A necessária trajetória do brasileiro até o fascismo – Pt. 1

fascistas

Empossaram Jair Bolsonaro. Uma campanha iniciada por volta de 2012. Dois anos antes, o eleitor dera o recado de que faria perdurar na presidência da república o PT. As intenções do petismo eram claras, o pais rumaria para o socialismo. No máximo, inauguraria um tipo de capitalismo próprio, suficiente para posicionar o Brasil na condição de, juntamente com os poderosos clássicos, dar as cartas para outras nações. Isto incomodou bastante esses poderosos.

O Brasil petista impressionava o mundo. Internamente, as façanhas de Lula e Dilma em termos de avanço social e redução da desigualdade entre os naçãos motivava os que idolatravam o socialismo, mas haviam desistido do sonho de ver novamente o regime superar sua antítese, o capitalismo.

Lula chamou de marolinha uma crise econômica que abalou os Estados Unidos. Fez este país lembrar da União Soviética durante a Grande Depressão norteamericana. A participação do Brasil no Mercosul e no Brics intimidava as maiores corporações do planeta com a ameaça de perderem elas o posto de comando dos mercados mundiais de toda sorte.

Cuba e Venezuela, na América Latina, recebiam investimentos do governo brasileiro. Em outros continentes, de alguma forma a expectativa de ter o Brasil como parceiro em negócios era muito grande. E o principal de tudo: o Brasil encontrou petróleo em larga escala em seu território e tinha governo macho o suficiente para não deixar o Tio Sam e as seis irmãs do petróleo botarem a mão. “O petróleo é nosso”, como em campanha nacionalista dizia em seu tempo Monteiro Lobato.

Viabilizaram então estudos para descobrir o que levava o povo a não largar o osso. O grande avanço social, erguimento das classes então desfavorecidas e redução da pobreza e do analfabetismo eram premissas óbvias. Mas, em contrapartida, facilmente manobráveis para deixarem de ser. A mão que balança o berço da população, a mídia, sempre esteve à cupula invisível à disposição.

A cúpula do poder invisível, dona dos negócios que viabilizavam os avanços que Lula e Dilma proporcionavam, dona também dos veículos de comunicação da Grande Midia e dos principais cargos do Judiciário, poderia articular crises financeiras e de emprego, que levariam a população ao estado de choque, que a faria repensar se eram mesmo duradouros os benefícios sociais que bancavam sua prosperidade. Tanto podiam que o fizeram.

De uma hora para outra, pessoas começaram a perder seus empregos; a inflação voltou a assombrar; protestos sem causas claras e greves ganhavam – obviamente – destaque na mídia. Até banqueiros resolveram fazer greve – ou pelo menos veicular a informação de que estavam parando por não suportarem a suposta instabilidade econômica que experimentava o Brasil. Midiaticamente, o país virava uma Venezuela.

Nem precisavam se lançar à mascaração da verdade no campo socioeconômico. Dependendo tanto do Estado, a relação entre patrões e empregados e entre mercados e consumidores, com o Estado equilibrando as contas de cada parte, ora dando deduções de impostos, ora incentivos fiscais; ora aumentando a empregabilidade aumentando o número do funcionalismo público, gastos de políticos e ainda cuidando da manutenção de benefícios sociais como o SUS, o Prouni, o Fies ou o Bolsa Família, por exemplos, em alguns anos o país quebraria.

Os cofres públicos quebrariam tão logo as empresas iniciassem suas quedas devido à alta de juros e excesso de direitos trabalhistas para arcar com os empregos. Tendo que enfrentar o próprio governo em certos mercados. Como o do petróleo, por exemplo. Não bastavam escolas, hospitais, transportes, creches, restaurantes públicos para diminuir o empenho de empreendedores e aumentar o número de funcionários a mamar nas tetas dos impostos que a iniciativa privada com muito suor arrecadava e transferia para o Estado.

Desde Fernando Collor de Melo era preciso romper com a política socialista que afetava a economia e o trabalho originada no Estado Novo de Getúlio Vargas. A conta que os implementos de Vargas gerava tinha data-limite para estourar os cofres públicos. Lula foi um dos que tinham o compromisso de fazer as reformas trabalhista, previdênciária, agrária e política. Mencionou todas elas em seu discurso de posse de seu primeiro mandato. Mas também não o fez.

Em vez disso o PT, aliado à várias esquerdas, e também liberais-conservadores, partiu para estatizar ainda mais o Brasil. Foi dado ainda mais direitos para o trabalhador, o que deu um soco na capacidade dos empregadores de empregar. O liberalismo econômico passou a ser um mal necessário, mas, não era Lula ou quaisquer dos partidos socialistas a colocar a cara à tapa para realizar essa mudança inevitável, que já se mostrava inadiável. Seria auto assassinato de reputação e traição ao povo as esquerdas metidas nisso. O povo jamais entenderia se por ele Lula se sacrificasse mudando extremamente de lado, de ideologia.

Só que a difusão dessa conscientização toda não foi suficiente para levar o eleitor a não reeleger em 2014 o PT. Dilma assumiu a presidência da república em 2010, tendo muito, em campanha eleitoral, contribuido para não ser eleita. Coisa que voltou a fazer em 2014. Nas duas vezes ela até que correu o risco de atingir seu objetivo, porém, com o voto da maioria dos eleitores indo parar na candidatura de entes de esquerda. Aí de nada adiantaria o esforço.

Precisaram, então, refazer os estudos para saber como recrutar o voto dos eleitores. Daí veio a percepção de que o PT formava curral eleitoral. Teoricamente, empregava táticas de marxismo cultural para isso. Mas, não era nada disso. As forças organizadoras por trás de cada componente desses currais é que se submetiam ao PT, o elegendo como padrinho de causa. Foi de tabela que o partido ganhou fama de amparar os excluídos da sociedade.

A elite golpista – neoliberalistas conservadores, donos de negócios e de altos cargos na sociedade, gente rica – passou a articular ataques ao PT nesse sentido. E todos os grupos que se destacavam nesses currais foram acusados de crescer de contingente graças a incentivo do PT e de seus aliados de esquerda. Criaram rejeições implícitas e explícitas à homossexuais, nordestinos, negros, trabalhadores sem terra, drogados, índigenas, quilombolas, latinoamericanos. Até o crime organizado foi associado ao partido. Ateus, comunistas e intelectuais tiveram suas marcas sociais abaladas e malquistas pela sociedade, mas, por serem habilidosos os membros desses grupos a marginalização deles foi tiro que saiu pela culatra. Graças a Deus!

O homossexualismo, por exemplo, passou a ser propagado como coisa de petista e de esquerdista. E para que o eleitor-alvo não deixasse de dar importância a isto, dizendo coisas como “e o que tem isso a ver“, marginalizaram o grupo. Colocaram na cabeça de boa parte da população que havia nesse fato o risco de acabarem com a boa moral e os bons costumes ou de acabarem com a família e com a necessária para o Sistema fé em Jesus Cristo. O canal principal de propagação dessa marginalização foram as igrejas. O bichinho que propagava a revolta contra os homossexuais fora colocado no sangue da população. Era o embrião do futuro ódio ao PT.

Só que o culpado do crescimento do homossexualismo não foi o PT. E nem as esquerdas. Os mesmos que fizeram com que os homossexuais ganhassem voz e fizessem reivindicações a partir da gestão de Dilma Rousseff estarão atuando durante a gestão do PSL. Eles são marxistas livres de partidos. E são invisíveis. E têm poder. Corrompem a sociedade a atingindo a cerne de muitas maneiras, utilizando vários grupos sociais. Incluindo os mais ferrenhos na defesa do capitalismo, os mercenários encripados evangélicos.

O que é possível usar para vincular as esquerdas ao crescimento do que o ex-senador Magno Malta chamou de “ditadura homossexual” é o fato de muitos políticos defensores de causas sociais segmentadas se associarem às legendas esquerdistas. Eram só elas que os aceitavam. Se elas o faziam para construir seus cercadinhos de eleitores já é outro assunto. E com toda certeza era pra isso que faziam. Todos querem acesso ao poder, no fundo ninguém se preocupa com o povo. Politicamente, esquerdistas em nada se diferem dos seus opostos.

Políticos se constituirem em bancadas específicas para representarem grupos sociais não é privilégio de nenhum governo. O próprio governo Bolsonaro se organiza assim. Tem nele a bancada da bala, ruralista, evangélica. Permitir que hajam representantes no parlamento só de grupos que interessam ao governo ou a seus financiadores de campanha é antidemocrático. Fere a Constituição Federal.

Logo, os bolsonaristas vão ter que engolir lidar com questões que para movê-los a eleger quem elegeram eles foram doutrinados a lutar contra. A diferença em seu favor é que Bolsonaro se diz determinado a dar prioridade para consertar tudo o que é necessário para salvar o país. Com isto pronto se poderá virar para cada interesse individual. Sem dar privilégios para ninguém. Esperemos que ele cumpra o que às claras não prometeu. E por essa razão eu não votei nele.

Continuando a história, jogar o público contra os membros dos currais eleitorais do PT não foi derradeiramente eficaz. Novos estudos de psicologia social levou à articulação do golpe do rechaçamento de imagem do partido. Associá-lo à corrupção de uma vez por todas jogaria o povo contra o partido. Daí nasceu a Lavajato, por exemplo.

A Lava-jato foi só um braço de uma articulação visando manchar a imagem do PT e das esquerdas para que o povo não voltasse a eleger o PT e fizesse perdurar o partido e suas perigosas políticas socialistas no poder. Na próxima postagem o passo-a-passo desse golpe será explicado. Das mãos de Michel Temer iniciou-se o impeachment de Dilma Rousseff. Delas, também, sua tomada do posto legítimo de Dilma e a prisão estratégica de Lula – que provavelmente teve sua condescendencia – foram traçadas. E desembocou seus planos na eleição do mito Jair Bolsonaro.

As táticas fascistas para implantação de medidas sociais ou de qualquer outro tipo demandadas para o estabelecimento do liberalismo necessário no Brasil não são diferentes das adotadas para a implantação do socialismo na União Soviética, na China ou onde quer que o sistema vermelho foi implantado. Sem autoritarismo, nenhum regime se estabelece. O povo não se sujeita às revoluções, elas são impostas. O povo sempre se acostuma ou aprende a gostar do que vive quando se torna assimilado. E inclina-se para a direita, virando conservador, para evitar que mudem. 2018 foi a primeira vez em que se viu conservadores querendo mudanças políticas.

A maioria da população – que não votou em Bolsonaro para presidente da república – durante muito tempo chamou de golpe na democracia os passos que foram dados até a posse de Jair Bolsonaro e sua explanada. Mas, com a atenção livre de revanchismo voltada para a dissertação dada neste e nos próximos textos desta série deste blog passará a chamar, possivelmente, do que Ernesto Geisel chamou de prudência democrática.

Pode ser que num esforço de liberais e progressistas, comungado com a experiência da Grande Mídia em doutrinar pessoas, a democracia brasileira seja salva e passe a ser cultuada pela população da maneira como se deve. Sem o equivocado “tudo pode”, que para ser contido teve que nos conduzir ao fascismo. Ainda que para mantermos o estado de direito nos custe algo de nossa soberania e riquezas. Precisamos, as esquerdas, dar o braço a torcer e cooperar com o governo instalado. Se trata, visivelmente, de cuidar das nossas próprias aspirações. Solução imediata não se tem melhor, infelizmente, do que o que a quadrilha empossada tem a oferecer.

Às vezes, para continuar na luta é preciso acovardar“.

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