Vivendo num país sem Esquerda

Jair Bolsonaro colocou no ministério das relações exteriores um blogueiro cuja obsessão diz ele ser o combate ao marxismo cultural. Afinal, que porra é essa? Será que isso existe? Combate ao marxismo cultural ou emprego de facismo ideológico?

brasildedireita

Bem, para explicar para si mesmo o que quer que seja isso, é preciso desmembrar os termos dessa combinação lexical. Marxismo é, conforme o Google, “um conjunto de concepções, elaboradas por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), que, baseadas na economia política inglesa do início do Séc. XIX, na filosofia idealista alemã (esp. Hegel) e na tradição do pensamento socialista inglês e francês (esp. o chamado socialismo utópico ), influenciaram profundamente a filosofia e as ciências humanas da Modernidade, além de servir de doutrina ideológica para os países socialistas”. E cultural refere-se à algo que ganha certa característica ou adesão por meio da cultura dentro de uma sociedade.

Logo, estariam querendo impedir que através da cultura a população absorva as características dos ideais marxistas. Um similar do marxismo cultural seria o “American way of life“, que molda o brasileiro desde os anos 1950 a absorver os valores culturais dos estadunidenses da América.

Isto é, em outras palavras, ditadura, imposição ao indivíduo de qual cultura ele deve absorver. Enquanto o american way of life trabalha sutilmente, invadindo nossas praias em silêncio, trocando espelhos por território, como era feito com os índios da época da colonização portuguesa, o marxismo sofre arbitrariedade por simplesmente não agradar quem está no poder. E estamos em uma democracia, não é mesmo?

A verdade por trás do tal combate é outra. A população absorvendo a ideologia do viés marxista ela fica mais esperta, não se submete às futilidades e ao consumismo que o capitalismo necessita que ela se submeta e também não aceita se encher de crenças tolas, como as que enche o cristianismo e outras religiões. E o trabalhador não deixa por menos e o patrão deve andar na linha com ele.

Daí ficam sem vender seu produto o burguês, sem ver fiel na sua igreja o líder religioso, sem capacidade de governar o governante que precisa que seus súditos sejam burros e incapazes de questionar seu governo, sem audiência a mídia e sem saída para seus jornais a imprensa. Muita coisa que faz o capitalismo girar corre o risco do fracasso.

É por isso que querem derrubar a pedagogia construtivista e implantar a tal “escola sem partido“, que de apartidária não possui nada. Sejamos espertos e desenvolvamos senso crítico enquanto ainda podemos.

Agora, quem se deixa seduzir por essas bobagens que o novo governo anda propagando precisa saber mais sobre o que seu sedutor quer que ele adira e ajude a combater. O marxismo cultural é só uma estratégia para arrancar adeptos ao marxismo. Ele é formado por diversas táticas que vieram à luz a partir dos anos 1920, com o advento da Escola de Frankfurt, um movimento intelectual que existiu na Alemanha.

E Jair Bolsonaro e sua trupe abusaram do uso dessas táticas. Inclusive, quem foi cooptado por ele foi vítima do emprego dessas táticas, que ele próprio adotou. Os fakenews, sobretudo o do Kit Gay, foi a principal de todas. Em segundo lugar foi o golpe de chamar de esquerdista (ou, sem qualquer nexo, de comunista) tudo que ele (Bolsonaro), ou a gente por trás dele, queria combater.

Passando pela Antônio Carlos, em frente à UFMG, por volta das sete da noite, pude ver em dois bares à borda da pista da avenida, sentido Lagoa da Pampulha, uma galera de estudantes amontoada, um verdadeiro muvuco, a fazer tudo o que eles gostam: Embebedar, se drogar, dançar, badernar, combinar orgias, oscular, divertimento hétero e homossexual. Exceto estudar depois do expediente escolar universitário, que é o que desejariam que eles fizessem naquele momento os conservadores, que abominam todo esse comportamento rebelde que aparecia ao público vindo daquele tumulto.

Em uma roda de bar certa vez um amigo opinou: “Bolsonaro tem que acabar com essa farra”, “as universidades são antros de esquerdistas, só formam esquerdistas”. Elevando este enaltecimento ao descrito no parágrafo acima, diríamos que este amigo estaria associando à esquerda política brasileira tudo que incomoda os conservadores. Tudo que eles querem ver acabar. Esses reacionários, é claro, os tirados do povão e não os que se juntam em partidos e hipoteticamente se prostram como defensores da boa moral e dos bons costumes. E em vez de chamar de estudantes ou quem sabe: juventude, os manifestantes descritos, chama-os de esquerdistas.

Só que isso é um belo exemplo de tática de marxismo cultural. No meio político brasileiro, sobretudo no Congresso Nacional, muito querem os políticos financiados por elites conservadores impor os seus projetos de lei ou de obra a ser empregada na sociedade. A maioria é unilateral e não beneficia o social, e sim ao burguês e aos políticos. É superfaturada e segue os interesses dos que essa corja política representa, sobretudo o capital estrangeiro, o que significa escravismo para o brasileiro e perda pelo Brasil de riquezas, território e soberania.

Quem oferece resistência, às vezes votando contra, quando tem a oportunidade de votar, ou mobilizando massas para dar na base do grito o veto, é a Esquerda, são os senadores e deputados esquerdistas. Para vencê-los e acabar com a discussão democrática dentro do ambiente político só mesmo fazendo com que a imagem dos parlamentares que integram a Esquerda seja repudiada pela maioria dos habitantes do país.

E criando essa associação se cria junto à massa a repugnação necessária. Em pouco tempo a Esquerda fica fora do parlamento, pois, ninguém irá querer eleger candidato com as características dadas ao de esquerda, imaginando que a nação viverá numa baderna; que o filho virará homossexual, drogado, alcólatra; a filha uma prostituta mãe solteira; que a propriedade privada irá acabar; que a economia será planificada; que a violência urbana aumentará; Satanás será o deus-padrão ou o ateísmo crescerá (o que já cresce inevitavelmente com tanto filho-da-puta se dizendo escolhido de Deus) e os cambau de tudo “que é ruim” dentro de uma comunidade.

Entende como é a moldagem de opinião? É a melhor forma de se eleger um presidente da república ou um parlamento? Pois, desta vez acharam que sim!

A Esquerda pode ser extinta do poder, e com isso os imperialistas dominarem o espaço e fazer o Brasil para eles, do jeito que eles querem e a dar chicotadas em todo ser ordinário que vive no país. Mas, o comportamento marxista jamais sairá do povo. O viés ideológico que tanto incomoda os liberais já está plantado, como uma sementinha, na cabeça do popular. E mesmo inconscientemente algo estará fazendo lembrar ao mais extremista dos direitistas, dentro do povão, é claro: “eu era de esquerda e não sabia”.

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