Futebol e engenharia social: Quando os engenheiros falham

O Atlético Mineiro jogava no Mineirão contra o Corinthians Paulista, quando o narrador da televisão, canal Premiere, justificando o motivo de o jogo ser no estádio municipal e não no Independência, local de praxe onde o dono da casa vinha jogando, disse que era mais lucrativo para o Atlético colocar no Mineirão seus jogos com expectativa de torcida maior do que trinta mil torcedores. Conforme o narrador, no caso, o Galo de Minas pagava mais para jogar no Independência.

O Galo vinha, na ocasião, de uma vitória fora de casa diante ao Coritiba. Os que estão acostumados a sacar as jogadas que são feitas no mercado futebolista nacional não caíram na conversa e suspeitaram de ter sido uma manobra, combinada inclusive com o Coxa, para fazer o então desmotivado torcedor atleticano marcar presença nas arquibancadas do Mineirão e esperar pela reviravolta do seu time, tirando, inclusive, a invencibilidade do Timão.

E isso deu certo, o torcedor compareceu. E viu, ao final do jogo, o que tem visto ao vivo dentro do campo ou pela TV, em casa ou nos bares: o Galo sair da partida depenado. Perdendo um jogo bastante visível de ter sido escrito nos bastidores pela cúpula que faz do futebol uma máquina de engenharia social. Com o Atlético sempre avante, empolgando, parecendo que estava mudado, tendo tomado o rumo certo de uma vez por todas no campeonato, fingindo atacar e a querer agradar o torcedor. E o Corinthians fingindo se defender e a esperar os momentos ou os lances combinados para fazer os dois gols que fez na partida. O lobby de resultado garantiu mais três pontos ao coringa, que afastou-se ainda mais do vice-líder do campeonato, o Grêmio.

Mais tarde, na mesma rodada, foi a vez do Cruzeiro vencer o Vasco em pleno Rio de Janeiro. O Vasco venceu o Galo em Belo Horizonte, então, isso mexeria mais com os nervos do atleticano e melhoraria a autoestima do cruzeirense para com o seu time, o que seria muito bom para garantir sua difícil presença nas arquibancadas do estádio que o time arrendou e que está ruim das pernas, precisando fazer gerar renda nas catracas para sair do apuro financeiro herdado do negócio malfeito pelos governadores do Estado de Minas Gerais de antes e durante a Copa 2014. Tanto é que vem aí Aerosmith e Paul McCartney buscar dólares e bajulação do público, deixando um pouco do cobre para ajudar a sair da penúria a administração do estádio anfitrião de seus shows musicais.

Na rodada seguinte, o Galo foi jogar contra o Grêmio em Porto Alegre. Se o negócio do time era ganhar fora de casa, eis que aí estava uma grande prova de fogo. Mas, ingênuo é quem achava que o o lobby do futebol ia deixar isso acontecer e o Grêmio ficar distante do Corinthians – que ganhara em casa do Sport no dia anterior – uma quantidade de pontos que a considerar as estatísticas do primeiro turno do torneio, poderia-se desde já sagrar o time paulista campeão do próprio no ano.

O Corinthians ganhando o Brasileiro este ano favorece a necessidade de saldar as contas do Itaqueirão, herdadas também da Copa 2014, mas, se isso for feito assim tão precocemente, tira a atenção do campeonato do torcedor do Palmeiras, do Santos, do São Paulo, pois, eles não teriam mais o brinquedo de torcer contra. Sobraria, é claro, outra engenharia de opinião: a torcida de uns para ver o São Paulo cair para a segundona e dos sãopaulinos esperando que isso não aconteça. Curingão campeão também faz eleger candidato a presidente da república que enaltecer o clube ou que se pronunciar corintiano. Voto de torcedor mata qualquer eleitor consciente. Que o diga quem tem que aguentar Zezé Perrela no Senado.

É até por isso que o São Paulo fica revezando com algum time na zona do rebaixamento. Se vai cair ou não, decidirão ainda. Se acontecer, será com o mesmo objetivo mercadológico que foi cumprir este ano na divisão o Internacional do Rio Grande do Sul (por que acham que o Grêmio está tão por cima? Seria porque essa diferença de polaridade mexe bem com o interesse dos torcedores e os fazem tomar certos comportamentos que patrocinam ações políticas e comerciais?), que é o de levar atenções para a divisão e alavancar público e oportunidade para venda de pacotes de assinatura de jogos para a televisão. Arranjar também palco para alguns jogadores antigos e em lançamento irem aparecer para o mercado.

Em Porto Alegre também há dívida da Copa para quitar. Por isso um time de lá está em evidência. O jogo contra o Galo não foi nenhum absurdo o time gaúcho sair de campo com a vitória. Por isso vamos só criticar o fato de que se era para parecer que o Atlético MG anda pisando na bola em casa devido a uma onda de azar, então, que ele vencesse fora de BH um time de real expressão dentro do campeonato atual. O pênalti que Robinho do Galo perdeu, chutando a bola para o goleiro pegar no alto, da maneira mais tranquila possível, foi só para fazer parecer para aqueles que dão corda para as nossas postagens que não temos razão nenhuma nas caraminholas que deslanchamos e que se Robinho tivesse batido o pênalti contra o Botafogo no Rio de Janeiro, ele poderia perder tal qual perdeu Rafael Moura.

Aliás, o pênalti que o Fred perdeu no Independência contra o Santos teve o mesmo propósito de engenharia de opinião: Fred visivelmente bateu para o goleiro pegar. Uma alusão ao fato de que exímio batedor também erra pênalti, feita sob medida para desencorajar crenças à nossa crítica contra a penalidade deixada para Rafael Moura cobrar. Da mesma forma havia ocorrido no mesmo jogo com o goleiro do Atlético, Victor, que dessa vez pegou firme a penalidade mal cobrada de propósito, a fim de sabotar o que escrevemos na postagem que contestou o rebote para frente, nada típico do goleiro, que Victor deu no jogo contra o Botafogo só pra torcida do Galo entender que ele fez a parte dele, mas que infelizmente nessas cobranças o cara que cobra pode se valer de um rebote.

Nesse pênalti a favor do Galo contra o Grêmio, marcado quase no final do Segundo Tempo, quando o time mineiro perdia por 2 a 0, o puxão de camisa que o zagueiro do Grêmio deu no atacante do Galo era visível de ser artificial. Que jogador profissional que faz uma coisa daquela dentro da pequena área? Feito para o juíz marcar mesmo. E bem localizado na área para as câmeras da Globo pegarem, mostrarem com detalhe, com o narrador e o árbitro comentarista dizendo com todas as letras para moldar o telespectador que foi justa a marcação do penalti marcado para acontecer no jogo.

O que move o mundo é a esperança e não o dinheiro. Todos nós somos movidos pela esperança, pela expectativa. Quer que alguém faça algo para você? Encha-o de esperança. E é isso que está sendo descrito aí. Se o Corinthians já fatura logo o campeonato, por exemplo, acaba com a esperança, e consequentemente o interesse, da maioria dos torcedores. Eles não vão ver os jogos nem do seu time mais, não vão pairar na frente da TV nem pra ver programa esportivo, não vão comprar produtos do time para o qual torcem. Não vão apoiar o esquema que gira bilhões e enche bolsos. Exceto os do torcedor, é claro!

Porém, a engenharia de comportamento ministrada pelos gerenciadores do futebol constatou uma falha. Eu falei no começo da postagem que a televisão informou que o Atlético Mineiro coloca seus jogos com previsão de mais de trinta mil torcedores no Mineirão. Um paliativo para justificar a ida do jogo contra o Corinthians para o estádio, que favorece, inclusive, a televisão. Tanto Atlético MG quanto o Grêmio jogariam o próximo jogo de suas equipes pelas Oitavas da Libertadores 2017 na quarta-feira, 9 de agosto. Era tudo ou nada.

O Atlético perdera por 1 a 0 na Bolívia para o Jorge Wisterman e precisava ganhar em seu campo por 2 a 0 para passar de fase. Resultado bem menos esperado pela torcida, devido ao fator casa, melhor campanha na fase de grupos da Libertadores, maior investimento na formação da equipe do que o feito pelo adversário. Era para o torcedor, certo de o Galo vencer e sair da partida classificado.

E o torcedor do Galo tem fama de lotar arenas, independente da importância do jogo e independente da qualidade ou fama do adversário. Jogo do Galo para reunir 30 mil pessoas é qualquer jogo. Na sua estada na Segunda Divisão em 2006 a torcida bateu os recordes de público das três divisões principais. E com o time minguando no Brasileiro, a oportunidade para continuar a sequência de idas para a Libertadores no ano que vem morava nesse jogo. Era de se esperar 50 mil torcedores fácil fácil.

No entanto, não foi o que aconteceu. A Globo anunciou antes de começar a partida um público de 31 mil pessoas. Remediou dizendo que ainda havia muita gente do lado de fora para entrar. O que se viu que não era verdade. Em um momento no meio da partida, uma parte bem ampla das arquibancadas foi mostrada pela câmera. Estava vazia. A Globo remediou dizendo que era onde deveria estar a torcida adversária, que não comparecera em grande peso. Porém, era balela, pois, nunca é deixado para o torcedor visitante espaço tão grande e tão nobre, com boa visibilidade do campo. E nem a torcida do Galo deixa sobrar tanto espaço, ainda que fosse reservado. O público não foi mesmo.

Daí, encheram-se de orgulho aqueles que criticam o futebol industrial e a engenharia social feita através do futebol: o público está amadurecendo e está reagindo contra a moldagem de seu comportamento. Este foi um episódio em que a casa caiu para os moldadores de opinião. Tanto é que o próximo jogo do Atlético, contra o Flamengo do Rio, em Belo Horizonte, pelo Brasileirão, foi marcado para ser jogado no Independência. Como se diz: O Atlético não põe seus jogos contra times com expectativa de público maior do que 30 mil torcedores no Mineirão?

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