Intimidando o Capitalismo

Comunista é o pseudônimo que os conservadores e saudosistas do fascismo inventaram para designar todo sujeito que luta por justiça social
(Érico Veríssimo, 1971, no romance Incidente em Antares)

maotsetung

Mao Tse Tung por Andy Warhol

Um jovem disse pro outro que não sabia o que valeu pra ele ter visto na escola filosofia e sociologia. Os amigos e amigas dele condescenderam. Estavam dando seu apoio à decisão do governo de tirar essas duas disciplinas da grade escolar. Fruto do combate ao eficiente pensamento comunista.

Como prova da abilolação que os absorviam, tiveram a audácia de dizer, apontando o dedo para o que chamaram de “esquerdinhas”, que “na China não tem essas disciplinas na grade escolar e o país é a maior potência do planeta”. Não citaram em que setor seria a China essa potência. A China de Mao Tsé Tung, pode?

Num ponto de ônibus, o primeiro da fila era um jovem de talvez vinte e poucos anos. Vestido até civilizadamente, mas, com linguajar, gesticulação e assunto de marginal.

O volume da prosa ruim do cara atingia todo o terminal de ônibus. Contava ele, sem pedir licença, para dois outros na fila, sujeitos típicos conservadores, que estava a um ponto de se vir livre de sua mulher. Comemorava até.

Depois chegaram outros dois sujeitos. A julgar pela aparência completa, incluindo vestes, cabelos e semblantes, bisca ruins também. Enturmaram com o primeiro. Distantes, mantinham a desinteressante conversa em alto e repugnante som.

O primeiro contou a nova sobre a separação. Deu detalhes do tipo: “a mulher estava me enchendo o saco e ainda veio com agressividade pra cima de mim”. Ao que os outros perguntaram: “não matou ela não”. E obtiveram como resposta: “Não, tenho que ficar pianinho porque estão na minha cola”.

Daí, o besta gritou feliz e foi parabenizado pelos outros dois bestas, que nem conseguia acreditar que ia ficar livre de usar o anel de compromisso que lhe apertava o dedo anular da mão direita. Para ele não importava trocar o anel por uma tornozeleira eletrônica.

Então, do nada começaram a falar sobre um lugar comum aos três. O primeiro, sempre em som evidente e perturbador, fez questão de dizer que conhecia bem o lugar e que vendia droga no tal. Frisava, sem qualquer temor, que vendia droga.

Para se tornar ainda mais repugnante, perguntou para os outros dois se eles pagaram passagem que nem bobocas para estarem ali dentro do terminal. Queria com isso relatar que impôs ao motorista do primeiro ônibus que utilizou para levá-lo até ali, que lhe deixasse entrar pela porta de saída, sair pela de entrada ou pular roleta. Virou herói para os outros dois, que não disseram nem que pagaram e nem que não.

Cada vez que o sujeito expelia pela boca sua idiotice, mais ele fazia se sentirem ameaçados e inseguros as pessoas de bem que sem chance de evitar o ouviam.

Num outro dia foi no corredor de um call center. Era um feriado e as ligações davam muita trégua. Como se sabe, o predomínio de homossexuais e drogados nesses ambientes é total. E que os assuntos que eles comentam são de nível duvidoso e em tom para chamar bem a atenção, o que satisfaz o ego deles.

No momento observado, queriam intimidar a platéia formada por trabalhadores que não tiveram a alternativa de não se submeter à confissões sórdidas e prosas ruins enquanto praticam sua atividade laboral. Foram obrigados a ouvir o mesmo naipe de conversa que tecia o causador de insegurança do primeiro cenário esboçado.

Esse tipo de comportamento intimidador tem financiamento político. E o objetivo de deixar instável e amedrontada a sociedade. É tática de recrutamento político e manipulação de comportamento social.

Só funciona dentro do Capitalismo essa tática. O destruindo, qualquer seja a ideologia do praticante. Inibe o consumo, pois, a insegurança faz com que a população evite sair de casa.

Se arranca com essas táticas pessoas para aderirem propostas que prometem dar um basta nesses tipos de sujeitos, não importando o meio, ou propostas que dão a sensação de que a democracia está evoluindo para o “tudo pode”, “não dá nada pra ninguém a contravenção ou a falta de ética”.

São estes apenas dois entre os muitos exemplos do que se pode conseguir em se aplicando esse golpe nos desavisados. Golpes que prosperam principalmente quando não se pode contar nas escolas com disciplinas que abrem a mente e fazem com que se tenha condições de decifrar articulações políticas como a citada. Disciplinas como sociologia e filosofia por exemplo.

Se vacinar contra isso é fazer como um dos que aguardavam o ônibus fez. O comunista enfiou fones no ouvido, ligou o rádio de seu celular, a lotação apareceu e ele deixou passar, pegou a próxima. Deixou que aqueles imbecis falassem apenas entre si, onde nenhum efeito surtiria.

Diferente deles só mesmo os incautos que se incomodavam com a conversa chata e não tiveram a esperteza de boicotar a viagem. Correram estes, inclusive, risco de serem assaltados pelo trio dentro do veículo.

Esse tipo de coisa a Direita gosta de associar à Esquerda. Mas, tanto uma quanto outra lateral política aplica no povo a estratégia pragmática, que gera resultado bom para quem não tem competência para administrar.

Quem deseja o bem social e qualidade de vida, segura e livre de exposições indesejadas, deve tomar atitudes que patrocinam, mesmo que sutilmente, pelo exemplo, a doutrinação nessa direção. E cobrar descência das autoridades da nação quanto ao foco na administração pública, sem uso de manipulação social.

É missão dos governantes educar as pessoas a se comportarem de maneira a não oferecer perigo umas às outras. Se fizerem isso, protegerão, automaticamente, a propriedade privada e os direitos humanos. E sem precisar, na gestão, desviar o foco da vontade do povo e gastar dinheiro em combate ao Comunismo.

Que nada tem a ver com os cânceres que realmente assolam o Capitalismo e ainda assim recebe associação dos defensores deste à tudo quanto é coisa ruim. Tão somente porque iguala as pessoas o pensamento comunista. Havendo igualdade, não há maldade.

A ameaça que o Comunismo oferece ao Capitalismo é bemvinda perto da que no Capitalismo os cidadãos oferecem a si mesmos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: