oposição com justiça em vez de convocar a ingenuidade do povo para dar golpes unicamente em nome de seus interesses.

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IMAGEM: Twitter @opinoaberto

O lema era “Ai, ai, ai, ai / Acaba com a Reforma ou o golpista cai“. Tinha também o clássico “um, dois, três, quatro, cinco, mil / ou pára a Reforma ou paramos o Brasil“. E BH mostrou que está disposta. A essa altura, após a brilhante fala de uma líder do Movimento Negro, aplaudida pela imensa maioria branca que subia a Amazonas em ritmo de procissão, uma jovem em nome dos estudantes secundaristas me emocionou. “O homem deve ser livre. O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo, e pode mesmo existir até quando não se é livre. E no entanto ele é em si mesmo a expressão mais elevada do que houver de mais livre em todas as gamas do sentimento humano. É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer.“Proferiu ela a frase do revolucionário Carlos Marighella.

Não bastasse isso, até o sindicato e vários representantes das polícias Civil, Municipal e Federal aderiram ao levante e fizeram palestras ao microfone, tendo como fundo musical “Até quando” do Gabriel Pensador, e tudo mais. Aí senti firmeza! Não estamos tão sozinhos! Se fudeu, Bolsonaro!

A diversificação de temas me chamou a atenção. Mostrava que o povo está consciente dos diversos problemas que estamos precisando resolver, mas, tirava um pouco o foco da luta, que era a votação da “Reforma da Morte”, a mudança na Constituição Nacional e na CLT que interessa somente aos banqueiros e aos ricaços do país e põe o povo para pagar as contas de um corpo político que quis tomar o poder para preparar o país para as elites deitarem e rolarem. De deficitária a Previdência do país não tem nada. Muitos especialistas mostram isso nas redes sociais contundentemente, para qualquer um entender, mesmo não sendo bom entendedor e sem precisar desenhar.

O outro ponto sabotador de intenções e manifestos e que sempre está presente nos movimentos eram os infiltrados. Os que criam focos de briga, estouram foguetes, passam por onde a organização disse que não foi permitido passar. E os que acendem e fumam cigarro de maconha no meio da passeata. Gente que trabalha para os golpistas e que a imprensa que vai fechar close neles para fazer reportagem maldosa e minimizadora sabe onde está para ir lá fotografá-la ou filmá-la. Os que ficam em casa à espera do resultado e veem pela TV vão ter essas cenas para desprezar a luta.

E foi assim. Eu tinha que relatar o meu dia. Já na Praça da Assembléia Legislativa, em frente ao órgão, pessoas se aglomeraram e o ambiente virou o de um Parque Municipal em um dia de domingo. Só que com batucadas, cornetadas, cantigas de protestos e faixas expostas no chão. Até um cemitério para o professor aposentado pela reforma do Temer foi montado. Muita irreverência em um evento bonito. Vendedores faturaram mais do que nos dias normais. Ganhei um boné da CUT e preguei na camisa uns bótons adesivos. Ouvimos o que tinham a dizer os deputados que participariam da audiência pública e tomamos conhecimento da agenda da CUT e das outras entidades que brigavam pela nossa aposentadoria. No Brasil todo teve protestos anti Temer e seu governo, contra a mídia golpista e o Judiciário vendido, que nós brasileiros pagamos os salários dos membros com o nosso trabalho, consumo e atenção.

Tuas Terras que são altaneiras
O seu céu é do puro anil
És bonita oh terra mineira
Esperança do nosso Brasil

Tua lua é a mais prateada
Que ilumina o nosso torrão
És formosa oh terra encantada
És orgulho da nossa nação

Oh! Minas Gerais
Oh! Minas Gerais
Quem te conhece
Não esquece jamais

Oh! Minas Gerais

(Trecho do hino de Minas Gerais)

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