As limitações de Deus

Achava Ele que o BRT que ia direto para a estação-terminal de ônibus onde ele descia era mais cômodo de pegar, pois, não aconteciam nas estações intermediárias a entrada de vendedores que se prostram de frente para os passageiros no corredor e dizem ladainhas em nome de Deus em vez de vender logo seus doces e salgados ou outros babilaques para a audiência. Tipo de aborrecimento que o capitalismo em crise oferece para quem não se deu bem com o regime e precisa usar ônibus.

Porém, alguns desses importunadores de passageiros viram melhor oportunidade em marcar presença no Direto. E lá ia para a quinta vez consecutiva que Ele usava a tal linha para ir para casa, cansado do trabalho, tendo o sossêgo interrompido por sujeitos que fazem de igreja evangélica os corredores de ônibus para extorquir dos passageiros uma contribuição monetária em troca de um bem temporário, pronunciando, irritantemente, a palavra “pessoal” e a frase “amém, pessoal” à cada fim de sentença.

E o homemzinho da vez, após entregar de banco em banco seu produto para aqueles que se dignam a pegar, pôs a pronunciar seu pretenso texto comotivo decorado mantendo expectativa de arrancar trocados forçados dos clientes.

“Pessoal, sou da casa de recuperação blá blá blá; não temos ajuda do Governo, nem do Estado e nem de empresários; pedimos que colaborem com a obra de Deus para tirarmos pessoas da droga e do álcool; a casa de recuperação foi primeiramente construída por Deus, depois é que foi pelo homem” e outras vozerias dos infernos.

Consta que Ele, averso ao capitalismo selvagem que vivemos, dessa vez não aguentou. Saiu do sério e resolveu levantar questionamentos para ver se o homenzinho, que se dizia ex-drogado, salvo por Deus e pela tal casa de recuperação, se tocava e passasse a só apresentar seu produto, falar o preço e deixar que as pessoas decidam se querem ou não colaborar.

“Moço, não são atributos de Deus ser onipotente, único criador, onisciente, onipresente e bondoso”. Perguntou, Ele, para o rapazinho. E o moço respondeu: “Sim, meu jovem, está em Gênesis blá:blá:blá os atributos de Deus”.

“Mas, se Deus é onipotente e essa obra é dele, pra que ele precisa que nós o ajudemos ou o Governo ou a iniciativa privada”. O rapaz imaginou “lá vem pedreira” e respondeu: “Há muitos perdidos do rebanho devido às trevas das drogas e do àlcool, meu jovem, precisam de um lugar onde possam reencontrar o caminho da luz; Deus fez essa casa para abrigá-los e receberem tratamento.”.

“Ué, mas quem criou tudo não foi Deus”,”Por que ele criou a droga, deixou algumas pessoas entrarem nela, fugir do rebanho e ter que entrar em casa de recuperação para se tratar”. Encurralou mais um pouquinho o questionador. E o vendedor ambulante: “Deus criou as coisas boas, senhor”.

“Ué, mas, Deus não é único”, “Se ele não criou as coisas ruins, então, existe outro criador”. Mais ataque sofreu o missionário. “Não, senhor, o diabo apenas engana as pessoas fracas e as fazem cair em perdição”, “logo elas precisam ser recuperadas”. Rebateu mais uma vez o suposto ex-drogado, terminando a frase com um “Amém, pessoal” pra ver se recrutava apoio ou se parava o interrogatório com a distração que provocaria a resposta coletiva que não houve.

“Ah, mas… se Deus é onisciente, ou seja: sabe de tudo, como o diabo consegue enganar até ele, distraí-lo e ir corromper seus servos”. À essa provocação, a resposta que o inquiridor obteve foi: “O diabo é ardiloso, aproveita do caminho por onde anda aquele que ele tenta”, “devemos evitar certas andanças para não sermos capturados pelo tinhoso”.

“Como assim, Deus não é onipresente”, “Onde ele está quando isso acontece”. Já “P” da vida, o emissário da casa de recuperação respondeu: “O Diabo não engana Deus, Deus permite que ele faça suas maldades, mas, ele no final sempre é derrotado”. E pronunciou em tom perguntativo um “Glória, irmãos”. Que novamente ficou sem resposta. E lá veio outro questionamento.

“Mas, Deus não é bondoso”, “Por que motivo ele deixa o Diabo enganar os servos do seu rebanho”. Ficou para aquele público, com essa questão, a perfeita explicação da razão de viver-se um capitalismo selvagem, no qual os negócios precisam que as demandas sejam fabricadas e uma série de instituições que deviam zelar para que haja legalidade, como o Governo, fazem vistas grossas para que o consumo – combustível do capitalismo – apareça.

No caso, as casas de recuperação e até mesmo a indústria médico-química-farmacêutica, precisam que haja doentes para provê-los de consumidores; o narcotráfico e a indústria de bebidas alcoólicas entrariam como contribuintes para gerar essa demanda e se beneficiariam do lucro que o consumo do alcoólatra e do drogado geram; várias outras indústrias e comércios se beneficiariam com a forma que o viciado se vale para arrumar dinheiro (roubo de celular, por exemplo, faz a vítima comprar outro aparelho: ganha a fábrica de celular e outros empreendimentos); instituições como o Judiciário e as polícias fingiriam de bobo para que esse pessoal pudesse roubar em paz; nesse meio se vê também geração de emprego, a maioria informal; o Governo – que só mama nas tetas de todos nesse nicho – fatura com arrecadação de impostos, cuja maior parte é sonegada, mas, aparecem tributos suficientes para sustentar de bolso cheio a máquina administrativa e políticos. E nisso a engrenagem roda. Preciso falar das igrejas ou da Religião?

E o filho-de-Deus esgotou-se: “Tá bom, cara, se você não quer comprar o que eu trouxe para vender, também não atrapalhe”.

E ficou assim:

“Tenho o meu sôssego atrapalhado e isso pode, não é mesmo”, “Mas, não vou atrapalhar mais o seu marketing para vender produto imprestável e de procedência duvidosa, mas, vou deixar meu último questionamento para esse povo refletir e parar de dar essas esmolas para vocês e providenciar, com o desinteresse de vocês de virem esmolar no ônibus, para que nossas viagens sejam tranquilas: Por que quem mais define Deus com atributos infinitos é quem mais o põe em situação de limitação“.

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