A redenção pela greta da porta

Fim da linha para o casal em pressa. Lindy apagou os faróis do carro e seguiu com eles apagados, pelo pequeno quarteirão que ela conhecia de olhos fechados. Confirmou se o Volks 8150 branco com um baú cinza acoplado estava parado na porta, como de praxe: de maneira a atrapalhar a passagem para a garagem de sua casa e a incomodar durante o dia os transeuntes que precisavam trafegar pela rua de calçadas desuniformes. Seria um sinal que lhe estragaria os planos. Ao que lhe pareceu seria uma virada típica de sexta-feira para sábado.

As portas do Celta foram abertas devagar. Ambos saíram juntos. Ele fechou a porta do lado do passageiro sem fazer qualquer barulho. Ela deixou a do motorista aberta. O motor estava ligado em marcha lenta e as chaves na ignição. Olhou, Lindy, para cima e notou a irmã segurando a renda da cortina da janela da sala, que ficava de frente para a rua em um andar superior, para observar discretamente quem vinha. O suave bombardeio do motor em estado de marcha lenta foi o que a fez buscar a janela. Olhando para cima, a claridade fosca denunciava que ela via televisão. O restante da casa estava com as luzes apagadas. Mesmo a do alpendre.

Lindaura abriu o portão de bandeira da garagem e solicitou ao amante que ele guiasse o carro para dentro dela. Ele deu a volta pela frente do veículo, entrou nele e fez o que foi lhe ordenado. Obviamente o farol teve que ser ligado. Este revelou no interior do cômodo de paredes apenas rebocadas uma escada que conduzia à porta de entrada da sala no andar de cima.

Mal o carro chegou ao ponto que precisava atingir para que o portão pudesse ser fechado e a dona da casa já puxou o próprio para dentro, enfiou-lhe a chave na fechadura interna e o trancou. O próximo passo foi se lançar nos braços do homem que a acompanhava. Parecia que o coito aconteceria ali mesmo. Mas, foram apenas carícias mais picantes. A moça estava decidida a levar o parceiro para o interior de sua residência.

A porta da sala já se encontrava destrancada. Quando foi aberta, Lindaura viu a irmã sentada no sofá grande. A TV, ligada no Cine Record Especial, era a companhia de Vera. A protestante olhou para os dois com o semblante de quem desaprovava o que ela premonizava e que já sabia se tratar de um ato de vingança contra o cunhado estúpido e infiel com quem Lindaura tivera o infortúnio de ter se desposado.

Aos trancos e barrancos, Vera foi apresentada a Júlio. Mal disseram qualquer coisa e Lindy conduziu, segurando-lhe o braço direito, a irmã até o corredor que levava aos quartos da casa. Vera já sabia qual seria o seu papel. E não muito conformada foi parar em seu aposento, onde havia também um aparelho televisor, o qual ela ligou para continuar a ver o filme que assistia.

Na sala, a anfitriã acomodou seu amante no sofá. Subiu em seus quadris como uma amazona e de frente pra ele, enlaçados pelos braços, trocaram beijos atrevidos e ficaram à espera de que o tesão os enlouquecesse e aquecesse estonteantemente a transa.

À medida que gemidos e barulho de raspões de corpos no estofado de chenille cinza denunciavam o clima que jazia na sala, a curiosidade da irmã se despertava. Com alguns passos pé-ante-pé ela poderia se aproximar do palco das atrações e discreta como estava à janela quando o casal deu as caras ela poderia abrir à meia-visão a porta que obstaculava a passagem e com isso saciar sua vontade de mulher casta, virgem aos 27 anos, de obter pelo menos platonicamente uma transa. A sorte com homens, que sobrava à irmã, lhe faltava por causa das escolhas que fez ao longo da sua trajetória vital, devido à baixa permissividade ao pudor que lhe fora imposta pelos pregadores das congregações religiosas que fizera parte.

Tão possante quanto os ataques dos guerreiros do filme de ação que ela assistia foi o impulso que Vera sofreu para dar um basta ao moralismo que só a estava atrasando a vida e a causando opressão e sofrimento em nome de uma ética criada por mortais enganadores se passando por emissários de Deus para só ela manter. E pé-ante-pé a branquela de corpo esbelto e cabelos amarelos desgrenhados partiu para dar asa à sua imaginação. E, se não podia – ainda – ter a sorte da irmã, pelo menos se degustaria ao vê-la em ação. Se lhe ocorresse a tentação de desfrutar do que ela acreditava ser pecado, o automassageamento genital visando o orgasmo, ela, sem delongas, procurando o máximo de discrição, se renderia a ela e com isso, quem sabe, iniciaria sua libertação sexual e mental.

Sem esperar

Uma trapalhada fez com que ele saísse mais cedo para o intervalo de almoço. Atravessou as dependências da empresa onde trabalha e retornou trazendo uma marmitex. Foi para o refeitório. Havia um tanto bom de gente por lá. Mesmo tendo bastante mesa sobrando, ele custou a decidir onde sentar. Sentou-se de frente para uma mulher que ele não conhecia. Coisa que era de praxe.

A garota apresentava sinais de que queria conversar. O problema era só em escolher o assunto para dar início a uma conversa. Ele estava elétrico, como vem lhe sendo ultimamente. Sente impulso de fazer contato com mulheres, que aparece-lhe logo um assunto ou uma situação para consumá-lo. Fazia parte de seu estado-foco. Aquele estado que te deixa, mesmo que inconscientemente, de prontidão para atingir seus objetivos.

Hipnoticamente, ele arrancou dela um sorriso com os olhos por trás dos óculos, enquanto ela mastigava o que comia. Ele armou o bote.

ELE: Temos que apressar, pois o tempo é curto, acha o mesmo?

Ela gostou que ele iniciasse uma conversa assim. Respondeu com o mesmo sinal de poucos instantes atrás.

ELE: Acaba que esse refeitório é o único lugar em que podemos conhecer as pessoas que trabalham na mesma empresa que a gente e não podemos aproveitar dele para isso por causa da pressa.

Era uma empresa onde trabalhava muita gente. Uma fábrica.

ELA: As pessoas que possuem o mesmo horário de almoço podem se encontrar mais vezes.

ELE: E de vez em vez, acaba criando um relacionamento e saindo para se divertir depois do horário. É o jeito, concorda? [riram os dois]

ELA: Acontece de isso se dar na primeira vez.

Riram olhando um para o outro compenetradamente. Um clima estabelecido naturalmente os ajudou a arriscar desprender sem cerimônias movimentos típicos de flerte, olhares focados e uso de frases e palavras abordadoras.

ELE: Pode ser esta uma dessas vezes.

Ela era tímida e cheia de julgamentos auto-aniquiladores, mas estava cansada de perder tempo e de não conseguir o que quer por causa dessas coisas. Deixou para lá o que ela dizia sempre para si mesmo, e o que ela ouvia de outras pessoas, a quem ela achava que devia satisfação.

ELA: Se você não tiver nenhum outro compromisso e quiser que seja esta também a vez de sair para divertir depois do horário, eu concordo.

Riram os dois quase em silêncio e trocaram telefones. Havia apenas o turno da tarde os separando de um promissor encontro.

Não era a hora

Uma coisa que quem pretende se tornar um conquistador ágil tem que saber é leitura fria. Interpretar gestos, expressões faciais e posturas com que as pessoas se comportam. E uma pessoa de pé em uma estação de ônibus, olhando, abraçada bem firme à bolsa, para o ponto onde o mesmo pára e as portas se abrem para os passageiros, não está exatamente em um momento propício para receber um flerte. O foco dela está em seu interesse absoluto. E ainda existe sua individualidade para tratar.

Ele olhou para a loira de lábios grossos mordiscantes e com o cabelo escorrendo no rosto cobrindo um dos olhos e a achou estupenda. Sinalizou seu íntimo caçador de conquistas: “eis uma chance”. Tudo que ele tinha que fazer era promover mudanças no aspecto dela. Se ele conseguisse fazer isso ele baixaria a guarda dela. Teria que usar seus truques de influência à distância.

Ele percorreu com os olhos atrás do anel dedo duro na mão esquerda dela, pois, aparentemente Loira Lábios Grossos parecia casada. Ele não encontrou entre os tantos anéis que ela usava o que poderia ser uma aliança de casamento, mas a impressão continuou valendo. Sua intuição é que lhe estava dizendo. Outra coisa que conquistadores precisam desenvolver é comunicação excelente com o seu eu interior, que é o seu cavalo.

Bem, você sabe, o lema do conquistador é “o tempo voa, amor”. E a maior perda e a única que o conquistador lamenta é a perda de tempo. Não que devemos agir inconsequentemente e invadir território dos outros. Se ele viesse a constatar mesmo o laço matrimonial na vida dela expresso de alguma forma indubitável, sua caçada pararia por ali.

E o ônibus chegou na estação e abriram-se as portas. Ficou sabido então que esperavam a mesma linha. Ela entrou primeiro. Ele a seguiu. Não havia chances para sentar. Ele ficou ao lado dela. Perto da orelha esquerda dela. E armou o bote.

A estratégia era usar a telepatia. Influenciá-la a ter pensamentos que a fizesse imaginar que ele tentava uma aproximação. Se ela o fizesse, ficava a cargo dela decidir se lhe interessava ou não a oportunidade. E era ela quem ia iniciar essa aproximação. Ele, para todos os efeitos, estava de pé ao lado dela, a observando perifericamente enquanto aguardava o momento de sair da lotação. Nada mais do que isso. Coisa que todo homem faz se perto de uma mulher atraente.

Aquela sensação de estar a ser observada pairando na fronte dela a deixou perturbada. Ela se mexia demais, olhava pra ele com olhar de súplica, querendo falar-lhe alguma coisa. Fazia que ia e não ia.

Até que resolveu dar uma demonstração gratuita de feminilidade, de mulher que não resiste a uma abordagem masculina bem construída, mas que é honesta e que sua honestidade e respeito para com o seu sobrepõem qualquer tentação. Fez aparecer para ele a aliança no dedo anular da mão esquerda, que jazia sob um anel com pingente e parecia fundida a este. Mordiscava ela os lábios enquanto fazia isso. E olhava para seu reflexo no vidro da janela lhe frontal do ônibus. Ele observou a agitação dela e também o lindo relógio analógico que ela usava. Ela imaginou que lá vinha a velha e ridícula cantada de perguntar a hora.

ELE SORRINDO PRA ELA: Só pessoas de extremo bom gosto é que usaria um relógio desses. Que bom que elas ainda existem. Desculpe eu atrapalhar seu sossego, mas é que você me ajudou a decidir voltar a trabalhar com vendas desses artigos.

ELA PRA ELE: Volte sem medo, pois, eu te compraria o que vendesse.

Ele se deu por satisfeito por desestabilizá-la e cumprir o objetivo de lhe mudar o comportamento de quem apenas se interessava em aguardar um ônibus para um favorável a ele. Se estivesse em uma missão de venda ele teria vendido um exemplar do seu produto. Isso lhe incentivou a apostar no ramo. A liberou, então, da sedução hipnótica que ele provocava nela e saltou na próxima parada.

A técnica de influência a distância que ele usou ensinarei no livro que decorrerá deste blog.

Originalmente postado no blog “Voa o tempo, amor”.

Encontro marcado pela internet

A onda agora é sair para encontrar alguém que se conhece apenas virtualmente. Alguém que até o momento derradeiro é apenas uma ideia de uma pessoa colocada na mente de outra por meio de imagens e textos. Nada seguro. Nem quando rola uma webcam para deixar as cartas sobre a mesa, pois, aquele ou aquela que aparece na tela pode ser só o ou a cúmplice de um trato onde um fala e outro escreve. E assim proceder até a hora do encontro real, que inevitavelmente desvenda tudo. E este do conto aconteceu logo, sem perder muito tempo com conexões longas e diárias. Apenas três semanas se passaram, desde que se conheceram por intermédio involuntário de uma amiga em comum.

Encontraram em um barzinho próximo ao zoológico da cidade. Ela pareceu a ele mais interessante do que o que conhecera até aquela hora. Ele pareceu a ela o sujeito que fez valer a aposta. E partiram para o desafio dos primeiros instantes a conversar ao vivo, de perto. Sentindo o cheiro do outro. Que junto com o tato e o paladar era um dos sentidos que faltavam. O homem ainda tem que melhorar e muito com suas invencionices que buscam suplantar os problemas da vida atual. Encontros presenciais sem complexos, por exemplo.

As perguntas corriqueiras de primeira vez a sair juntos foram dispensadas, pois, estas já haviam sido respondidas via inbox de uma rede social. Uma ou outra coisa foi confirmada. E como não mentiram em nada, foi melhor aproveitar o momento para tecerem assuntos mais envolventes e adaptados ao instante. Torcia ela para que ele fosse ao vivo tão inovador em matéria de assuntos quanto era virtualmente, quando tem à disposição ferramentas como o Google Search para ajudar a compor uma cantada por exemplo.

ELE INICIANDO A CONVERSA: Fiquei admirado, pois você me parece bem diferente do que o que eu vejo pela câmera.

ELA: Melhor ou pior? [risos de ambos]

ELE: Eu diria que estou mais feliz com o que vejo aqui e agora, mas não que eu já não estivesse feliz com o que eu esperava de encontrar.

ELA: Eu tenho a mesma opinião.

ELA DE NOVO: Eu gosto muito do que você escreve, do que compartilha, das suas opiniões.

ELE: Tenho às vezes que me policiar muito. Opinião é algo que a gente não quer abrir mão, mas que nos trai muito. Fico feliz de você me dizer isso. Mas, com certeza, o que vai valer aqui é a sua opinião.

ELA: Tipo… a escolha do que vamos beber ou comer será minha? [risos dos dois]

ELE: Qualquer decisão por aqui será sua.

E foi parar na mesa dos dois um magnífico jantar regado a bebidas convencionais e bebidas inusitadas. O tempo passou tão devagar quanto devagar era o ritmo da música ambiente que vinha de pequenas caixas de som penduradas em cada pilastra de madeira que segurava o telhado colonial da grande área onde ficavam as mesas daquele restaurante especializado em servir comida mineira. A música foi o melhor paliativo para ele por lenha na conversa dos dois e enaltecer a beleza madura da elegante ruiva vestida para o que viesse. E o que de melhor podia surgir, surgiu. Naturalmente. Não ali, é claro!

Originalmente postado no blog “Voa o tempo, amor“.

As maravilhas que faz uma xícara de café

Eles estavam em um salão. Era uma reunião de congraçamento. Havia terminado o treinamento de uma semana, dado por uma loja de departamentos para trinta pessoas que iam ingressar na empresa e trabalhar com vendas. Sete moças e oito rapazes, que resistiram até o último dia de treino e passaram no processo seletivo eliminatório, iam dividir as vagas. Dali em diante seriam colegas de trabalho. Cada um marcaria presença em um setor de vendas específico da empresa.

Havia uma mesa em um canto do salão e sobre ela vários comes e bebes. Salgados, componentes para montar cachorro quente, garrafas de refrigerantes e caixas de suco. As pessoas, todas bem dispostas, passavam para lá e para cá animadas e não deixavam de ir até a mesa para beliscar algum comestível, fazer um cachorro quente ou encher copos com refrigerante ou com suco.

A outra opção era sentar em uma das cadeiras dispostas nos cantos do salão, em grupos de três, quatro ou cinco cadeiras, e formar um grupinho para conversar sobre como foi o curso ou sobre como serão os dias no novo emprego. A alegria no espaço contagiava quem entrasse nele.

Ele estava próximo a uma máquina cafeteira que havia no local. Pensava em degustar mais um pouco do líquido que só estava presente na celebração porque o salão reservado para ela, nos horários de intervalos dos funcionários efetivos funcionava como área para recreação e lanches. Mas, não foi só Ele a ter se interessado em bebê-lo.

Nessa vez que foi até a máquina para preparar para si mais uma dose de café expresso, ele observou ao redor para ver se alguém jazia com xícara vazia na mão. E seus olhos encontraram Ela, sentada sozinha em um canto, com ar sublime e uma xícara pendendo em uma de suas mãos, como se existisse uma leve preguiça de levá-la até a mesa.

Logo ela, que o rapaz achou bastante interessante de se conhecer em um momento extra curso, fora das aulas que estavam tendo. Ele, em vez de preparar só uma dose, preparou duas. E foi para a direção dela.

ELE: Observei que você está segurando uma xícara vazia, imaginei, enquanto eu enchia uma para mim, que você pudesse querer mais um pouco. Aqui está! Se não era isso, não precisa aceitar, eu gosto muito de café! [disse risonho o rapaz]

ELA: Imagine! Claro que aceito! Sente-se aí, eu acabei ficando sozinha nesse canto. Obrigada pelo café!

ELE: Não há de quê! Sei que faria o mesmo por mim!

E os assuntos que os dois levaram, até certo ponto rondaram o que aconteceu no curso. E depois aconteceram daquelas descobertas de coisas em comum que sempre rolam de acontecer quando duas pessoas comunicativas se apegam num canto para conversar. E disso iniciou-se um relacionamento que ficou para ser desenvolvido no novo ambiente de trabalho de ambos.

Originalmente postado no blog “Voa o tempo, amor“.

Começando bem

Tudo indicava que ele ia se dar bem naquele novo emprego. Os especialistas do departamento pessoal da loja de departamentos acharam que ele seria bem aproveitado no setor de vendas de calçados feminino. Ele passava a impressão de que tinha carisma com as mulheres. Elas poderiam entrar no setor só para falar com ele e numa dessas, se ele fosse mesmo bom, arrancaria delas no mínimo uma venda básica. E ele também sairia ganhando, pois, o cargo era comissionado e a empresa íntegra com os pagamentos de cumprimento de metas.

Em seu primeiro dia de trabalho, lá estava ele aguardando a entrada de freguesas. Vestia o traje social de vendedor da loja. No bolso da camisa, bem no lado do coração, uma caneta foi deixada juntamente com um porta cartões contendo cerca de 25 unidades. A loja mandou preparar os cartões com seu nome durante a semana que intercalou o fim do treinamento e a estréia no trabalho. A semana dedicada aos processos de admissão.

Eis que, quase uma hora de espera, pois era um dia de semana, uma segunda-feira, duas mulheres balzaquianas invadiram o setor de calçados femininos para conhecer as promoções que estavam vigorando. Ele nem cogitou ir até lá para perguntar “posso ajudar”. De antemão ele já sabia que isso está entre as coisas que vendedores afoitos fazem e que cliente nenhum gosta de ser alvo dela.

Mas, o treinamento exigia que ele o fizesse. Ele relutava quanto a arcar com a abordagem clássica, mas sabia que precisava usar sua criatividade para abordar as freguesas. Transformou sua entrada de vendedor de sapatos querendo realizar uma venda em uma entrada de conquistador de mulheres bem sucedido. Sem esquecer de seu lema: “hoje o tempo voa”, logo, nada de perder tempo.

ELE: Bom dia! – Disse seu nome para se apresentar – Sou vendedor aqui desta seção e estou à disposição de vocês, mas não quero incomodá-las. Quero que fiquem à vontade e com o meu cartão. – tirou do bolso seu porta cartão, já abrindo a minúscula caixa – Se precisarem de alguma coisa é só levá-lo até mim. Se desejarem fazer isso noutra hora, é só levá-lo com vocês!

As madames ficaram surpresas com a abordagem. Se sentiram pressionadas a levar o cartão até ele. E nem era porque haviam decidido realizar uma compra. Mas a compra foi feita.

Originalmente postado no blog “Voa o tempo, amor“.

Trabalho divertido

Novo texto migrado de um blog de minha autoria.

A administração do resort praieiro avaliou os resultados que Ele apresentava prestando serviços de garçom e resolveu explorar isso em outras áreas dentro do hotel. Tinha em mente adaptar sua serventia combinando os serviços de atendimento à mesa com os de um relações públicas. A ideia era que ele se misturasse com os fregueses em determinado momento após acomodá-los ao ambiente recreativo do restaurante, tendo substituída a tarefa de garçom por outro profissional do ramo, se possível igualmente capacitado para atender e entreter. Isso desde que os fregueses o quisessem. E nisso, ele abordaria a clientela a incentivando a solicitar petiscos e bebidas exóticas que a casa servia, divulgaria os eventos promovidos pelo resort, arrancando o interesse dos clientes em presenciá-los, e formaria, com isso, um adicional de receita bem prodigioso.

A primeira missão estava em curso. Ele tratou de conduzir turmas diferentes para mesas próximas, sem que estas se dessem conta de que ele queria uni-las. E foi o responsável por levar os pedidos e trazer, junto com um companheiro, as bandejas com os consomes solicitados. Um dos retornos dele às mesas não teve volta para a cozinha, só a do companheiro. Ele fez o combinado, se misturou aos clientes, primeiramente os induzindo simpaticamente a observar alguns truques de malabares feito com garrafas de champanha fechadas. O risco de elas caírem, se quebrarem e jorrarem o líquido para toda parte havia, mas, a plateia, não sabendo do improviso e imaginando ser um truque controlado, nem notou essa particularidade.

Enquanto ele jogava garrafas para o alto e as pegava de volta, esbanjando confiança, Ela, que estava em uma das turmas, admirava a façanha. Não a de tocar o número até certo ponto simplório, mas, por cativar a audiência, que, a bem da verdade, estava ali para ser observada e não o contrário. E ela o ouvia falar, olhando focado para as garrafas que subiam e desciam, enquanto operava.

ELE: A vida é cheia de surpresas. Vocês concordam?

A PLATEIA: SIM!

ELE: E cheia de altos e baixos. Essas garrafas podem muito bem ser um de nós! E aquele que serve pode ser servido; o que admira pode ser admirado. Basta termos carisma. E vocês têm. É por isso que eu estou os servindo e eu estou admirado com vocês. Vamos brindar! O que acham que combina com esse clima que estamos experimentando neste momento? A casa tem tanta coisa exótica, que são exclusividade dela. Querem experimentar?

E a audiência toda envolveu-se no show inesperado e provou dos demais diferenciais do resort. A tarde passou bem divertida e o turno virou sem que o tempo passasse depressa e sem que fosse percebida a virada. Ele terminou o expediente na companhia Dela. Foi quando as garrafas de champanha foram abertas, mesmo com a bebida estando quente, e um grupo de boêmios seguiu em direção à praia para admirar o luar, que até então só admirava.

O livro “Contos de Verão: A casa da fantasia” conta a história de uma pousada que arriscou competir no mercado hoteleiro em um paraíso tropical cheio de tubarões do empreendedorismo, apostando em inovações no atendimento e no talento de cada funcionário, não interessando a rudimentarização da sua função.

Ele esteve estudando ela

Continuando a migração de postagens de outro blog de minha autoria que faço por aqui.

Não é verdade que as mulheres são interesseiras e que elas preferem os sujeitos ricos com os seus carrões disponíveis para levá-las aos mais mirabolantes lugares. É verdade que esses sujeitos pensam assim e plantaram esse pensamento na mente das pessoas. Isso durante longos anos de doutrinação. E agora que todos aceitam essas ideias, eles se sentem confiantes em qualquer abordagem, pois possuem um passaporte que cuida de tudo por eles, que são seus pertences e a boa situação financeira propagada como a desejada pelas mulheres para terem os homens que as quiserem conquistar.

Mas, tem gente que não conta com esse passaporte e ainda assim goza de muito boa adesão junto às mulheres. Com eles elas vão aonde puderem ir, com ou sem condução própria, e se divertem de maneira inesquecível, sem dever nada para a outra opção de companhia que são os playboys ricaços.

O que faz com que esses módicos galanteadores atinjam objetivos tão sublimes dada a sua condição social? Simples: Eles ignoram o fator propaganda, ou às falácias, ou à cultura de estratégia que quem quer levar vantagem sobre eles implanta. Eles se recusam a aceitar que o que leva as pessoas a se entregarem a amazeios para o fim de se divertir sejam coisas tão finitas, artificiais e fúteis. Eles apostam na forma de abordar como acumulador de pontos, no despertar de interesse baseado na magia do encanto e da simpatia. Eles acreditam no chamado da natureza, que é aquele instinto que bate nas pessoas quando são abordadas por outras que as deixam incapazes de resistir ao que propõe o outro.

Na sala de aula da faculdade de turismo, a mocinha mais linda era disputada pelos solteirões e até pelos que mantinham algum compromisso. Isto, sim, era motivo de desinteresse para ela: já possuir um compromisso. Os caras mais endinheirados, que não precisavam trabalhar durante o dia para manter o próprio sustento e tinham o tempo livre só para estudar e flertar, sentiam-se bem à vontade para trazê-la para o grupo deles. Os menos endinheirados estabeleciam, eles próprios, limites para si e ficavam naquela de amor platônico: degustar do doce só na imaginação por não ter muita chance de prová-lo na língua.

Exceto Ele. Ele, primeiramente, não criou o interesse por ela baseando no fato de ser ela a garota mais linda e cobiçada da sala. Ele deixou que o interesse aparecesse naturalmente. É o primeiro fator que leva as pessoas umas às outras. E Ele não entraria em nenhuma disputa para conquistá-la. Ele sabe que o que é dele ele não precisa disputar, pois chega até ele. E com essa convicção ele estava sempre a passar na frente dela para lá e para cá e, sem querer fazê-lo, demonstrando sua dedicação pelos estudos, já que estavam numa faculdade, e sugerindo ser só o que lhe importava durante o tempo que gastava naquele lugar. Ela, intuitivamente, percebia essas particularidades dele. Emanava dele e chegava a ela como um gelo que ela se sentia tentada a quebrar, como um mistério que ela precisava desvendar, como uma tormenta. Ela sabia que não estava a ser rejeitada, mas sentia aquilo como se fosse uma rejeição. E rejeição não tem quem suporte sem fazer nada para mudar de figura.

ELA PARA ELE: O professor disse que vai passar um trabalho em grupo pra gente fazer. Posso formar a dupla com você?

ELE: Claro! De repente é uma oportunidade para a gente se conhecer mais do que o que nos conhecemos como colegas de escola.

ELA, SURPRESA: Eu… não sei se vou poder ajudar muito… já deve ter percebido que tenho muita dificuldade nessa matéria!

ELE, SEGURO: Essas dificuldades acabam quando a gente encontra um motivo para passar por elas. Se você aceita formar dupla comigo, eu creio que já achei o meu motivo.

A fala dele a deixou imobilizada. Ela se sentiu útil, valorizada e não como a ser observada apenas como uma decoração da sala de aula onde estudava. E por isso eles iniciaram um namoro.

Não era a hora

Uma coisa que quem pretende se tornar um conquistador ágil tem que saber é leitura fria. Interpretar gestos, expressões faciais e posturas com que as pessoas se comportam. E uma pessoa de pé em uma estação de ônibus, olhando, abraçada bem firme à bolsa, para o ponto onde o mesmo pára e as portas se abrem para os passageiros, não está exatamente em um momento propício para receber um flerte. O foco dela está em seu interesse absoluto. E ainda existe sua individualidade para tratar.

Ele olhou para a loira de lábios grossos mordiscantes e com o cabelo escorrendo no rosto cobrindo um dos olhos e a achou estupenda. Sinalizou seu íntimo caçador de conquistas: “eis uma chance”. Tudo que ele tinha que fazer era promover mudanças no aspecto dela. Se ele conseguisse fazer isso ele baixaria a guarda dela. Teria que usar seus truques de influência à distância.

Ele percorreu com os olhos atrás do anel dedo duro na mão esquerda dela, pois, aparentemente Loira Lábios Grossos parecia casada. Ele não encontrou entre os tantos anéis que ela usava o que poderia ser uma aliança de casamento, mas a impressão continuou valendo. Sua intuição é que lhe estava dizendo. Outra coisa que conquistadores precisam desenvolver é comunicação excelente com o seu eu interior, que é o seu cavalo.

Bem, você sabe, o lema do conquistador é “o tempo voa, amor”. E a maior perda e a única que o conquistador lamenta é a perda de tempo. Não que devemos agir inconsequentemente e invadir território dos outros. Se ele viesse a constatar mesmo o laço matrimonial na vida dela expresso de alguma forma indubitável, sua caçada pararia por ali.

E o ônibus chegou na estação e abriram-se as portas. Ficou sabido então que esperavam a mesma linha. Ela entrou primeiro. Ele a seguiu. Não havia chances para sentar. Ele ficou ao lado dela. Perto da orelha esquerda dela. E armou o bote.

A estratégia era usar a telepatia. Influenciá-la a ter pensamentos que a fizesse imaginar que ele tentava uma aproximação. Se ela o fizesse, ficava a cargo dela decidir se lhe interessava ou não a oportunidade. E era ela quem ia iniciar essa aproximação. Ele, para todos os efeitos, estava de pé ao lado dela, a observando perifericamente enquanto aguardava o momento de sair da lotação. Nada mais do que isso. Coisa que todo homem faz se perto de uma mulher atraente.

Aquela sensação de estar a ser observada pairando na fronte dela a deixou perturbada. Ela se mexia demais, olhava pra ele com olhar de súplica, querendo falar-lhe alguma coisa. Fazia que ia e não ia.

Até que resolveu dar uma demonstração gratuita de feminilidade, de mulher que não resiste a uma abordagem masculina bem construída, mas que é honesta e que sua honestidade e respeito para com o seu sobrepõem qualquer tentação. Fez aparecer para ele a aliança no dedo anular da mão esquerda, que jazia sob um anel com pingente e parecia fundida a este. Mordiscava ela os lábios enquanto fazia isso. E olhava para seu reflexo no vidro da janela lhe frontal do ônibus. Ele observou a agitação dela e também o lindo relógio analógico que ela usava. Ela imaginou que lá vinha a velha e ridícula cantada de perguntar a hora.

ELE SORRINDO PRA ELA: Só pessoas de extremo bom gosto é que usaria um relógio desses. Que bom que elas ainda existem. Desculpe eu atrapalhar seu sossego, mas é que você me ajudou a decidir voltar a trabalhar com vendas desses artigos.

ELA PRA ELE: Volte sem medo, pois, eu te compraria o que vendesse.

Ele se deu por satisfeito por desestabilizá-la e cumprir o objetivo de lhe mudar o comportamento de quem apenas se interessava em aguardar um ônibus para um favorável a ele. Se estivesse em uma missão de venda ele teria vendido um exemplar do seu produto. Isso lhe incentivou a apostar no ramo. A liberou, então, da sedução hipnótica que ele provocava nela e saltou na próxima parada.

A técnica de influência a distância que ele usou ensinarei no livro que decorrerá do blog onde este conto foi originalmente publicado. Link para ler outros contos: Clique.