O verdadeiro esquerdista

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Eu me encontrava confuso. Louco para iniciar minha resistência às ameaças que me afetavam, que pairavam na mídia como proferidas pela gente do presidente eleito Jair Bolsonaro. Como tudo que circunda o ex-capitão do Exército, nada se pode ter certeza se saiu mesmo dele. E como é próprio da política brasileira, qualquer mancha na imagem de fulano de direita pode ser simples intriga da oposição para aumentar o seu lado da corda e fazê-la arrebentar em seu favor. Não se pode confiar nos fatos. E os marqueteiros do Bolsonaro são experientes em criar desinformação, que é o que abala a confiabilidade dos fatos.

Basta lembrar do tal atentado à faca que o ‘homem’ teria sofrido. Quem de nós tem certeza de alguma coisa se aquilo foi ou não verdadeiro? Cada um escolhe no que quer acreditar e defender. E isto é diferente de ter certeza. Isto equivale à frase que teria surgido no STF para finalmente colocar o Lula na cadeia: “Não temos certeza, mas, temos convicção”.

Basta lembrar dos fakenews, dos fakelikes, dos comentários automáticos associados à perfis falsos no Facebook e em outras redes sociais na internet. E agora, depois de eleito, ele deu para fazer seus comparsas espalharem notícias sobre o seu cotidiano, visando fazer a imprensa replicar e em seguida colocar para desmentir os noticiados os mesmos que deram para a imprensa, de bom grado e com cara de furo de reportagem, a notícia. Com isso ele conseguiu deixar muito veículo de porte em maus lençóis, com a credibilidade ameaçada por espalhar boatos e não os sustentar. Cair no golpe da fonte insegura é erro primário para jornalistas de renome cometerem.

Eu não sou um desses jornalistas, por isso posso cair que nem patinho nesses truques. E caí em um bem seriamente. Mas, o tiro saiu pela culatra para o moço que o me aplicou.

Eu havia me cadastrado em quatro grupos de esquerda no Facebook e postava ou compartilhava diariamente nos murais desses grupos postagens que destinavam a mim adeptos. Ganhei muitos seguidores com isso. Estava eu me transformando num influenciador digital. Tenho impressão que sem querer eu publicava informações e análises que não deveriam ser publicadas. Deviam ser segredos ou então estimulava demais as pessoas a pensarem e a criarem senso crítico ameaçador.

A gente do Bolsonaro se infiltrava nesse meio. Um deles chegou a dizer que faziam isso para ver o quanto os esquerdistas não amavam o Brasil. Em vez de torcerem para que o novo governo desse certo eles o comiam o fígado com suas críticas e deboches. Para esse cara eu disse que fazer seu governo dar certo era uma obrigação do presidente eleito e que o mesmo não havia começado ainda e corria o risco de ser desfeito se insistíssemos, nós da esquerda, em nossa militância em pró de mostrar que a concorrência que exerceu Bolsonaro não foi leal e nem legítima. Até sofri o que os grandes influenciadores digitais sofrem. Fui ameaçado de ataque violento; insultado; exposto ao ridículo, mesmo que sem força essa tentativa de rechaçamento de imagem e assassinato de reputação. Só não ganhei nada do que eu pudesse desfrutar.

Então, em um dos grupos, que eu considerava suspeito, vi um vídeo mostrando nitidamente a cena da facada no bucho ocorrida em uma das ruas de Juíz de Fora no último dia 6 de setembro. Achei intrigante a clareza da imagem que mostrava o momento em que o suposto punhal atingia, na altura do abdomem, a camisa amarela que Bolsonaro usava e voltava para trás, junto com o punho do agressor, sem deixar rasgo na camisa ou rastro de sangue. Não hesitei em compartilhar o material, mas não sem ser cauteloso. Nesses tempos de alta tecnologia de edição de vídeo, coloquei no status, eu que nunca acreditei que o tal atentado tenha sido legítimo, “SE ISTO FOR FAKE, É TÃO BEM FEITO QUANTO FOI O FAKE DO ATENTADO”. Em pouco tempo vi o material se alastrar em compartilhamentos. Só que sem o status que escrevi para acompanhar a mensagem. Só notei isso quando o estrago foi feito. Ficou como se eu só quisesse compartilhar o vídeo e deixar que as pessoas tirassem suas próprias conclusões.

Em uma das noites, ao logar na rede do Zuckerberg, vi o sininho das notificações avisar cerca de 50 reações em postagens minhas para eu gerenciar. Em um dos murais para onde ia parar meus compartilhamentos, a postagem do tal vídeo foi novamente comentada. Um sujeito dizia que o próprio era montagem. E ainda explicou o passo-a-passo de como foi feito o trabalho. E na resposta que eu dei pra ele, que dizia que em momento algum eu disse que o vídeo era autêntico e que não notei que o status não caminhara com a postagem como era de praxe, ele replicou: “se você sabe que é falso, porque fica compartilhando isso”, “dá margem para dizerem que vocês de esquerda jogam sujo para moldar a opinião dos outros”, “o atentado foi verdadeiro”.

O cara não contava com a minha mediunidade. Sim, eu atribuo a minha capacidade de decifrar os golpes que marqueteiros dão no povo e também a de me livrar de enrascadas a uma espécie de poder sobrenatural. Falei pra ele que se ele sabia o passo-a-passo de como foi feito o material podia ser ele mesmo quem o produziu. Conclui o raciocínio alegando que ele teria postado o troço no grupo de esquerda onde estava infiltrado como membro e esperou que alguém o compartilhasse. Isto acontecendo, ele correria para os comentários do compartihamento para provar para todos os que se expusessem à publicação a canalhice de alguém ao propagar material falso. Sendo esse alguém um influenciador de grande personalidade, o golpe desencorajaria a adesão a ele.

E o que acabou sendo aproveitado pelos que acompanharam essa discussão foi o desmantelamento que fiz do tipo de tática de guerrilha que estava sendo usada pelos bolsomimions. A turma de esquerdistas aumentou suas defesas contra as jogadas deles e o moço sumiu do território.

Há muito equívoco, até entre esquerdistas, sobre o que é atitude de esquerda. Procurar minar a moral do outro para enfraquecer sua popularidade e contudo a adesão a ele não é atitude própria de esquerdistas tomarem. Tanto é que essas táticas durante essas eleições e nos momentos pós-eleitorais vimos muito mais associadas aos elementos de direita do que o contrário. São estratégias de guerra. Marketing de guerrilha. Se usa para vencer no campo midiático uma batalha. Sobreviver num jogo. Continuar numa competição e com chances clara de ganhar. Tanto é que Bolsonaro ganhou.

Certa vez, eu estava em uma distribuidora de bebidas que mantinha um ambiente para consumidores consumirem no próprio estabelecimento os produtos. Quando eu cheguei, vários dos que estavam no ambiente tinham à mão ou à mesa uma garrafa litrinho de certa marca de cerveja. Se buscava a garrafa dentro de um freezer, se entregava ela ao balconista, que a abria, e se seguia para a parte sem pilhas de engradadados, onde se podia sentar e degustar a bebida.

Segui esse itinerário e me dirigi para o espaço reservado aos bebuns levando comigo uma garrafa de cerveja, porém, de marca diferente da que consumiam. Obviamente eu tive que ouvir que sou do contra. E alguém ainda fez menção à minha acepção política e me taxou de esquerdista.

Eu tive que responder que eu apenas fugi da moda. Porém, inconscientemente. Sem o desejo de fugir. Apenas escolhi a marca que preferi consumir. Ainda que eu voltasse até eles com um produto da mesma marca que eles consumiam, a forma com que eu o teria escolhido teria semelhança com a forma com que escolhi o que eu portava. Eu não teria o escolhido induzido por terceiros, pelo simples fato de eles estarem bebendo a mesma marca, e também eu não teria sido cooptado pela propaganda do produto melhor vendido. Eu teria simplesmente sido independente, livre para escolher. Racional, conscientizado e ético, pois eu não prejudicava ninguém fazendo o que eu fazia. Totalmente imune à psicologia comercial que faculta o consumo. Irreverente à publicidade e ao capitalismo. Isto é comportamento de esquerda. O verdadeiro comportamento de esquerda. E ele acontece assim: naturalmente.

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