Por que você se mantém vivo?

Na infância ele era um garoto bem pobre. Via, junto do irmão adolescente, o pai sair de casa de madrugada para ir para a labuta. Cortava cana debaixo de sol quente quando dava a hora. Trazia para casa só o que dava para comer farinha com rapadura. A água era providenciada de uma bica. A tarefa de ir encher moringas de água era dos rapazotes da família. Iam até um açude improvisado pela natureza, que emprestava o líquido de um ribeirão e o cercava com mato propício a servir como cílio.

Na cidade grande o que mudou foi só a ocupação do pai. Ele virou servente de pedreiro. A moradia passou a ser de aluguel. A escola fundamental veio para o filho mais moço. O outro precisou abandonar os estudos para acompanhar o pai nas obras e engrossar o dinheiro do orçamento doméstico. O pequeno cuidava da mãe doente enquanto esta tomava conta dele.

Na escola, o mancebo aprendeu a gostar dos livros. E estranhamente preferiu a difícil literatura de Machado de Assis. O escritor carioca o inspirou a buscar escrever livros e a ser como o ídolo precoce. Exatamente: a escrever como Machado de Assis.

A morte repentina do pai quando o garoto contava nove anos de idade e o abandono do irmão mais velho, que deixou irresponsável e cruelmente mãe e irmão para correr o mundo atrás de oportunidades, fez com que Miguelito se tornasse antes da hora o homem da casa. A sobrevivência de si e da mãe, que, então, além de moribunda passou a ser cega, junto com o dinheiro do aluguel passou a ser as obrigações e tormentas do ainda menino. Mas, ele não desistira de escrever como Machado de Assis.

Obstinado por escrever rascunhos e sem tempo para isso, pois, suas preocupações o sabotavam, Miguelito saía todo dia a esmo e ficava à espera de que algo acontecesse no sentido de lhe garantir algumas moedas, que seriam o leão do dia. A mente, nos espaços vazios, sempre ocupava-se com o que o garoto já havia lido de Machado de Assis. Ressurreição, Helena, Dom Casmurro. Memórias póstumas de Brás Cubas. Ele tinha acesso aos livros da maneira mais insólita possível. Pode-se dizer que recebia alguma ajuda metafísica para que pudesse tê-los à sua disposição em casa, na hora livre do dia. Ler era a opção para quem não dispunha de rádio ou televisor. Ler para a mãe era um hobby feito de muito bom grado.

Os dias se passavam e Miguelito conhecia suas diferenças para com os outros da sua idade. Uns esnobavam o fato de já terem um bom emprego, mesmo não sendo na profissão preferida, e, com isso, conquistas materiais. Outros namoravam ou já constituíam família. Outros curtiam a vida a viajar para lugares exóticos e impossíveis de alguém não querer ir visitá-los se fosse influenciado por um contador de vantagens da área do turismo.

Sabendo da sua inércia diante às esnobices dos colegas que precisavam de alguém para fazer de Cristo, Miguelito se amparava em seu objetivo de escrever como Machado de Assis para se consolar e permanecer com o foco. Ele dizia para si: “Eu não quero ter uma casa boa ou um carro, eu quero escrever como Machado de Assis“. O mesmo para ter uma namorada ou viajar para o exterior. E em se convencendo disso, ele exibia um ar imponente diante às humilhações que sofria por causa de seu miserê.

Os que não conseguiam esnobá-lo devido a isso enfureciam-se. Só retomavam a sensação de superioridade quando lembravam que mesmo se mostrando indiferente às vantagens que os outros contavam, Miguelito tinha que se virar todos os dias para garantir as quitações lhe cabidas. E, se dependesse da boa vontade dos esnobes, ele carregaria essa cruz para o resto da vida e não ia fazer nenhuma outra coisa senão trabalhar exaustivamente para cuidar de si e da mãe. Jamais iria conhecer uma companheira e ter dinheiro para comprar o que quisesse ou ir aonde quisesse.

Um dia a sorte apareceu para Miguelito. Um dia ela teria que aparecer. Talvez por força do magnetismo animal que ele criava com a sua obstinação, aquele magnetismo a que se referiu Franz Anton Mesmer, veio-lhe a informação sobre um concurso literário para fãs de Machado de Assis. Podia entrar quem quisesse, mediante pagamento da taxa de inscrição e entrega de trabalhos baseados na escrita do escritor-tema, mas, de antemão já se sabia que tubarões graúdos e gente de influência ofereceriam concorrência.

Miguelito já escrevia mirabolantemente textos em seu caderno pautado, que só a mãe conhecia. E já sabia também da corrupção que ronda os concursos literários – na verdade qualquer outro tipo de concurso – e que mesmo seu texto sendo bom ele perderia as primeiras posições para os apadrinhados da organizadora do concurso. Nem mesmo o prêmio Destaque ou o Revelação estavam na disputa fora da gente do círculo. Mas, para ele a missão estaria cumprida se conseguisse enviar um texto.

Se você vê um filme retratando uma partida de futebol, não adianta torcer para nenhum dos times a disputando, pois, o vencedor será aquele que o script mandar ser. Em concursos batizados, a sensação é a mesma. Haja vista os tantos festivais de música em que o público vaiou o ganhador por considerar ter havido injustiça ou marmelada. E a expectativa de reação do público pelos organizadores era essa mesmo. Dá mais Ibope. Pouco se importam com os talentos. Segue a lista de exemplos: Reality shows de TV; o Futebol; Concursos de beleza. Não se deve acreditar em nada disso.

Porém, um dia a sorte teria que bater para Miguelito. A mesma sorte que lhe resolvia as situações para arrumar dinheiro e quitar com as obrigações estava a seu lado. Se havia marmelada no concurso a que se dignou a participar como simples participante, esta falhou. Ou, de alguma forma o anjo da guarda do agora jovem adulto Miguel da Silva interferiu na corrupção e modificou o resultado. E Miguelito saiu vencedor do prêmio máximo e teve seu livro publicado. O qual virou um best seller e tudo o que Miguelito perdeu por causa de sua obstinação, ele pôde recuperar. Isso antes dos trinta anos de idade.

E ele está por aí, a viajar não só através dos livros. Levando esposa, filhos e a mãe consigo para onde vai. Quando não, a escrever mais e mais, enquanto goza de uma de suas propriedades. A profissão que ele quis ter estava lhe fazendo fortunas tal qual uma bactéria se reproduz. Isso porque, mesmo que intuitivamente, ele sempre soube de um segredo que ele sempre fez uso nas horas difíceis.

Quem tem uma razão para viver, encontra como
(Friedrich Wilhelm Nietzsche)

Uma consideração sobre “Por que você se mantém vivo?”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: