Amor de jóquei

Deixado o partidor havia alguns segundos, velozmente urrava um cavalo na pista de um hipódromo. Quando juntava com uma só mão as rédeas e esticava o braço livre o jóquei, o reio de couro cru descia, batia no dorso do animal e subia impiedosamente. Tamanha era a ânsia do pequeno homem trajando farda branca e capacete, montado em um selim e equilibrado com os pés em estribos, ambos acessórios arranjados sobre a cacunda do equino. Inclinado e com o rosto junto ao pescoço do animal, as esporas das botas do homenzinho cutucavam as virilhas do bicho a fim de aumentar a velocidade de seu galope pelos duzentos metros da pista circular.

Determinado a no páreo superar os outros cavaleiros e chegar ao final do turfe na condição de ocupar o ponto mais alto do pódio, o jóquei alimentava em vez de garra uma expressão de ódio, delineada pelos olhos fixos na crina à sua frente, pretendendo enxergar logo a reta final. Qual posição de chegada facultaria uma premiação que se adviesse fadaria ao esportista viver a desejada vida de estrelato. Por isso não importava para ele se quanto mais veloz o ginete corria, mais na alma lhe doía.

50, 60, 70 quilômetros por hora a arrastar 450 quilos de carcaça e mais o peso do homem em seu lombo e o restante em acessórios, a obediência do cavalo se explicava pela sua inferioridade dada pela sua qualidade de ser vivo irracional. A sofreguidão lhe era insensível devido à alta taxa de adrenalina jorrada em seu sangue ao ritmo de 200 batimentos cardíacos. Sequer o condutor tinha tempo para observar a carga hormonal que o corcel herdava sem pedir. Senhorio e escravo alinhavam-se em busca da vitória que traria glórias ao primeiro e alívio ao outro. Cifras prodigiosas para os apostadores de trifetas, quadrifetas, exata e apostas de outros mercados.

Nessa história de sucesso, tendo tomado ciência de que sequer seria necessário tira-teima, pois a eficácia de seu puro-sangue inglês minara a disputa cabeça a cabeça ao atravessar a linha de chegada, a alegria tomara conta do homenzinho em cima do cavalo. Um amor enorme por seu puro-sangue lhe embriagou. No ponto onde foi possível ele freou seu campeão. Desceu da sela e abraçou agradecio o bicho pelo pescoço, colando cabeça de um na testa do outro.

As mesmas mãos que até pouco tempo açoitavam o animal, a ponto de lhe arrancar gotas de sangue no flanco, agora afagavam, acariciavam desprovidas do chicote. Emanavam ambos uma energia intensa e contagiante, que o cavalo só queria saber de absorver e o humano de doar o quanto fosse possível. Os animais reconhecem as energias que os humanos emanam muito mais do que seus atos. E o que trás alívio e prazer eles não dispensam. É a única forma funcional do perdão, o perdão natural.

Pena que essa devoção e gratidão não durará muito. O destino de um será gastar milhões em dinheiro durante os tempos de glória e o do outro servir ao espetáculo do turfe somente enquanto fosse útil. Não mais servil, incapaz de proporcionar milhões ao seu proprietário, se este não se prostrar tão insensível ao ponto de dar o destino do sacrifício em um matadouro ao seu potro, este poderá puxar carroça para algum transportador anacrônico ou esperará em algum estábulo-orfanato por alguém que lhe queira como companhia pelos dias restantes de sua vida. Quaisquer desses tutores lhe dará certamente muito mais amor.

Jamais se aproxime de uma cabra pela frente, de um cavalo por trás ou de um idiota por qualquer dos lados.”
(Provérbio Judeu)

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