Tirando votos de Jair Bolsonaro

Estava eu bebendo cerveja em um bar, numa periferia de Belo Horizonte, onde bebia um grupo de velhotes aposentados – o mais novo deles tinha sessenta e quatro anos –, com o burro na sombra e com a vida sossegada, presa a uma rotina imutável que resumia a estar dentro de casa e a dar voltas pelo bairro, parando em algum estabelecimento recreativo de vez em quando, geralmente o bar onde eu estava, só mudando alguma coisa dela quando a precisar resolver algo que não se resolvia no próprio bairro ou quando a querer visitar alguém. Nem turismo ou coisa assim os caras faziam para aproveitar melhor o dinheiro mensal da aposentadoria e, quem sabe, curtir direito os dias restantes de suas passagens pela Terra.

Sequer comprar alguma coisa nova os caras compravam. Tinham de tudo. O máximo que cogitavam fazer nesse sentido era experimentar as maravilhas que se podia fazer com um celular, que eles ouviam até mesmo de outros velhos a respeito delas, e, com isso, ser necessário investir em bons aparelhos que dessem conta do rojão.

E estava super chato o ambiente. Todos nele votariam em Jair Bolsonaro no Segundo Turno da eleição presidencial de 2018. Os proprietários do bar, também eleitores do ex-capitão do Exército, vez ou outra faziam uma média na mesa dos velhotes por causa da condescendência no voto.

E havia uma corte formada por pessoas de várias faixas etárias, moradores do bairro de periferia, tanto da parte melhor da localidade quanto das mais paupérrimas, gente simples e sem muita instrução e que ainda ajudava a compor, mesmo os desempregados ou os à espera do primeiro emprego, a população ativa da nação.

Essa gente era abordada pela gangue de eleitores do Bolsonaro e se deixava seduzir por ela. Os membros dela confirmaram no Primeiro Turno o voto lhes arrendado e estavam por cumprir também no segundo a promessa feita aos velhotes, os quais essa plebe admirava por causa da segurança que eles passavam de quem sabia o que fazia, tendo em vista a vida de aposentados playboys que levavam.

A maioria destes falsos playboys confessou que votou na Dilma em 2014 e propagava profunda amargura por isso. Mas, a audiência deles não possuía bom dissernimento político para observar isto e levar em conta em suas análises: os caras viraram a casaca, portanto, eles erravam também.

Um dos aposentados, que eu já conhecia, me convidou a unir-me a eles na mesa que ocupavam, mas, eu recusei, alegando querer ficar sozinho um tempo. O sujeito já conhecia minha opinião e ideologia e não fez qualquer cerimônia em me evidenciar por causa dela e me desprezou em público. “O único aqui que vai votar no PT”, “Não aprende, quer ser roubado outra vez”, disse em voz alta puxando risos dos demais.

Nisso, um dos plebeus achou que eu estivesse sendo deselegante ou passando uma imagem de superioridade por ser diferente, e decidiu me causar um desrespeito, elevando a mim palavras dignas de serem entendidas como insultos ou imposição de opinião. Coisa que quem pensa em votar em Fernando Haddad não aceita, pois, sabe muito bem que é livre pra votar em quem quiser.

Me levantei e fiz de palanque os arredores da mesa que eu ocupava. Olhei primeiramente para o sujeito que me abordou sem gentileza, mas, me dirigi para toda a corte dos bolsonaristas e comecei a pregar para ela em tom de palestra.

  • Vocês são pobres, a maior parte é negra e jovem, ainda trabalham, demonstram gostar de variar de eventos recreativos, pode ser que alguns estudam. E se orientam com um bando de velhos cujo perfil é bem diferente dos de vocês?

Quem vocês acham que tem mais a oferecer para vocês, o Bolsonaro ou o Haddad? Vocês ainda dependem de trabalho, não possuem um valor mensal depositado pelo Governo nas contas de vocês. Já devem ter ouvido falar que há uma possibilidade de a democracia que vivemos ir para o espaço se Jair Bolsonaro virar presidente da república, vocês dependem dessa democracia. A maioria de vocês nasceu nela e não sabe o que é viver numa ditadura onde tudo é escasso para o pobre.

O que vai valer para esses velhos se Bolsonaro ganhar não vai valer para vocês. E, ademais, para eles qualquer que seja o vencedor, nada lhes é mudado significativamente. Continua tudo como está. Já vivem dentro de casa mesmo. Saindo no máximo pelos arredores do bairro e voltam pra casa logo ao anoitecer ou no máximo oito da noite.

Eles dizem que votaram na Dilma em 2014 e se arrependeram, mas, no que o voto deles nela foi crucial tanto para eles quanto para ela? Em nada. Não fez para eles nenhuma diferença. Já eram aposentados e levavam a vida que levam. E continuou assim.

Se a liberdade vier a cair, caso Bolsonaro vença, o uso da internet, a comunicação pelas redes sociais, culto ao videogame e jogos on line, tudo isso sofrerá mudança, ficará restrito, vigiado. Vocês sentirão esse cerceamento e desejarão furar o bloqueio.

No que furarem, serão penalizados, transformados em transgressores ou, em outras palavras, bandidos. E “bandido bom é bandido morto”, não é o lema?

Vocês gostam de barulho, passam com carro barulhento para lá e para cá. O som automotivo com o volume no talo. Música que propaga letras rebeldes. Às vezes é o próprio celular o propagador dessa barulheira. Acham que isso vai continuar assim?

Querem continuar com a algazarra que fazem quando comemoram a vitória do time que torcem no futebol? Querem se manter esbanjando futilidades? Cada vez mais tatuados e cheios de piercing. Com o cabelo parecendo um repolho.

Querem continuar podendo dançar no meio da rua, à meia-noite, incomodando quem passa e quem dorme, os passinhos de funk que costumam dançar?

E os que estudam? Já viram como Bolsonaro disse que vai ser no ambiente escolar e até fora dele? Cabelos cortados, barbas aparadas, sem uso de babilaques e roupas estravagantes. Nada de afetuosidade entre casais tanto dentro quanto fora do ambiente escolar. E se for homossexual, a repressão será ainda maior.

Detalhe: ele vai acabar com a escola pública. Inclusive com as faculdades. E com o sistema público de saúde também. E vocês dependem de tudo isso. Esses velhotes não. E faz todo o sentido Bolsonaro acabar com o sistema público de Ensino, Saúde e de outros setores, pois, ele prega o liberalismo econômico e demonstra ter vínculo com investidores que representam o Capital.

E quem trabalha? Vai aguentar ficar sem férias, sem dia de descanso remunerado, sem décimo terceiro, sem licença maternidade? Sem aposentadoria? Bolsonaro vai continuar do ponto que Michel Temer parar.

Vocês precisam se orientar conforme os seus interesses e não os dos outros. Analisem se o perfil de vocês é o mesmo de quem os tenta recrutar. E ainda, pra complicar, o candidato que vocês querem ver na presidência não vai à debates na televisão para esclarecer essas coisas para vocês.

Esses homens tentam motivar o ódio ao PT para que vocês fidelizem o voto ao Bolsonaro, mas, já repararam que todas as informações que levam a esse ódio são suspeitas?

A gente só sabe sobre a tal roubalheira do PT pelas informações que são nos trazidas pela imprensa corporativa. Essa imprensa ganha para informar. Tudo pode não passar de informações falsas para que tomemos exatamente a atitude que nos leva a dar aos que pagam essa mídia informativa para nos enganar o que eles querem.

No fundo, damos tiro no nosso próprio pé, tirando para escanteio quem de repente está é nos protegendo e nos dando condições de igualdade com essa gente que fica oculta atrás dos fatos. E o pior: colocando no posto mais importante da nação quem ela quer que seja colocado.

Se houve mesmo essa roubalheira, se prenderam os ladrões, já se perguntaram cadê o dinheiro da apreensão? Por que esse dinheiro não é compartilhado, já que dizem que te pertence?

Se esse dinheiro te pertence e é te dado na forma de benefício social, ou seja: o Governo investindo esse dinheiro em educação, saúde, transporte públicos, coisa de país socialista que capitalistas desprezam mas usam em parlatório para motivar pessoas à luta contra os inimigos deles, enquanto supostamente o PT roubava, vocês ficaram sem benefícios sociais? Ficaram sem FIES, sem Prouni, sem Pronatec, sem Minha Casa Minha Vida, sem Bolsa Família, sem Fome Zero? Não, né mesmo!

Então, a suposta roubalheira em nada afetou vocês. O PT arcou com seus compromissos para com vocês. Se o rombo nos cofres públicos existiu, o dinheiro furtado não era o de fazer esses investimentos e sim excedente que só quem o administra é que sabe que ele existe. E o canalha que denunciou o roubo só o fez porque certamente afanava dele também e ficou de fora da partilha em alguma vez e por isso quis se vingar dos colegas ladrões.

Feita a conscientização, quando eu apenas justificava o meu voto, exatamente o sujeito que me levou à explanação movida por estouro de paciência é que veio me dar razão e dizer que não havia pensado em nada disso.

Rapidinho aconteceu o alarido típico de multidão refletindo. Pelo menos umas vinte pessoas que ouviram o discurso se tornou, no ato, condescendente com o meu voto.

Nisso, o velho que me fez o convite para ir para a mesa dele fez uma tentativa de sustentar os votos que junto com os seus companheiros recrutara àquela corte. Lembrou para a corte que eu sou comunista. Como eu estava prontificado para discursar a esse respeito também, me pus a fazê-lo.

  • Sou comunista sim! Não nego! Mas, há uma diferença muito grande entre Comunismo e comunista. Talvez vocês tenham que ter medo do primeiro, já que levam uma vida cheia de futilidade e de consumismo.

E com relação a Comunismo, eu só deveria ser confrontado se eu estivesse desejando implantar isso no Brasil. Eu sequer tenho condição pra isso. Individualmente, ninguém tem.

E mesmo um partido político comunista que chegue ao poder, implantar o comunismo em uma nação depende de tantos fatores que, no caso do Brasil, antes de qualquer um deles ser efetivado a intenção já cai por terra, dado o fato de vivermos em uma democracia pluripartidarista.

São muitos ideólogos discutindo no Congresso, cada um representando um grupo social. E que isso permaneça assim. Um partido comunista no poder em um sistema assim só diferencia dos demais no sentido de manter sistemas públicos e de aproximar o pobre do rico.

É bem melhor do que estar no poder um partido militar ou um tirano ditador. Dentro de uma democracia, um ditador pode usar a própria para exigir ditadura, mas, dentro de uma ditadura não se consegue exigir democracia. Se dermos corda para o Bolsonaro corremos enormemente esse risco. Para que arriscar?

Agora, comunista diz respeito a hábitos. É possível viver dentro do capitalismo tendo hábitos comunistas. Exceto, é claro, os hábitos que vão de encontro com o regime. Estes são automaticamente eliminados do comportamento do comunista, pois, são previstos em leis e estas inexoravelmente têm que ser cumpridas. O resto não. Se eu não quiser ser consumista ao extremo eu não sou obrigado a ser.

Observem essas garrafas das cervejas que tomei. Vou pagar por elas. Não vou “dar o cano” e nem pedir alguém para pagar pra mim. Enquanto eu as tomava eu me mantive quieto nesta mesa e sem incomodar ninguém. Todos os meus atos comunistas são assim: não incomodam ninguém. É bom para donos de estabelecimentos como este ter clientes assim, não acham?

Não tenho tatuagens, nem piercings, não vou a baladas, não vejo televisão, não ouço rádio e nem leio jornais, não me importo com a moda, compro o necessário para eu viver. Talvez meu luxo esteja apenas em beber cervejas em botecos de vez em quando.

Olhem meu celular como ele é atrasado em relação ao que o mais simples de vocês têm – apresentei meu Samsung Galaxy 5. Eu nem uso Whatsapp pra se ter uma ideia. Não me faz falta não usar.

Gosto de música e filmes antigos. O meu carro tem mais de dez anos de uso e eu não me importo em trocar por um do ano se ele ainda me atende.

Esses são meus hábitos. E podem ser considerados comunistas por rejeitarem o consumismo e a absolescência planejada que o Capitalismo exige. Porém, em nada afetam vocês ou quem quer que seja. Daí, vocês jogarem fora o futuro de vocês só porque quem os alertou do erro que estão para cometer é chamado de comunista é uma atitude muito pequena. E muito arriscada.

A audiência voltou a se interessar pelo que propus, paguei a conta e me mandei pra casa. É melhor sair por cima. Vai que os velhotes decididos a votar em Jair Bolsonaro resolvem partir para o bolsonarismo – vulgo ignorância – e apontam armas para mim, como tem se ouvido relatos de pessoas que entraram em discussões desse tipo e se saíram melhor do que seus oponentes simpatizantes do candidato do PSL?

Convido você a completar as informações assistindo ao vídeo abaixo:

 

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