Meu amigo direitista

1Lembra, Pedro, aqueles velhos dias
em que os dois pensavam sobre o mundo?
Hoje eu te chamo de careta
E você me chama de vagabundo

grevegeral14jun2019

14 de abril de 2019. Somente servidor público fez greve nesse dia. O transporte rodoviário não parou por serem as empresas privadas, facilmente passíveis de multas e os funcionários delas de demissões. O que não permitiu a muitos dos que foram trabalhar deixar de fazê-lo.

Já o metrô, por ser federal, não seguiu a mesma orientação. Acompanharam os metroviários: as escolas públicas, as UPAs e os postos de saúde, as agências de bancos públicos – que inevitavelmente tiveram que acatar também as dos privados –, sindicalistas, estudantes de escolas públicas universitárias e aspirantes às vagas delas. Assistentes sociais, gente de associações diversas, empregados de estatais. Artistas que de alguma forma também se beneficiam do sistema estatal deram as caras. Esses não trabalham mesmo, por isso puderam ir à farra.

Com a desculpa de estarem defendendo direitos de todos os cidadãos, soberania do Estado e até a Constituição, só gente que mama nas tetas da União, diga-se de passagem, protestou. Na verdade defendiam seu sagrado e autoconsolidado direito de continuar mamando. Por que motivo aceitar destinar prerrogativas e regalias só à classe política?

Afinal, mamam nas tetas do povo os políticos – de esquerda, de direita, conservadores, radicais –, inclusive os que compõem o Governo Bolsonaro, que foi quem facultou a greve geral para deter suas propostas imprescindíveis, porém, mal explicadas e mal difundidas, as quais tem-se que ter sensibilidade altíssima para analisá-las e entendê-las.

Conforme os compartilhamentos, o presidente babaca espalhou nos antros onde se encontram os babacas de seus admiradores um texto chamando de anti-brasileiros os que acharam por bem brigar pelo que eles consideram que contrariam seus interesses.

Estes têm total direito de brigar, já que não puderam fazer valer seus anseios através das urnas alguns e já que o governo não cumpre com as expectativas que tinham com o voto que deram nele outros. Por quê sujeitar-se à petulância de um governo de moral duvidosa e propagador de mentiras?

Insatisfação é efeito e não causa. E não é quem sofre mandos e desmandos da classe política quem provoca o surgimento das insatisfações.

No discurso bolsomimimion não pode faltar ofensas aos que Bolsonaro e seus capangas consideram seus inimigos. Por isso, nos ambientes dos conservadores, petistas, psolistas, pcdobistas recebem alcunhas nada amistosas e típicas de cristãos pregarem por aí. Lembremos que o bolsonariano é cristão acima de tudo e não admite que seu deus permite nomeação de inimigos e depósito de raiva contra eles.

De acusações sem provas à dizeres injustificáveis, num antro bolsonarista onde eu navegava à noite quando voltei do trabalho, os adjetivos tecidos para denominar os esquerdistas – termo usado no lugar de ‘grevistas’ – rondavam o que de pior um ser humano pode chamar o outro para simplesmente ofendê-lo e tentar conter sede de vingança e resignação contra algo que de repente nem para o ofensor é muito claro o que seja. O que de mais repugnante alguém pode desferir contra alguém a fim de cultuar ódio era propagado com adesões em silêncio, talvez por preguiça de teclar, no tal ambiente.

E enquanto em seus antros o rol de direitistas-conservadores babacas se esbaldavam insultando os que denominavam esquerdistas, o brasileiro médio – o mais afetado pela corrupção que assola o Brasil e o novo governo finge combater – seguiu para seu subemprego assalariado e trabalhou. Foi protestar trabalhando. Alguém tinha que fazê-lo e sempre quem faz é o brasileiro médio que trabalha no setor de iniciativa privada.

Esse cara, o brasileiro médio citado, é que garante o salário e as aposentadorias dos burgueses, dos políticos, dos servidores públicos, dos boas-vidas e dos pobres da Direita e daqueles que recrutam idiotas-úteis para suas causas e que qualificam entre outras coisas como comunista quem luta por justiça social.

E às vezes, o cara que o maltrata ao se voltar contra um militante de esquerda é alguém que um dia foi um grande amigo seu. Viveram juntos boas histórias, se amaram, foram companheiros de lutas em comuns e cultivaram gostos bem parecidos. É cruel demais ver o destino fazer isso com amigos. Colocar cada um para um lado devido à acepções ideológicas desenvolvidas por si próprio ou absorvidas de terceiros, muitas vezes entidades manipuladoras.

Um conhecendo o outro como ninguém. Sabendo que não se trata de alguém que rouba ou que já tenha roubado; que se trata de alguém que jamais matou um ser humano; que não faz uso de drogas ou que seja cachaceiro; que possui certa moral e boa índole; que não é corrupto. E ainda assim trocando farpas movidos por ideias propagadas ao vento para serem captadas pela multidão e arrancar dos captores obediência a elas sem que eles notem, no fundo, qualquer serventia que elas possam ter. Junto com elas a obrigação de combater os que preferiram captar as ideias oponentes.

Vendo o outro como um oposto, faz figurar a lei do “ele que venha para o meu lado”, “ele não era assim, pode muito bem se redimir se quiser voltar a ser meu amigo”. “tem que andar na linha para andar comigo”.

Que degradante ter que abrir mão de um modo de pensar tão somente para se manter amizades. Ainda por cima com ninguém sabendo quem está certo e com ambos podendo mudar de opinião ao longo do curso incerto que a vida traça. Quantos antipetistas hoje bolsonaristas votaram no PT no passado? Foram obrigados ou acreditaram, tal qual acreditam agora, que era a opção para si mais correta?

O que move as pessoas pelas trilhas que elas trilham é o coração e não a cabeça. Ideologias não são firmes como são as escolhas feitas pelo coração. São metamórficas, vivem sendo mudadas.

A bem da verdade, o sujeito esperto vai de acordo com os interesses que ele possa ter no que propõe quem está no comando. De acordo com as vantagens que ele enxerga.

É por isso que eu, comunista autêntico – por desejar justiça social -, brasileiro mediano, trabalhei em vez de fazer greve ou ficar postando imbecilidades nas redes sociais da internet ou pelo Whatsapp. Afinal, tenho plena consciência do que se passa nos bastidores políticos do Brasil, como anda a economia e a moralidade do país e como as reformas propostas podem sanar os problemas mais urgentes.

O que vem depois é outro papo. Penso que inevitavelmente o comunismo. Capitalismo utópico ou talvez um novo regime em que o capital seja só uma maneira de administrar escambos. Então, pra quê ficar ufanando ou rechaçando regime político?

Quer acabar com o Capitalismo? Sature-o. Quer saturá-lo? Pague para ver as reivindicações do Governo Bolsonaro aprovadas. Quer dar adeus à ameaça do Comunismo? Apresente medidas que agradem a todos, sem serem impostas e sem criar elites.

E quer conservar amizades? Não milite a favor de políticos. Há tantas maneiras de se levar a vida e ao final dela o caminho é um só.

Não vale a pena perder amigos por causa de indivíduos que sequer conhecemos. São eleitos por nós, dão as cartas para nós, mas, sequer conhecemos. Não temos plena certeza de que são verdadeiros no que publicam quanto temos a respeito de um amigo ou de um ente bem próximo.

Temos que usar em nosso favor o provimento dos que dão as cartas. Às vezes fazendo o tiro sair para eles pela culatra. Sermos capazes de observar isso e de traçar metas com o que se tem. Mas, nada mais do que isso. Eles pra lá e nós pra cá!

2Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos, tantas portas
Mas, somente em um está seu coração
E eu não tenho nada a te dizer
Mas, não me critique como eu sou
Pois, cada um de nós é um universo
E pra onde você vai eu também vou.

(1,2 Trechos da canção “Meu amigo Pedro”. Raul Seixas.)

Leia o livro “Os meninos da Rua Albatroz”.

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