A Deus o que é de Deus

O rapaz da T.I. – gay inconformado – fazia sua administração nas máquinas de um galpão, quando perto dele iniciara-se uma discussão entre um operador do setor e seu, também gay, supervisor. Os administradores de máquinas do setor de tecnologia da informação preparavam computadores dedicados para que os usuários que trabalhavam no galpão não mais precisassem revezar os equipamentos dos postos de trabalho.

O operador encrenqueiro, que também era analista de sistemas, desconfiava de que estivessem batizando as máquinas para então destiná-las. Com isso, a empresa espionaria os colaboradores que exerciam a função no galpão. Ele, irreverente, perguntou para o operador da T.I. se ele já podia entrar com a senha dele para ser captada pelo keylog instalado no sistema operacional.

O rapaz da T.I. ficara sem jeito com a pergunta e demonstrou dificuldade para não confirmá-la por meio de gestos. O operador encrenqueiro, que jogava na cara de seu supervisor todas as tretas que este fazia para sabotar o trabalho dos subordinados que estavam sendo perseguidos a mando da gerência, o que ele captava por meio de intuição, se valeu disso para tentar mostrar para o supervisor que havia algo bastante convincente para ser utilizado como fonte de informação, com o que ele devesse preocupar, já que todas as acusações feitas à gestão não podiam ser provadas documentalmente, graças ao trabalho maldito desta de não deixar rastros que ajudassem a evidenciar seus abusos e sua má fé para com os membros das equipes de dealers.

Como eu sei que você está batizando essa máquina e que vão me espionar e forçar-me a erros, é o que você deve estar se perguntando“. Disse ele para o jovem da T.I. E logo, ele mesmo respondeu: “Está cheio de espíritos desencarnados aqui me avisando, pois, sou sensitivo“. E continuou perante um sorriso jocoso que o ouvinte da interlocução esboçava. “Espíritos de pessoas que trabalharam em empresas como esta e partiram tendo levado para o túmulo grande angústia por causa dos abusos que sofreram e não puderam se vingar deles antes de partir. Eles esperam uma oportunidade para isso para que eles possam descansar em paz. Sou médium e empresto minha presença aqui no mundo material para que eles consigam se livrar dessa angústia“.

O falante ouviu do ouvinte um “tá bom, viu” mixado com gestos de deboche e resolveu ser mais detalhista, sabendo ele que o técnico em informática com quem dialogava era velho de casa e conheceu certos casos ocorridos na empresa.

Perto de você há uma moça que trabalhou aqui. Ela morreu em um acidente de carro quando vinha para cá. Ela e duas amigas. Ela dirigia. O carro caiu em uma ribanceira. Ela corria por estar atrasada. Buscava evitar broncas de gestor. Só sobrou uma das garotas, que ficou tetraplégica. O fato tem dois anos.

O jovem identificou logo o fato e amoleceu-se. Teve um início de desmaio. Apoiou-se numa bancada e tentou conter a respiração acelerada. Reportou ele, em seguida, que era amiga dele a mulher. Ele falou o nome dela, quase concomitantemente com o que se dizia médium. Isso o deixou mais impressionado ainda com o que presenciava.

Uma situação em que o sobrenatural está bem perto de ser revelado longe de suspeitas de fraude faz com que até mesmo o mais ateu dos mortais pense em Deus. E o rapaz da T.I. pensou. E disse: “Se você pode mesmo se comunicar com mortos, pergunte se Deus existe“. Mas, o que ele ouviu do encrenqueiro foi: “Eu mesmo posso te responder isso: Deus não existe, Deus é. Existir é próprio de seres finitos. Ser é eterno, está sempre no presente de uma forma infinita.

Era uma explicação filosófica demais para um momento em que todos os presentes estavam surpresos com a possibilidade de encontrar de uma vez por todas as respostas que procuravam sobre questões místicas e religiosas. O administrador de sistemas, por sua vez, quis saber algo das suas preocupações que lhe era urgente saber: “Pergunta se é errado ser gay e se vou para o inferno pagar meus pecados“.

De novo, o protagonista da história fez saber que ele poderia dar a resposta. “Deus não se ocupa com problemas humanos. Problemas que criamos aqui na Terra, devemos nós resolver. Depois daqui, todos somos iguais. Do mesmo jeito que o rico é pra Deus, é o pobre. Pro mesmo lugar que vai o gay, vai o hétero. Isso vale para o inocente e para o culpado pelas leis terrestres; para a vítima e para o algoz“.

Aí, danou-se tudo para o jovem ainda em estado de letargia. “Ué, um cara rouba o outro aqui na Terra e perante Deus não tem que pagar por isso“, ele quis saber. “Por que deveria“, ouviu a réplica. “Deus criou o planeta, o ser humano e nos pôs pra tomar conta dele. Era tudo grátis pra todo mundo. Precisou, pegou. Frutas bastava ver o pomar cheio, subir numa árvore e se fartar delas; peixes, havia o mar e os rios para se pescar. Dormia-se ao relento, pois, a comodidade do lar não existia para nos corromper a mente e nos fazer pensar que precisamos de abrigo. Não havia propriedade privada e nem o desejo de posse. Era só viver cada dia, satisfazendo no tempo certo suas necessidades com o que Deus deixou para nos sustentar. Quem idealizou a vida de pertences – e até inventou a palavra ‘roubar’ para restringir o ato de pegar o que é de outro – foi o homem com o livre arbítrio que Deus lhe proveu para que ele tomasse conta da Terra enquanto o próprio se dedicava ao que deve ser da natureza do divino ocupar-se com. Um ladrão, que tem impulso de pegar algo que precisa, indiferente de haver proprietário, age mais fielmente à sua natureza – ou seja: ao que Deus cunhou – do que o que limita um território e o chama de seu.

A explicação melhorara. Deu para entender a ideia de naturalidade. Desde que você esteja agindo conforme sua natureza, você não infringe regra nenhuma do ponto de vista de Deus. Na jurisdição do divino não existem comportamentos que só o conhecemos porque um dia o homem fez questão de criar hábitos e atitudes que os fizeram aparecer. Onde esses hábitos e essas atitudes não se justificam ter, o jurista não precisa se ocupar de julgá-los. Provavelmente não há distinção de sexo no plano espiritual, sendo assim, onde se encaixaria a orientação sexual de alguém?

Tava tudo indo muito bem, quando o supervisor, filho de pastor evangélico, resolveu entrar na conversa para se opor ao suposto médium. Já que eles digladiavam-se, ele quis alfinetar. E não estava nem um pouco impressionado com a provável mediunidade em foco. “Você pode até ter razão com relação a ser gay, mas não quanto a ser ladrão“. É claro que sempre puxamos para o nosso lado, mesmo quando queremos ser do contra em uma questão. “Na Bíblia não falam sobre gays, mas falam sobre ladrões. Deus não concorda com o ato de roubar, ou de matar, por exemplos“.

O supervisor teve que ouvir a defesa: “A Bíblia é uma invenção do homem. O homem diz nela o que lhe é conveniente. Os romanos eram contra o ato de roubar, por isso colocaram esse adendo em seu livro de formação e condução moral, que eles se esforçaram para passar para as gerações como livro sagrado e tornar-se conhecido e temido pelo mundo todo. Assim ficaria facilzinho para o Império Romano dominar as multidões até mesmo entre os povos cuja oposição seus soldados não eram eficientes em derrotar”.

Teimoso, o supervisor foi à forra: “Aí é que você se engana, a Bíblia é um livro escrito sob inspiração divina e não pelos romanos. Esses só compilaram e divulgaram o que estava escrito em outras escrituras“. E mexer com gente preparada dá nisso: “Se é um compilado de livros escritos sob inspiração divina, então, não pode haver falha nos relatos daqueles que canalizaram do divino as histórias e os ensinamentos. No entanto, a história da morte do rei Saul aparece no cânon bíblico em três versões: ele suicidou-se (1 Samuel 31), ele teria pedido a um soldado que o matasse com a sua respectiva espada (2 Samuel 1), ele teria sido enforcado (2 Samuel 21). A própria Bíblia diz que Deus é infalível, portanto, ele não podia ter dado versões diversas para um fato que é único: a morte de alguém.

Para não estender o assunto, o encrenqueiro do setor retomou o foco da conversa e finalizou dizendo que a questão da sexualidade passa pelo julgamento humano e só por ele. Deus não iria questionar algo que ele próprio é que permitiu que ocorresse ao homem. Ele próprio deu ao homem livre arbítrio para viver como quiser e sem levar para ele, Deus, qualquer necessidade de julgamento. Seria o mesmo que Deus confessar que ele não é onisciente, onipresente ou onipotente. Sim, ao dizer que o correto é um de dois fatos, por ser possível o incorreto o criador de tudo não o teria previsto. Isso é inconcebível para quem é eterno, onisciente e etc. E também não é concebível mesmo tendo conhecimento de haver o oposto ou o incorreto permitir que ele ocorra para uns e para outros não e deixar que os humanos se separem. A Bíblia diz que Deus busca a unicidade. Ou que se distanciem da perfeição. Deus é perfeito. Isso não é justo. E Deus é justo segundo a Bíblia. Afinal, vivemos na escuridão: ninguém sabe realmente o que faz!

Mas,  o que nos causa dissabores são as diferenças constatadas dentro das sociedades. Porém, até a Bíblia nega que Deus quisesse que fôssemos sociais. Se ele quisesse que vivêssemos em sociedade não teria criado um único casal de humanos e desejado que seus membros vivessem um para o outro permanentemente em um local, o Jardim do Éden. Não seríamos por acaso frutos do pecado cometido por Adão e Eva de comer de um fruto proibido e por causa disso dar início aos filhos e à multiplicação do homem. Começar uma sociedade foi um erro. Pecar é errar em qualquer língua. Deus não erra, mas o homem sim. É de Deus a responsabilidade de reparar nossos erros? É mais nobre perdoá-los e deixar-nos conviver com o erro perdoado de modo a querer, por nossa própria conta, não mais repeti-lo.

Ficou a reflexão: Deus no fundo é comunista e os que pregam em seu nome, os evangelizadores, todos capitalistas muito bem sucedidos, usam de engenharia social baseando-se na Bíblia para se manter no alto da casta dando ordens e recebendo sem trabalhar.

O operador encrenqueiro não confessou que também usava de engenharia social para se beneficiar do ato e intimidar o supervisor com a aparência de que ele poderia sim provar na Justiça o que seu superior achava improvável e por isso recorria a abusos contra os membros da equipe que comandava. Ele já conhecia a história da mulher que morrera em acidente automobilístico e que trabalhara naquele local. Sobre ele intuir o que poderia estar a ser feito na máquina que ia operar era algo de sua experiência profissional como analista de sistemas e ex-chefe de equipe de desenvolvimento de software.

Parte dos argumentos deste texto foi extraída do livro “Os meninos da Rua Albatroz“.

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