Tempo perdido

Legiao Urbana - 1986 - Dois - cover 06 (PalladiaHD)

Todos os dias, desde o último dia 28 de outubro, quando acordo eu penso sobre o que fiz com esse tempo em que eu me encontrava dormindo e antes dele. O que eu poderia ter feito? O que ainda se pode fazer? E chorando o leite derramado volto a pensar: “poxa, tenho todo o tempo do mundo”, “é possível consertar qualquer erro”.

Antes de dormir eu procuro recordar como foi o dia. Tem havido pouca coisa que eu queira me lembrar. Acabo dando de mão ao que me faz angustiar. E isso é quase tudo. Tem sido quase todo o meu cotidiano, inevitavelmente, voltado ao consumo de notícias sobre a politica. Esqueço então da tarefa que antecede frequentemente meu sono. Busco criar opções perante o atraso civilizatório que ganha a adesão de civis e sigo em frente, lutando. Não tenho tempo a perder por estar já velho.

Só que não me sinto confortável sabendo do risco que corremos de perdermos a democracia. Nosso suor sagrado daqueles idos de 1985. Como puderam colocar em risco tão sublime conquista por causa de um ódio estúpido, armado para eleifores terem e não elegerem novamente os mesmos caras que usurpavam da redemocratização. Ainda que inocentes das acusações que os marginalizavam, mesmo os perseguidos pelos condutores do comportamento da sociedade não escapavam de terem praticado essa atividade de má-fé e descuido com o nosso bem precioso.

A democracia é muito mais bela do que esse sangue amargo que andaram fazendo jorrar em troca de voto. Levaram a sério demais o que era só uma farsa de candidatura. Uma estupidez e insanidade. Se revelaram selvagens, até quem se dizia seguir os preceitos cristãos. Guerrearam e oprimiram, julgaram mal os outros, em nome da moral, do bom costume, estando acima de tudo Deus. Maior disparate impossível. Maior falta de lógica idem.

E ninguém estranha o fato de só não ter jorrado esse sangue na ponta da faca que disseram – e até mostraram – ter sido enfiada na banha desse que foi eleito. A facada eleitoreira. Que decidiu votos e teria decidido também o rompimento do adiamento de uma cirurgia já não mais adiável na região da barriga do esfaqueado.

O que é crer num golpe tão bem articulado e visando levar o público contra a facção política que este público já estava odiando, perto do crer sem qualquer argumento bem elaborado quanto à culpa que carrega Lula e o sustenta como preso político? O povo sempre recebe o que quer receber quando está disposto a cooperar com aquele que o guia tal qual uma marionete. Eles sempre estão dispostos a dar mais disso caso seja preciso.

Após dar um selinho de bom dia na boca de Marina, corri pra janela e fitei o panorama. A manhã cinzenta guardava por trás de nuvens um sol afoito por irradiar. Falei para Marina que estava pra chegar uma tempestade que seria da cor dos olhos castanhos dela. Ela me disse pra deixar disso. Pessimismo, ela se referia. Bolsonaro teria feito da forma que fez o que fez porque do contrário nem mesmo quem votou nele votaria. Ela completou assim. Apenas para me fazer conformar com o inconformável. No fundo, a democracia ficaria intacta, na concepção dela.

Eu quis bastante ter a mesma tranquilidade que tinha Marina para aceitar os fatos e doer menos. Tudo o que eu queria era que o cara fosse um competidor decente. Eu poderia até votar nele. Mas, o cara achava que não funcionaria assim. Ele sabia fazer caras e bocas, drama, mostrar repúdio por problemas inexistentes e determinação em resolvê-los. Seus simpatizantes não cuidavam sequer de serem sensatos e investigar os esquetes que eles iriam aplaudir. Afinal, todas as insandices proferidas pelo candidato que eles escolheram iriam ser legitimadas com o voto que dariam. O importante para eles era ver sair de cena o PT. Que pensamento pequeno, que entreguismo barato!

Pra dar razão ao otimismo de Marina eu pensei: “Sim, esse ministério que ele montou sugere isto: a democracia fica”. Vai haver mudanças profundas na economia e no trabalho, mas, o regime atual fica. E depois, eu vivi os anos de chumbo, vivi os tempos do PDS, Collor e FHC. Lula e Dilma foi fichinha para mim. Posso muito bem viver o neoliberalismo e o extremismo de direita.

O eleitor do Bolsonaro é que não vai dar conta. Seu estilinho de vida fútil verá privaçäo. Sua falta de consciência social e percepção política junto com sua urgência de amadurecimento intelectual é que decretarão seu infortúnio, sua insatisfação com o sistema, seu fracasso financeiro perante ao muito que doou para erguer o governo que o deletará das decisões que o afeta. Ele será tão escravizado e oprimido quanto eu, mas, achará injusto estar no mesmo barco.

Um governo que só este eleitor, no mundo todo, fora capaz de eleger. Até mesmo sua frágil fé sofrerá abalo quando se descobrir o uso dos pastores em nome do andamento de seus negócios, que estão suas igrejas entre eles. A garantia de formação perene de fiéis, por trás da imposição de falsa conduta moral vinculada ao governo em vigor, outro interesse acordado.

Eu não. Não tenho o que perder. Continuarei sendo comunista. Avesso à futilidades burguesas. Não consumista. Não expedicionário. Ateu. Por isso não me importa se para ficar ao seu lado o presidente eleito encheu de gente de moral duvidosa e histórico jurídico não condizente com a promessa de combater a corrupção que ele fez. Eu não acreditei nessas balelas e por isso não tenho que carregar culpa de ter sido bobo. Mas, irei cobrar tanto quanto quem o elegeu a tomada de tenência e o cumprimento de certas obrigações que ficaram implícitas. A disciplina social que gera comportamento não ameaçador aos entes de bem, por exemplo.

A república vai ruir. É a mudança em que se falou tomando o cuidado de não ser claro demais. Essa ligação encripada entre Michel Temer e Bolsonaro, outra coisa que se o eleitor tivesse sabido antes com mais transparência a respeito ele não teria feito o que fez, embora pistas tivessem sido deixadas, bastando, entre outras medidas, procurar saber em quê Bolsonaro vinha votando dentro do Congresso esses últimos anos, é que dá a certeza para se opinar que um punhado de parlamentares conservadores é que vão dar pitaco nas decisões do país. O presidente vaca-de-presépio e seu vice não vão governar de fato. Vão ser biônicos. Como os governadores militares.

A república deve se transformar em parlamentarismo. Michell Temer é obcecado por isso e estava em seus planos viabilizar essa forma de governo quando articulou o golpe que o colocou na presidência e também seu sucessor. Pela importância de seu ministério, calculo que Paulo Guedes será o Primeiro Ministro. Os demais o auxiliarão. Teresa Cristina também terá força nas votações dentro do Congresso Nacional.

Marina me lembrou que no plebiscito para forma de governo em 1993 eu escolhi parlamentarismo. E no referendo de 2005: sim para o armamento da população. Mais uma vez me sinto blindado contra a tentativa de me pregarem peças me forçando viver sob condições inesperadas. Mais blindado até que os ministros em seus carros e casas buscando se defender da população inconformada com a traição e falta de cumprimento de promessas ou de metas, embora a única meta que Bolsonaro estabeleceu ele cumpriu: tirar o PT de campo. Coisa que estava facílimo de fazer sem correr risco nenhum votando nele. Era só elevar o voto para qualquer outro candidato.

Corri de volta pra cama e pedi Marina para me abraçar forte. E dizer novamente o que disse. Dizer mais uma vez que era só pessimismo paranóico o que me causava aflição, que nada estaria perdido. Queria que ela me dissesse que já estávamos distantes de tudo o que ameaçou nossa conquista de outrora, a voluptuosa democracia. E que temos nosso próprio tempo para nos adaptar à sua nova roupagem. E talvez até prosperar. Sem abrir mão do ego. E ainda podendo fazer oposição ao que não estiver nos conformes. Ainda que na surdina até certo ponto. Deixaríamos nossos fetiches esquerdistas. Se possível.

Eu sei que tudo isso é só especulação do que pode vir a se configurar após a nova posse presidencial e da nova esplanada. Mas, eu não tenho medo do escuro. Aspiro sempre o melhor, preparo-me para o pior e vivo o que vier. Da melhor forma possível. Foi bom que Marina acendesse as luzes que iluminaram a estrada do destino e eu pude enxergar probabilidades verossímeis que esse governo se atreveria fazer vingar até por não contar com muitas alternativas. Que bom que ela as deixou acesas.

O novo governo terá que contar e muito com a cooperação da maioria que não o elegeu. Os 62% de eleitores que preferiram votar em quem apresentou alguma proposta palatável ou os que se abstiveram de votar e deixar o acaso decidir por eles.

Emprego do neoliberalismo e possível transição para o parlamentarismo, isso é o que pressupostamente digo ter sido escondido. E se escondeu para angariar adesões que de outra forma não viriam.

Estado-mínimo, reduzir a participação do Estado nas relações econômicas e trabalhistas da população e enxugar a máquina administrativa pública, é uma forma de combater a corrupção sem ter que se preocupar em prender corruptos. Assim ficam soltos os que correm esse risco se apertarem o cerco para que hajam investigações. São os amigos do presidente. Ou do Sistema, melhor dizendo.

Não mais ter o povo que escolher um presidente soa como a não mais a elite conservadora por trás dos partidos e políticos ter que se valer de golpes para forçar o povo a tomar atitudes em seu favor. E não mais o poder de veto ou de proclamação de um projeto parlamentar ficar nas mãos de um único político, que pode ser um adversário dos interessados na proclamação ou no veto, que são os membros dessa elite.

E o que esses eleitores entenderam que foi prometido, ninguém dos que estão no poder prometeu. Também náo foi nenhum tempo perdido o gasto com militância eleitoreira ou com oposição. A democracia brasileira é muito jovem. E está em plena construção. Será só mais uma fase.

2 comentários em “Tempo perdido”

  1. 1985 foi o início da redemocratização, o que aponta para uma luta anterior a esse tempo. Não teria como colocar esse período (pós 85) como “aos de chumbo”. De fato, foram menos pesados do que tudo que se passou entre 64 e 84. No mais, concordo com você e com Chico: vai passar.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Muito obrigado pelo comentário! Sim, também acho que foram menos pesados. Talvez a tortura foi menos visível porque foi psicológica, praticada à distância, na forma de ameaças, preconceitos, discriminação. Valeu!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: