Já tínhamos convicção, agora, temos também a prova

“Não temos provas, temos convicção”. Essa frase dita por Deltan Dallagnol ao indiciar Lula no caso que indevidamente lhe meteu atrás das grades fez muito efeito em 2016. Viralizou, deu origem à uma série de memes. Ironizando ou usando como bandeira para seus anseios odiosos, todo mundo se esbaldou com ela.

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O estrago que a frase fez na democracia do Brasil, no entanto, não foi nada engraçado. A convicção mudou de lado – os admiradores de Lula, ex-presidente do Brasil, acusado de corrupção, não tinham dúvidas de que ele era inocente –, porém, sem provas libertar alguém é bem diferente do que prender. Isso porque quem prende tem credencial de magistrado e isso costuma ser suficiente para que todo um sistema sucumba às decisões judiciais.

Eis que do hemisfério norte veio parar no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante, um salvador da pátria. A nação esquerdista estava prestes a ser exterminada. Totalmente desesperançosa, sofrendo abusos e ataques da ralé conservadora, que teve a irresponsabilidade de colocar no posto que foi de Lula um bárbaro disposto a promover todos os caprichos com que a elite burguesa brasileira quisesse se lambuzar.

Entre esses caprichos: surrupiar direitos do povo, dizimar inimigos e grupos étnicos e raciais à essa elite desprezíveis, desfazer de parte do território nacional e das riquezas do país. Enfim, rifar o Brasil.

Com um monte de gente sofrendo de hipnose coletiva dando seu aval para lastimáveis perdas de direitos, desde que isso significasse se vingar de esquerdistas. E da suposta roubalheira atribuída só ao PT mercantilizada ao público pela Grande Mídia.

Glenn Greenwald é um dos três fundadores do The Intercept. Jornalista, advogado constitucionalista e autor de quatro livros entre os mais vendidos do New York Times na seção de política e direito. Ficou famoso ao levar à público as revelações de espionagem contra civis que Edward Snowden – aquele que avisou Dilma que o governo brasileiro e a Petrobrás estavam sendo espionados, tal fato viabilizou a implantação da Operação Lavajato – desferiu contra a NSA, a agência de segurança dos Estados Unidos. Na época como jornalista do The Guardian.

E talvez imbuído no espírito dos pássaros das fontes de água límpida, ele botou seu jornal para dar ouvidos a um anônimo, que fazendo uso da mais avançada das mais avançadas das tecnologias colocou Deltan Dallagnol para produzir a prova de que precisava o admirador do Lula para mostrar para todo o Brasil que era treta aquilo que Dallagnol chamava de convicção.

Pareceu até que gente graúda e provavelmente metida com as falcatruas desse sistema judiciário sentia o cheiro podre de sua própria podridão vindo à tona, numa velocidade estonteante, agredir o nariz de toda a nação, que não gostou nada do cheiro. Em meio a “não dar braços a torcer” e teimosias em sustentar adesões para não deixar dúvidas de ter estado errado e de ter Q.I. menor do que aqueles que criticava, crenças da ralé conservadora titubearam. E popularidades de políticos idem.

Trataram de arrumar casos para tapar as atenções o mais possível. A imprensa aliada dos verdadeiros corruptos cortou um dobrado para noticiar exuberantes tragédias e crimes acontecidos no mundo todo; dívidas astronômicas de célebres clubes brasileiros de futebol. E até o garoto Neymar teve seus 15 minutos de fama de estuprador introduzidos nessa cronometragem.

Sacrificaram segredos que viam guardando, desejando imensamente estarem a chamar todo o regimento do Corpo de Bombeiros para apagar uma guimba de cigarro acesa no meio do deserto. Acharam que ganhariam tempo para sair do pesadelo.

Mas, não funciona mais desviar a atenção do público por muito tempo com relação à política. Agora, todo brasileiro sabe o que realmente o afeta e por isso o fútil é logo descartado.

E assim, graças ao impávido, apaixonante e infalível The Intercept, um objeto resplandecente de comunicação, a conversa – sadia para os corruptos combatentes da corrupção – tecida num aplicativo de comunicação, o Telegram, foi apresentada de um modo bastante explícito para a platéia mantida longe da verdade dos fatos sobre a prisão do Lula. Quiçá também sobre a eleição de Jair Bolsonaro. E com isso, as esquerdas foram reanimadas e estão de volta à luta, companheiros.

Fatos muito turvos começaram a ficar muito claros. Como, por exemplo, por que o STF – Supremo Tribunal Federal –  ou o TSE – Tribunal Supremo Eleitoral – não chamou o VAR (alusão ao árbitro de vídeo) para consultar as imagens da facada no mito em Juíz de Fora.

Afinal, se um forte candidato à reeleição fora tirado do páreo, um agredido por um nominado integrante do PSol – partido de esquerda – se torna para a grande massa manipulável a melhor opção.

O esfaqueador, o tal do Adélio, pra não ser prejudicado por ter cumprido o único papel na trama que daria alguma coisa desagradável para alguém fora providentemente considerado maluco e provavelmente, enviado pelo Judiciário amigo, cumprirá pena em um manicômio paradisíaco. Quem sabe chegará também nas mãos do Intercept a verdade sobre esse fato, não é mesmo? Torçamos unidos, nós que não somos trouxas!

Como Greenwald disse, pode até ser que não cáia o juíz investigador Sérgio Moro, o algoz fabricado pela CIA, agência de inteligência dos EUA, que teria condenado Luís Inácio Lula da Silva sem provas e orquestrando a parte acusadora e que virou herói nacional para um monte de babacas por estar em evidência no comando do sensacionalismo barato chamado Operação Lava-Jato.

Mas, as coisas não continuarão como estavam, sabendo-se que se de repente você precisar da Justiça contra uma parte muito forte, como um patrão, por exemplo, atrás de compensações vindas de quem pode dar, o juíz poderá ser o seu acusador. A realidade não é o seriado “Justiça Final”. Lembra?

A verdade vindo à tona vai provocar consequências grandiosas para a Esquerda. A dificuldade para o Governo Bolsonaro atingir seus objetivos vão aumentar. E as esquerdas podem cogitar, já em 2022, voltar para o posto após o término do governo indevidamente eleito, que terá sido, a partir do baque sofrido por seu ministro da justiça, em banho-maria.

Não sou ingênuo de pensar que o PT colherá novamente louros ou que Lula retornará ao posto de presidente da república. Mas, personalidades competentes e com grande credibilidade a esquerda poderá colocar na disputa pelo cargo. Eu aposto na dobradinha Flávio Dino/Jandira Feghali e deixa o pau cair a folha.

E aquilo que nesse momento se revelou aos povos
Surpreendeu a todos não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando era o óbvio
(Trecho, adaptado, da canção “Um índio”. Caetano Veloso.)

Leia o livro “Os meninos da Rua Albatroz”.

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Lula está preso ou detido?

E não é que a história de vender opinião que contei aqui rendeu?

Na volta do boteco — de um sujeito que não votou no Bolsonaro, por isso não estou boicotando —, onde gastei parte dos sessenta reais me pagos por uma opinião que dei sobre o que penso sobre o Lula, tive que passar em frente ao bar onde ganhei o dinheiro.

Jazia ainda por lá a turma que havia me abordado. E me vendo, o sujeito que me comprou a opinião quase saltou sobre mim pra me interpelar novamente.

Desta vez ele quis saber por qual motivo eu achava que Lula estaria preso. Posando de quem iria à forra  me deu duas notas de dez reais.

Quis ponderar que eu lhe devolveria em dobro o dinheiro caso minha resposta não o convencesse, mas, sabendo que convicção é estado de espírito que se escolhe estar ou não nele, não aceitei.

Bastante convencido de que desfaria perante seus colegas a imagem que lhe facultei, topou a transação.

Respondi: “Lula está preso porque o juiz Sérgio Moro o decretou prisioneiro”. Encerrei.

Nisso, o sujeito, abrindo as palmas das mãos e as afastando lentamente uma da outra, se queixou: “Não acredito que você vai querer ganhar mais quarenta reais pra discutir uma resposta óbvia dessas”.

“É a minha opinião”, ressaltei.

“E eu tive que pagar pra ouvir isso”, lamentou o homem.

“Se não está satisfeito, é porque você faz péssimos negócios”, repliquei.

E concluí: “Mas é bom que você seja assim. Poderia estar preso. Lula não está preso, está detido. Isso porque ele é bom negociador. Se ele estivesse livre, acha que esse entreguismo todo de direitos do povo, riquezas, território e soberania do Brasil estaria acontecendo assim sem estudar-se opções democraticamente? Sem haver no mínimo negociação com as bancas que representam o povo?”

“Se a elite poderosa por trás dos governos exigisse pra ele o que exigiu ao Temer e que Bolsonaro dará continuidade, ele saberia negociar de maneira que o povo saísse menos ou nada prejudicado.

Criaram um crime pra ele, arrendaram o Judiciário para sentenciá-lo, tudo para detê-lo e impedí-lo de ser candidato à Presidência da república, ser eleito e estragar-lhes os planos.”

O coronel reformado viu pontos na dissertação que fiz em que ele achou que pudesse atacá-la.

Eu ja sabia o que ele diria. E falar daquelas provas plantadas a respeito da propriedade indevida de um sítio e de um triplex, medíocres perto dos quase 500 bilhões roubados do Banestado que deveriam ter sido apurados e prestado contas do paradeiro, além de presos vários tucanos, pelo mesmo juíz que julgou Lula, e mais outros esquetes ajeitados para a mídia convencer os incautos da legitimidade da condenação, foi o que fez o tipo.

Então, respondi pra ele o que ele já devia saber que eu responderia: “Não discuto opinião que você comprou de outro vendedor”. E me mandei pra casa, deixando pra ele os quarenta reais pelo ensaio do debate da minha opinião.

Vai ver é por isso que você pensa que o Lula é ladrão

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Página de O Globo que sugere: Foi a imprensa que enquadrou Lula.

Passava eu em frente a um bar. Vários colegas, ou ex-colegas, que votaram em Jair Bolsonaro bebiam ocupando uma mesa. Um deles me viu e me chamou até eles. Não consegui evitar isso. Intuí que iriam querer cantar de galo pra cima de mim por causa da vitória do voto deles.

É que havia também na roda um coronel reformado. E sabendo do meu esquerdismo, veio debochando, torcendo os lábios e franzindo a testa, com a autêntica cara de cu, me perguntar o que eu penso sobre o Lula.

Para eles da roda, rejeitar Bolsonaro é sinònimo de ser petista e de ufanar Lula, não concordando com sua duvidosa condição de detento. O ex-presidente foi no passado o candidato de todos eles, mas, a configuração mental que eles estavam nela era de dever obrigação a alguém e sentir total desprezo por Lula.

Eu sabia que uma resposta pura e simples daria início a uma discussão longa, com rebates nevrálgicos e inconsistentes ao que eu falasse, tendo eu que suportar insultos e até correr o risco de sofrer alguma agressão, fora lidar com teimosia e tentativa de imposiçao de opinião.

Perguntei para o sujeito: “Você sabe o que é um vendedor de opinião”. E já fui logo respondendo: “É uma modalidade de renda e eu estou nela”. “Se quiser saber minha opinião terá que me pagar vinte reais”, completei.

O homem, imaginando que eu estivesse subestimando seu bolso e muito afim de me massacrar em público, me fazer virar motivo de risos para todos no local, me humilhar, disse em resposta que pagaria a proposta. Mexeu na carteira e me apresentou a ninharia.

Com a nota na mão, dei a ele a opinião que ele queria conhecer: “Lula pra mim é o melhor presidente que este país já teve”.

Riram todos e depois fizeram silêncio imaginando que eu fosse dizer mais. Coloquei a nota no bolso e já ia sartando de banda.

O indivíduo me impediu com um “péra aí”. “Só isso, não vai dizer mais nada”, completou.

“Já dei minha opinião”. Falei. “Ué, eu quero entender por que você pensa isso… Eu discordo de você”. Interpelou.

“Bem, aí você tá querendo discutir minha opinião; São mais quarenta”.

Invocado da vida e achando que tinha que prestar contas de sua fama de gente abastada de dinheiro e que não sai por baixo em uma pendenga, me passou os quarenta e ouviu-me explicar os feitos de Lula, que ele conhecia muito bem, fazer comparações com outros governos e citar personalidades, órgãos e institutos do mundo inteiro que oferecem estudos dignos que comprovam o que eu disse. Fechei minha parte.

Mas, não foi suficiente pra ele. Se virou pra mim jogando pro alto as palmas das mãos e vociferou: “E sobre Lula ser ladrão, a roubalheira que ele e o PT fizeram nos cofres públicos, sobre isso você não fala nada”.

E eu: “Essa é a opinião que outro te vendeu. Eu só discuto as que eu vendo”. E fui embora gastar em outro bar os sessenta reais que ganhei.

Obrigado, Lula, por tudo que você me fez e mais esses sessenta contos!